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Riobaldo

sábado, 25 de setembro de 2010

Ceará, 1998

Não existe monge que não caia em tentação.
Atrair a atenção dos outros. Sair do meio da multidão.
Eu, você, todos nós sofremos desse mal.
Da sociedade do espetáculo para a sociedade digital, todos nós queremos um pouquinho de atenção.
Ainda que seja barata, falsa ou efêmera.

E a solidão?
É algo exótico, quase um defeito.

Essa semana foi diferente.
Tive muita dificuldade.
Quase não saí de casa.
Desmarquei tudo o que pude.
Ainda estou procurando – o quê, não sei.

Li alguns textos, pedaços de livros.
A televisão falando sozinha.
Li alguns recados tortos pela internet. Coisas com laços e nós.
Tão piegas, tão pequenas.
Pura vaidade.

Pensei no motor da nossa vida.
Estar cercado de gente.
Sobressair-se no meio de uma onda como carpas.
Migalhinhas de pão e oxigênio.
Pensei no amigo que anda triste.
Pensei na minha covardia para mil coisas.
E nas pessoas que se dizem queridas, mas não conseguem ter coragem.

Aí reli os posts.
Foi difícil escrever.
Falta de assunto, falta de graça, sei lá.
Parei nos malditos.
Pensar sozinho é destino.
Escrever com método, rebeldia.
Abdicar de quase tudo que está em volta, necessidade.

Às vezes eu penso: seria o caso de pessoas de fé e posição se reunirem, em algum apropriado lugar, no meio dos gerais, para se viver só em altas rezas, fortíssimas, louvando a Deus e pedindo glória do perdão do mundo. Todos vinham comparecendo, lá se levantava enorme Igreja, não havia mais crimes, nem ambição, e todo sofrimento se espraiava em Deus, dado logo, até à hora de cada uma morte chegar. Raciocinei isso com compadre meu Quelemém, e ele duvidou com a cabeça – «Riobaldo, a colheita é comum, mas o capinar é sozinho…» – ciente me respondeu.

(Grande Sertão: veredas, 19a. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p. 74)