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Sobre a gentileza e o abuso

quinta-feira, 3 de março de 2011


Abrir o coração.
É mais um sacerdócio do que uma escolha.
Em tempos modernos, é rara exceção.

Quem entra em minha casa, sente cheiro de pão de queijo imaginário.
Café recém-passado.
Broa de fubá.

Geralmente todo esse começo brejeiro acaba em burro n’água.
É o “amigo” gringo que deixa a conta de celular de 500 reais de presente.
A antiga empregada que enterra o gato no lixo…

Em janeiro, contratei uma moça para trabalhar em casa.
Nova, magra, mãe de uma filhinha de 3 anos.
Recém-chegada da Bahia. Animada.
Lenta para algumas coisas, esperta para outras.
Fui com ela na creche pública da Vila Madalena.
Vibramos ao conseguir a última vaga disponível.
Esta semana, começaram as “aulas”.
E minha vida virou um inferno na torre.

Ela começou a chegar atrasada porque tinha que deixar a filha na nova escolinha.
Às 11horas, tinha que buscá-la. Na primeira semana é assim: tudo aos poucos, para a criança adaptar. ok por mim.
Pois meu travesseiro passou a ser o da menina. Minha colcha de piquê.
Meu bidê. Meu bolo de limão.
A casa, toda de pernas para o ar.
A cozinha numa bagunça total 24 horas por dia.
A TV de 5o polegadas.
E o banheiro sem papel higiênico.
Meu computador virou plataforma de dedo-martelo.
Minha cadeira foi arrastada corredor afora.
Minha comida acabou no prato da cachorra.
Para completar, conjuntivite.
Segunda-feira num olho.
Você tem água boricada? Eu, Rosa?
Terça nos dois.
9h e ela me liga da creche.
Iria passar no posto de saúde.
Chegou ao meio dia e meia com um atestado para faltar cinco dias.
Conjuntivite altamente contagiosa.
Com maldade, pensei: belo carnaval para você.

E eu, do alto do meu pão de queijo e do café quentinho, dei um chilique.
Contido, sem grito ou gestos.
Só falei.
Aqui, paga-se bem pelo trabalho.
Se você não aguentar a pressão, melhor encerrarmos.
Ela chorou a tarde inteira.

Minha casa de pernas para o ar.
O almoço foi 15h.
Não deixou as frutas pedidas.
Alice ficou apertada – a porta fechada.
Às 19h a casa mais ou menos. Foi embora.

Meu coração cheirou a café recém-coado de novo.
Quase descongelei aqueles preciosos pães da vovó.
Tomei meu banho quente.
Biscoitos de goiabada.
Piquei minhas frutas.
Liguei música clássica.

Como seria o Brasil se não fosse Casa Grande e Senzala?
Se todos tivessem boas escolas?
Se o metrô e os ônibus atendessem a todos?
Se o posto de saúde fosse sério.
Se a creche tivesse visão holística?
Meu blog existiria?
Ou seria enxovalhado em uma rua qualquer do Marais?