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Coco, cocada e quebra-queixo

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Les fleurs du mal

Acordo às cinco da manhã, faço uma hora e vou caminhar.

É calor logo cedo para os transparentes.
Em Boa Viagem, admirei-me com o que vi: cerca de cinco homens de uniforme azul royal no alto dos coqueiros.
Pensei logo: que bacana, a prefeitura poda as folhas secas dos coqueiros.
Poda?
Que nada, macacada…
Mutila.

A turma cortava, sem piedade, os brotos de coco, os cachos floridos, branquinhos e tão poéticos.
Eram dezenas, quase centenas, de cocos em produção sendo ceifados deste pobre verão.
Uns hão de dizer que é para proteger o povo que vai à praia.
Ora, bolas, quem passa debaixo de um coqueiro sabe que coco dá.
E a água vale o risco quando o sol é inclemente.

Pelo calçadão, a imagem do velório.
Algumas senhoras recolhiam galhos e flores para por eles orarem mais tarde.
E eu fiquei borocoxô.
Dia feio de gente má.

Nem Baudelaire aguentaria.

Beira-rio

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

La mariquita roja trae suerte a aquellos que lo creen.

Essa coisa de ficar enclausurada.
Quando fujo, falta tempo.
Fico em carne viva.

Nesta caixa, voando.
Você me vê – creio.
Lembro de algo que me fez bem na década passada.
Espero chover.
Será que tudo seria diferente?
Duvido.

Leio as notícias, reclamo das grades, caminho da sala para o quarto.
Vejo um pedaço do mar.
E acho que estou ali, outro lugar.

Prometo respeitar as horas.
Não começar 2012 agora.
Minto e você acredita.

Viajante.
Cigana.
Mais feliz do que ontem.
Choppinho gelado em dia de calor.

Só não pode tocar

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

escada rolante

Então mais uma vez de ponta cabeça.
Daqui de cima não consigo te enxergar direito.
O calor em excesso muda a minha personalidade.

Ando com paciência de monge budista.
E uso uma capa que me deixa mais tolerente.
A beleza ajuda e, quando falta, não atrapalha.

Ana bobinha.

Estou aqui me enrolando com as horas.
Deixando tudo por fazer.
Controlando São Paulo por telepatia.
Insistindo em não molhar os pés.
Mesmo que chova garoupa.

Ah, meu amigo, você ainda por aqui?

La bicyclette

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

On était tous amoureux d’elle… On se sentait pousser des ailes

Estávamos todos apaixonados por ela… Sentíamos crescer asas


Tropicola

Hoje sonhei em francês.
Um sonho cheio de erros de gramática.

E me deu vontade de andar de bicicleta pela cidade.
Ouvindo Yves Montand e sua paixão infantil pela magrela.
Ou haveria algo por trás dessa história?

Sair sob o sol pelas ruas – que, providencialmente, não teriam carros, ônibus, motos.
Seria uma quarta-feira de feriado, um domingo equivocado.
Todos os carros estariam em recall – falhas de freio, de marcha, parafusetas trocadas, rebimbocas gastas…
Os ônibus, em greve.
As motos, em fila indiana para bater o recorde mundial do Guinness Book.
Uma serpente fina saindo de Interlagos, esgueirando-se pela Marginal Pinheiros até a Ayrton Senna, a Dutra, perdendo-se na Fernão Dias.
Cobra coral feita com motos negras, cinzas, vermelhas, motonetas brancas, mobiletes enferrujadas, Hondas Biz (com tudo elas combinam), lambretas e seus clones mais estapafúrdios.

Pela cidade, pedestres, bicicletas, carroças, triciclos, patinetes.
E o sol de primavera.

Vida louca, vida imensa, Cazuza.
Minha bicicleta não tem cestinho ou cadeirinha de criança.
Vou colocando minhas sacolas no guidon.

Quantas vezes caímos ao patinar na areia que cerca o mata-burro da estrada?
E quantas passamos correndo e deixamos tudo para trás?

Depois das amoreiras, do limoeiro-capeta, das carambolas, atrás dos manacás…
Ali naquela terrinha onde passa um veio d’água.
Com pedrinhas de Lafaiete (em português de mineiro).
Minérios e machadinhas de índios mortos.

Foi bem ali que seu bisavô fez um pequeno buraco.
E colocou seu umbigo.
Para você ter uma raizinha mineira.

E a bicicleta?
Ah…
Uma ficou em Cuba.
Outra foi para Recife.

 

Quand on partait de bon matin

Quand on partait sur les chemins
A bicyclette
Nous étions quelques bons copains
Y avait Fernand y avait Firmin
Y avait Francis et Sébastien
Et puis Paulette

On était tous amoureux d’elle
On se sentait pousser des ailes
A bicyclette
Sur les petits chemins de terre
On a souvent vécu l’enfer
Pour ne pas mettre pied à terre
Devant Paulette

Faut dire qu’elle y mettait du cœur
C’était la fille du facteur
A bicyclette
Et depuis qu’elle avait huit ans
Elle avait fait en le suivant
Tous les chemins environnants
A bicyclette

Quand on approchait la rivière
On déposait dans les fougères
Nos bicyclettes
Puis on se roulait dans les champs
Faisant naître un bouquet changeant
De sauterelles, de papillons
Et de rainettes

Quand le soleil à l’horizon
Profilait sur tous les buissons
Nos silhouettes
On revenait fourbus contents
Le cœur un peu vague pourtant
De n’être pas seul un instant
Avec Paulette

Prendre furtivement sa main
Oublier un peu les copains
La bicyclette
On se disait c’est pour demain
J’oserai, j’oserai demain
Quand on ira sur les chemins
A bicyclette

Devagar e arredondando

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fiquei.
Sabendo que a poeira não baixou, querendo fugir da realidade, adiando a vida real.
E fui mais longe ainda, sob chuva – duas ações muito minhas.
Hoje, pela primeira vez em 3 semanas, pisei na areia em frente de casa.
Desta fuga, chega.
Não entrei.
Tubarão sou eu.
Caminhei.
A sensação de ter um corpo que não é seu é algo que torna as mulheres peculiares.
Um peso grande que traria problemas e dores para os homens mortais.
E um jeito engraçado de desapegar – para as quase imortais.
Caminhei e comi Pernambuco com gosto.

Andanças arqueológicas

domingo, 10 de julho de 2011

Centro da cidade, serra, praia. O fim de semana foi de muita exploração interna e externa.
No centro, pontos históricos e pontos folclóricos.
A rua do comércio local, rua das Calçadas…
Um mundaréu de gente e a invasão chinesa.
Angariei um mosquiteiro de 12 reais no camelô.
Fico louca para me misturar e, quando chego, sou transformada em um ser estranho à multidão. Não sei se é o branco da pele o preto do cabelo, mas ou é gringa… Daqui não é.
Talvez a roupa, o pensamento…
Suei feito tronco de seringueira.
Depois, Ilha do Leite.
Mercado com muita cerveja e charque.
Padaria sensacional.
Almoço em Gravatá – uma coisa quero ser Campos do Jordão.
E, para rebater, Porto de Galinhas com maré alta.
E aí, vida, para onde mais iremos?

Lights on

quarta-feira, 6 de julho de 2011

ciesta na rede ou "aclimatação relâmpago"

Enquanto São Paulo trinca no frio, o inverno de chuva e calor deu brecha para um dia com sol, passeio na praia e um olá ao comércio local com direito a picolé de banana.
Desde segunda estou matriculada na top academia local.
É uma delícia mergulhar numa cultura diferente da usual. E numa piscina poderosa!
Mulheres com muitos filhos, elite endinheirada, professores que admiram as novas técnicas de São Paulo (e não sabem que são melhores do que muita gente de lá)…
Gente que não te pergunta onde você trabalha.
(…)
Mocinhas lindas e loiras de farmácia, café da manhã na padoca?
Nada disso, na lanchonete dos chiques e famosos.
E os carros?
Parece um clip de rap americano.
Gigantes, pretos ou brancos, seguranças…
Ao sermos ofuscados pelas estrelas, ré e POW!
Um taxi ganhou um reparo no parachoque.
E ficou intrigado com o pedido de três orçamentos.
Passada a raiva e o momento arretado, já enviou dois. O mais barato de 120 pratas.
Conclusão: a academia é mais cara, a batida, não.

E a vida do lado deste trópico tem um tempo diferente.
Acho que começo a entender que a tal da pressa…
Bem, deixa para lá.

O que me afaga

terça-feira, 5 de julho de 2011

meia lua inteira

O ponto de ligação em todas as minhas viagens é a comida.
Talvez por isso eu goste tanto do programa “No Reservations” do americano Anthony Bourdain.
Podemos não falar a língua, podemos estar numa rápida passagem – sem direito a passeio ou museu -, mas não podemos sobreviver sem provar o prato típico.
Não, não podemos.
Descobrir as raízes através de um prato é mais do que antropologia.
Como mineira, adoro queijos e tudo o que leva lácteos na receita.
E, em cada viagem, descubro novos e melhores.
França, Portugal, Estados Unidos (por que não?), São Paulo, nordeste – como eleger um só?
E agora… Como resistir ao café da manhã preparado sem que se peça e com um carinho típico?
Este, de hoje, chegou depois de uma aula de preparação física da pesada, em que saí correndo para não atrasar e com apenas uma banana com uma colher de aveia no estômago…
Cuscuz de milho, tapioca com requeijão, abacaxi comprada na mão de um vendedor de praia.
Tudo isso em um dia de chuva abundante e quente.
Num telefonema, descubro que faz muito frio em São Paulo, que minha casa continua no caos (em escala ascendente) da obra, que os dias são cinza.
Ah…

A comida e os lugares.
Como posso ir tão longe sem sair de um apartamento?

Sobre o teatro

segunda-feira, 25 de abril de 2011

 

O gato preto cruza seu caminho

Buenos Aires anda mais pobre e fazendo arte como nunca.
Livrarias e Feira do Livro com filas de dobrar o quarteirão.
Zoológico caindo aos pedaços e com brasileiros cheios de opinião.
Circuito broadway porteño lotado de peças, musicais, dramas e comédias.
Assisti uma releitura do teatro de revista. Muita nudez, os corpos em mutação… Vedetes musculosas, peitos explodindo. Homens minguadinhos.
Cenário e figurinos com custo zero.
Coreografias que deixariam Madonna de queixo caído.
Comédia?
Aqui, rir de si mesmo é profissão remunerada.
A verborragia e o gestual frenético me encantam.

Os dois lados da moeda – riqueza e pobreza – saltam aos olhos.
Num asado com algumas das maiores fortunas do país, simplicidade pois não é tempo de exibição.
Pelas ruas, o melhor que se pode fazer com dólar a 4 por 1 é jogar um brilho nos tecidos.

E eu fico me perguntando por que prefiro essa cidade a Recife.
Síndrome de cão vagabundo ou rebeldia?
Memorias del subdesarrollo.

Qual é a sua música?

domingo, 12 de dezembro de 2010

Maestro Zezinho, me dê duas notas e eu te digo qual é a música.
Pode ser das que ouço e gosto ou o novo hit do Calcinha Preta.
Sempre acerto.

Karina, foto do twitpic dela

Eu

Eu costumo brincar por ter ouvido absoluto, mas tive que colocar (literalmente) a viola no saco.
Eu tentei: fiz violão, toquei bateria em banda, mas não tenho um corpo musical.
A música não flui.
Peguei meu banquinho e assumi: sou boa para ouvir.
É o que me resta.

Tu

Ontem, surpresa mais que agradável, fui conhecer o som da Tulipa Ruiz.
Show de fim de ano, tipo dois em um.
Karina Buhr e Tulipa.

Elas

Começou com Karina e eu tive um déjà vu.
Escreveu Patrícia Palumbo: “Karina nasceu na Bahia mas foi criada em Pernambuco onde viveu intensamente a música de raiz, as pastoras, o cavalo marinho, o maracatu.”
Pois é. Eu “conheci” Karina lá atrás, num distante Abril Pro Rock, quando ela era a menina da percussão da banda Eddie. Claro que era para odiar.
Magrela, boa de música, roqueira.
Eu lá em Recife, com cartãozinho da revista Elle, sendo paparicada por Deus e o mundo – paulista fake – e Karina dando show. Eu queria o lugar dela, pô!
Recife foi um verão louco e bem passado.

Hoje e aqui

Ontem, surpresa, reconheci aquele som e tudo o que havia ficado encubado com ele.
Cantora mignon, de camisa e calça de paetês, correndo, andando de skate, interpretando letras pesadas, de duplo sentido. Letra de gente grande.
De quem sabe que a vida não é só flores.
Fazer o quê?

Karina é tão forte que demorei para notar que Edgar Scandurra estava na banda.
A banda, diga-se, é muito boa, mas não deixa a voz de Karina aparecer.
But… Karina é uma mulheraça e tenho certeza de que ainda vai mandar esse povo todo “baixar o tom”.

Tulipa no lançamento do disco Efêmera

Tulipa: se eu fosse homo, pegava.
Aliás, ela faz a gente querer pegar sendo ou não uma Coca fantasiada de Fanta.
No fundo do palco, telão bacaninha, com ilustrações para as músicas.
Ao meu lado, uma senhora de mais de 60 berrava as músicas (das duas).
Atrás de mim, pernambucanos por todo o lado.

Break comercial

Pensa bem.
Depois de passar 24 horas badalando, show.
A chuva de verão é quente e não levei guarda-chuva.
Com meu cabelete moderno, visual Vogue em decadência…
…a mulherada seca.
E a gente faz catwalk só para provocar.
(E depois corre para o banheiro para secar cabelo, bolsa, roupa).

Você tem convite?

Isso é para dizer que, mesmo me achando o último caramelo da caixinha, fiquei super deslocada.
Eu não conhecia as músicas, eu não sou da família.
E o show tinha básicamente fãs, amigos e parentes.
Fiquei me sentindo uma penetra…
Voyeur.

Flores e passarinhos

A banda de Tulipa parece que saiu de São Tomé das Letras.
Tulipa de meia-calça rosa shocking e vestidinho preto.
Deixasse ela comigo vinte minutos e Billie Holiday (re)nasceria.
Saindo do visual, vamos ao que interessa!
Que voz.

U-a-u.

No meio do show, mulher maravilha baixou de novo em mim.
Ouvindo as músicas, pensando em como gosto de tantas outras coisas.
Na cabeça, fui mudando todos os planos já definidos e acertados.
E me reinventei (de novo).
Já me vi lá na frente em meu melhor papel – rodeada de gente artista.
Foi daí que vim e não sei por que cargas d’água me desviei da rota.
Não, não vou subir num palco nem tentar a sorte num show de calouros…
Vou só voltar a fazer o que gosto.
Curtir um som.
Dar um happening em casa.
Ir mais ao teatro.

Hoje, animdíssima, resolvi ficar em casa.
Dei uma boa floereada nos planos da ponte São Paulo – Recife.
Tudo escrito para a louca da carambola aqui não sair do prumo.

Em tempo: ontem quase me joguei numa boate.
Mas sosseguei depois de ficar vinte minutos presa em frente à árvore de Natal do Ibirapuera.
Sossega, leão!

Agora, maestro Zezinho!

Vira Pó (KARINA BUHR)

Pedrinho (TULIPA RUIZ)