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Gritos e sussurros na multidão

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dos meus (ainda) curtos 18 anos de carreira, 15 foram como jornalista, 11 dentro de uma redação.
Quando escolhi a profissão, tinha 17 anos e experiência zero de vida.

Meu primeiro dia numa redação foi uma tortura: escrever um texto curto enquanto pessoas falavam a minha volta, telefones tocavam, televisão ligada.
Sim, eu achei que iria derrotar o sistema estando dentro dele.
E peguei a onça pelo rabo.

Fui repórter da Veja, fui repórter da TV Globo.
Cresci e virei editora.
Não, nas empresas em que trabalhei, nunca recebi pedidos ou ordens para favorecer uma empresa em detrimento de outra.
Nunca me pediram para esconder os fatos.
Mas, com 17, 20 anos, é difícil entender as entrelinhas.

Em minha primeira e última entrevista com uma personalidade para as Páginas Amarelas, fui parabenizada pelos chefes: a edição ficou tão “boa” que eu chamava Demi Moore de imbecil sem talento, que eu tirava onda com o cérebro diminuto do Stallone entre outras sacanagens com as estrelas de Hollywood.
Choveram cartas – sim, naquela época as pessoas indignadas compravam papel, caneta, selos e despejavam seu ódio em uma carta – me chamando de idiota para baixo.
Uma, que me doeu com força, questionava se eu era formada e, se era, qual universidade eu pagara para obter um diploma.
Formada: colocada dentro da forma.

Veio uma outra matéria sobre o novo Código Civil e eu, depois de ralar duas semanas em cima do tema, decidi, ao ler a versão final, que não iria assinar a matéria.
A resposta veio a galope: ou assina ou rua.
Assinei.

Pouco tempo depois, bati à porta da Globo.
Foram quase dez anos dentro desta casa que me recebeu sem nem me conhecer direito.
Na Globo, jornalista é profissional que recebe um bom plano de saúde, que tem um computador bacana, que tem verba para fazer uma produção de qualidade.
A hierarquia é respeitada e os profissionais trabalham duro.
Falem o que queiram, como empresa e como patroa, a Globo foi o meu melhor empregador.

Fiz matérias com câmera escondida e tomei muito café com meu saudoso amigo Tim Lopes.
Subi morro, vi cabeça rolar – cabeça mesmo.

Um dia, fazendo a cobertura das eleições presidenciais para o JN em São Paulo, eu tive uma revelação.
Meu trabalho era pegar as imagens da agenda do dia de um candidato e montar uma matéria.
Checava a agenda do outro candidato e montava outra matéria que, obrigatoriamente, deveria ter o mesmo tempo de duração da do outro candidato.
Explico: 50 segundos de texto descrevendo o dia do candidato e 10 segundos de “sonora” / entrevista com o mesmo.
Se um candidato não fazia nada num dia e o outro se encontrava com o Elvis Presley… A-ha!
As duas matérias viravam uma nota – um texto na boca do apresentador, sem imagens.
Mas, veja bem: um encontrou o Elvis Presley que, claro, não morreu.
E o outro ficou em casa.
Para manter a “imparcialidade”, para não favorecer ninguém e nem correr o risco de ser acusado disto, o “certo” era dar a tal nota seca, sem imagens.

“O candidato carequinha passou o dia em casa, reunido com sua equipe de campanha.
O candidato barbudinho esteve com Elvis Presley e, juntos, dançaram um iê-iê-iê.
Amanhã, ambos devem participar de uma carreata na periferia da cidade.”
Ponto final, boa noite.

Confesso: demorou muito a cair a ficha.
Afinal, ganhar direitinho, conhecer todos os famosos do plim-plim e ter ótimos companheiros de trabalho desequilibram a balança.
Mas a gente não veio a passeio e peguei meu banquinho.
Fui enlouquecer com a internet, tomar na cabeça com a construção civil, fui aprender que um blog é público e que você deve ter todo cuidado com o que escreve. Hoje, vivo no mundo louco das artes.
Não sei se me encontrei, porque sou assim de virada, mas fui procurar meu espaço, meu lugar – aquele que não existe.
Fui gritar para quatro ou cinco malucos que querem me escutar.

Pois este texto é para vocês, meus cinco leitores.
Amigos, hoje, acordei com ressaca de passeata.
Hoje li que uns vândalos (provavelmente pagos) atacaram a prefeitura.
Incendiaram um carro de reportagem.
Roubaram Banco.
Apedrejaram lanchonete.

Meus ex-colegas, muito queridos e estimados, não entendem por que alguns membros da turba ensandecida que tomou São Paulo, por que parte da turba se virou contra a imprensa.
Estes colegas bradam, indignados, contra a violência que jornalistas estão sofrendo.
Uns lembram que só foram “calados” na época da ditadura.

Meus amigos, é com respeito que escrevo porque comi muito e me lambuzei neste prato.
Eu sei por que a turba grita e bate.
Eu sei.
Você, mesmo revoltado, deveria suspeitar.
Ou então, realmente, você não entendeu nada.
E o resultado está publicado.

Letras, apenas letras

Passárgada e um helicóptero

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Milhazes de carnaval

Milhazes de carnaval

 

Esse não é um blog político.
Não é de notícias.
Ele é, como sabem, descabelado. Sem foco. Sans souci.
Nada do que é dito é verdade. Nem mentira.

De quando em vez, o blog surta.
Como agora.

                    oOoOoOoOoOoOoO

O que vocês acham de uma Igreja que cresceu com dinheiro de doações de fiéis virar um grupo de comunicação, o segundo maior do Brasil?
O que vocês acham de esse grupo publicar fotos de funcionários acidentados em trabalho (um morto, outro em estado grave)? Fotos de RH, fotos de crachá…
O que vocês acham desse grupo divulgar “as últimas imagens feitas do helicóptero” – aeronave que rodou, rodou até se espatifar no Jockey de SP?
O que vocês acham do apresentador, com falso ar choroso, dar a notícia e rodar 7 minutos de imagens?
E aos 6 minutos e vinte e um segundos perguntar para a equipe de produção os nomes dos profissionais acidentados?
Você chora ao vivo por alguém cujo nome você não sabe? E quando esse alguém é seu colega de trabalho diário, você sabe o nome dele?
Você mostra imagens de uma aeronave trepidando durante 7 minutos? Imagens de nada vezes nada?
Você faz disso uma ferramenta para conseguir audiência?

oOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOoOo

Vou me embora para Passárgada.
Lá trabalho de garçonete no Squat.
Onde todo dia bato papo com o Magoo.
Uso calça de Bali de manhã.
Faço aula de artes na Fafich velha.
Na volta, tomo sorvete no Hot&Cold.
Uso camiseta de banda de rock cortada.
Tenho um tamanco holandês que é chévere.
Na sexta, Praça de Santa Tereza.
Som na Broaday (sem “w”).
Termino a night no Bolão.
Já conheci gente pelo 147!
Algumas vezes, Pop Pastel. De lá, Blue. A melhor caipivodka de um real.
Sábado de tarde, Cogumelo – para saber as novidades do Overdose.
O Sepultura arranhou o disco dos caras e fez sucesso nos States.serpentina
Passo no Geraldo da Pop Rock e pego o novo do Pizzicato Five.

Vou me embora para Passárgada.
Quando dá fome, Maleta.
Quando dá sede, cerveja.
Quando tem Fit, Fid, é grátis. Tudo e todo mundo lá.
Gosto do Galpão.
O Nino Andrés fotografou.

Vou me embora para Passárgada.
Lá sou amiga do rei, do mendigo e do dono do bar.
Lá assisti  show dos Ramones num estábulo.
Lá tomei e devolvi uma de direita no Nick Cave.

Fui.

Vendo …

domingo, 16 de agosto de 2009

Photo 219Somos todos borderliners.
A nova gripe é só uma gripe.
O que ela tem de diferente? A outra mata mais velhinhos, essa anda matando mais jovens.
Nas embaixadas, todo mundo recebeu tamiflu.
O governo mandou suspender a propaganda de anti-gripais na TV.
Para o povo não sair se automedicando.
No trabalho, uma pessoa foi confirmada.
Mas a fofoca – no dentista, na academia – fala em multidões de contaminados.

A gente é assim, um espetáculo.
Para fugir dessa vidinha mais ou menos, uma gripe.

Recebo notícias de um amigo que vai fazer vídeo para o Ciro.
Já fez para o Kassab.
E lembro da baixaria da semana: Globo X Record.
Gente, que santo o meu. Santo danado! Eu não preciso ter crença ou fé, o santo tá lá.
Eu não faria matérias nem de uma e nem de outra.
11 minutos no JN para o Edir Macedo é política sim.
E a resposta, mostrando imagens das fachadas da Globo e dizendo que estão com medo da concorrência…
Um ex-colega, gravando passagem para dizer que a história é velha…
Roubo velho prescreve? Deixa de ser roubo?
Ana Paula Padrão e Celso Freitas lendo as chamadas… Senti vergonha por eles.
O que não se faz por um punhado de grana…
Ontem o site dos moços do dízimo foi atacado.
Engraçado ver os analfabetos em defesa da Globo (!).
Notícias de outra guerra particular.

Nas pesquisas, Marina leva 3%.
Dilma estaciona em 16%.
Melhor foi a Danuza… Como é para assinantes, reproduzo um pedaço da coluna de hoje.

Mas de Dilma não tenho medo; tenho pavor. Antes de ser candidata, nunca se viu a ministra dar um só sorriso, em nenhuma circunstância.
Depois que começou a correr o Brasil com o presidente, apesar do seu grave problema de saúde, Dilma não para de rir, como se a vida tivesse se tornado um paraíso. Mas essa simpatia tardia não convenceu. Ela é dura mesmo.
Dilma personifica, para mim, aquele pai autoritário de quem os filhos morrem de medo, aquela diretora de escola que, quando se era chamada em seu gabinete, se ia quase fazendo pipi nas calças, de tanto medo. Não existe em Dilma um só traço de meiguice, doçura, ternura.

São Paulo, domingo, 16 de agosto de 2009

Dilma, fofa, de você estou fora.

Com sua peruca de Sílvio Santos, seu jeito de guerrilheira mandona, seu currículo falsificado, sua mentira nada disfarçada… Não conte com meu voto. Não conte comigo. Conte com os pobres, os ignorantes, os que precisam de sua esmola.

Ai, como é bom fugir do mundo.
Começar a sexta em casa e só sair na segunda.
Lá fora, feira da Vila. O povo todo querendo pegar a gripe e virar celebridade.

No sábado, turma nova do francês. A bicha gorda, a suburbana exagerada, a patricinha de meia furada. O bicha discreto, a burra que se guia pelo GPS. O universitário de saco cheio. A armena inteligente e feia para cacete. O japonês barbudo. A pobre que subiu na vida. Essa turma promete.

Ai, como é bom simplesmente não fazer nada.
Nada.
Ficar vendo as horas passarem.
E não fazer nada.
Nem respirar.
Lendo Baudelaire e esperando o mundo acabar.