Posts com a Tag ‘São Paulo’

S.P./S.A.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Polícia que deixa arrastão correr solto em prédios e restaurantes, polícia que me deixou ser sequestrada e que me disse que não há muito o que fazer, polícia de São Paulo que agora resolveu descer o sarrafo. Manifestante que só anda de carro e resolveu linchar a polícia. Motorista que resolveu passar por cima de pedestre. Pedestre que resolveu quebrar tudo e depois fotografar com iPhone. O prefeito que prometeu em campanha “Adoção de Bilhete Único diário, semanal e mensal (…) que permitirá que o usuário realize tantas viagens quantas deseje nesse período de tempo, e ainda tenha descontos maiores”. O governador que fala grosso de Paris. Imposto que me faz trabalhar 5 meses só para pagá-lo. Escola que não é pública. Bicicleta que passo por cima. Poucas foram as vezes que quis pegar o meu banquinho. Hoje é assim que me sinto.

Ressaca

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quando chove na metrópole, o mundo para.
Árvores desistem.
Faróis de carros parados criam uma atmosfera de filme noir.
Meia-luz e céu sem estrelas.

Eu? “Elucubrista”.
E o pau que a Yoani anda tomando?
Como se o governo da Ilha merecesse mesmo qualquer defesa.
Enquanto isso, a Venezuela reedita seus fantoches.
Se fossem checos, talvez tivessem graça.
No outro continente, heróis da perna de pau enjaulados.
Chinês que paga por cirurgia plástica em cachorro.
E moças que se autodenominam “rycas”.

Os dedos coçam para ler toda poesia de Leminski.
Fazendo as contas, tenho 6 anos para beber mais do que ele.
Por que poesia…
Tmbém posso começar a fazer judô.
Por que não?

No Rio, faz 40oC à noite.
Como filhos fiéis, todos de cervejas a postos e pés na areia.
Rio.
Pouquinho.

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
(p.l.)

Para Gabriela

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Gabriela, a menina forte.
Nasceu antes da hora.
Nasceu sem conhecer a mãe.
Nasceu para fazer o pai ficar de pé.
Gabriela que conheceu a vida pelo noticiário, pela busca no Google.
Que se viu ali, numa foto: uma barriga bonita.
Que viu a mãe sorridente e fazendo planos.
Na foto, tão jovem.
Gabriela, menininha predestinada.
Veio ao mundo para dizer que a cidade está perdida.
Que o bang bang é geral.
Que está tudo virado.
Gabriela que vai achar graça dos malandros de Nelson Rodrigues.
Que não tem nada de sertão, nada de praia, nem de Jorge Amado.
Gabriela que chegou sentido o ar lhe faltar.
Que perdeu a mãe, grávida aos 9 meses, com uma bala na cabeça.
Gabriela que já é grande.

Gabriela.

Calor de Ella

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Desconectada

…according to the latest report

I gotta get the heat down,
gotta get the heat down…

 

Em São Paulo, as paredes derretem.
As roupas, todas grudadas, suarentas.
Sapatos, por que?
Pura insanidade.
Cabelos, pelos, duchas, tudo para voltar ao inferno.

Pareço uma estrangeira vestida de linho num safari.
A pequena metrópole não combina com a temperatura dos trópicos.
Nem eu.

São Paulo.
Ella Fitzgerald.

Nada faz muito sentido.

Muda

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Calor insano não se cura com chuva fina.
Da pele grossa, vapor.
A pele fina, malsã.

Chove em São Paulo.
E nada muda.

Poluição como tudo – acúmulo.
Mais, mais e nada.
Mais do mesmo.
Firme.
Seja forte.
É?
Às vezes me falta estrogênio.

Chuva fina e rápida.
Nem deu tempo de preparar um drink com gelo.
São Paulo, menina mimada, muda tudo e volta às origens só para mostrar quem manda.

O pão impossível de cada dia

terça-feira, 17 de julho de 2012

prato vazio

E abriram a Le Pain Quotidien do lado de casa.
Saudosa de meus tempos sem lenço e com muitos dólares em NYC, fui logo matar as saudades.
Preparada para umas adaptações brazucas, fui surpreendida pelo cardápio: é o mesmo da rede lá fora.
O MESMO!
E, claro, sem demora, pedi o de SEMPRE…
Meus cereais matinais, a tigela de frutas, uma cestinha de pães, um bowl pequeno de café com leite.
A cachorra, pobrezinha, ficou do lado de fora – eu sentada e quentinha, ela na rua, olhando para mim com cara de abandonada.
Eu vendo a cara peluda e pensando nas inúmeras vezes em que quis levá-la comigo para dar umas voltas no Central Park mas fui impedida pela burocracia dos dois países.
Escolhi um assento na animada mesa coletiva.
Adoro ouvir as conversas dos outros, compartilhar a geléia, assuntar qualquer bobagem com um desconhecido.
Enquanto esperava pelo atendimento, encontrei a dona de uma cachorra que brinca com a minha; acenei para dois vizinhos queridos.
Fazia frio. As bochechas estavam rosadas.
Minha fome ultrapassava o que uma cesta de pães pretendia saciar.

E o garçom não veio.
Esperançosa, fui até ele.
Fiz o pedido.
Incluí ovos cozidos no meu pacotaço de desjejum.
Meia hora…
Vieram os ovos.
Mas não os talheres, o guardanapo, o sal.
Vinte minutos, a cesta de pães… Itens em falta: justo o pain au chocolat…
O suco de laranja, esquecido.
Mais meia hora.
Uma hora.
Abordei outro garçom, fiz sinal para o gerente.
Chegaram os talheres.
O ovo esfriou.
E com ele minha graça amarela de achar que, em casa, sentiria gosto de mundo afora.
Pensei no meu nouveau-richismo…
Nessa mania de achar que o que vem de fora é melhor do que há aqui.
Aos poucos, meus pratinhos foram chegando.
Todos muito parecidos com os da loja franqueada de Nova York.
Mas desencontrados.

Tudo embaralhado, desconjuntado, tudo sem a graça despojada de ser mais um na Grande Maçã.
Pedi a conta, paguei mesmo sem ter recebido a limonada com hortelã.
Observei os vários clientes desapontados com os serviços.
Os alegres que fotografavam rolinhos de canela.

De barriga cheia e com uma fome danada, voltei para casa.

Chuva

terça-feira, 5 de junho de 2012

Trânsito com chuva.

A velha máxima que diz “eu preferia estar em casa” não pegou.
Táxi.
Carro.
Vila, Consolação, Bexiga.
Chuva.

Eu não quero casa.
Eu não escolho.
Eu ando devagar curtindo a chuva que cai na Paulista.
Meu trench coat novo, clássico e caro ficou no armário.
Luxo é sentir a chuva fria.

Chuva.
Vento.
Paro e peço um chai imaginário.
Chuva gelada.

Gostaria de estar com luvas.
Chai, água, calçada portuguesa.
Minha cabeça gira.
Lembro de cor de capítulos inteiros de Steinbeck.
Minhas mãos estão quentes.
São Paulo, mon amour.

Água em marte

terça-feira, 29 de maio de 2012

Procura-se abrigo

Encontraram água em Marte?
Se eu usar um escafandro moderno posso respirar?

Essa sensação que me voltou hoje surgiu pela primeira vez em 2001.
Depois de um período vivendo em Cuba, cheguei em São Paulo e fiquei catatônica em frente a uma prateleira de supermercado.
Juro que pensei em consultar um psiquiatra.
Era pós-Torres de Nova York, era pós-Cuba dos anos 50 corrompida até os ossos, era um momento em São Paulo frenética, desorientada, era necessidade de pagar aluguel.

Hoje fiquei com vontade de escrever para sir Richard Branson criar logo uma rota TERRA-MARTE.
Eu venderia a alma para me exilar em outro planeta.
Levaria umas mudas de roupa, o filho, umas fotos em papel.

Hoje, estupidamente, abri um vídeo enviado por ativistas sírios.
O vídeo não tem nem 10 segundos.
E mostra as crianças mortas, com tiros enormes, do tamanho de uma nação.
Os adultos sacudindo aqueles trapos sem vida, gritando por não ter pátria, por não ter fé.
Todos, eu e meus problemas tão pequenos e tão duros incluídos, precisando fugir da Terra.

Um governo que manda matar velhos, mulheres, crianças.
Gente escolhida ao acaso.
Efeito colateral de um líder covarde e violento, de um mundo perdido, de um desesperançado século XXI.

Por aqui, ex-presidente tão bandido quando qualquer anterior.
Um corrompido cheio de soberba – como aquele de lá, por que não?
Ex-ministro defensor de bicheiro assassino em troca de 15 milhões de reais que ninguém sabe (mas todo mundo desconfia) de onde saíram.
Repórter que recebia benesses de bicheiro
Ministro encontrando com ex-presidente lobista querendo atrasar julgamento dos ladrões da pátria.
Por aqui, vizinho que quer dar golpe em condomínio.
Gente que mente na sua carta.

Por aqui, tudo reduzido a um salve-se quem puder.

Ontem brinquei em rede social: “Meu pirão primeiro! É muita marmelada…”
Brincadeira de péssimo gosto.
Quero ir embora.
Para muito muito muito longe.

Faz frio aqui

terça-feira, 15 de maio de 2012

ssssssssssss...

Necessidade de fazer um casulo vestida com mil camadas de roupa.
Vontade de sair de casa mesmo assim.

Saber que hoje é o que apenas há.
E gostar.

Uma sensação de calor apesar do gelo que te pede calma.
Uma corrida longa sem pensar no caminho que vai ficando sob os pés.

Terça feira com tudo novo.
São Paulo.

Capítulo Quatorze e meio

segunda-feira, 7 de maio de 2012

so so

Começou com um espumante barato no hotel – tudo bem, qualquer coisa servia.
Mais tarde, um casal perguntou se os assentos estavam livres.
Meia-idade, sem filhos.
Outro casal se sentou ao lado deles.
Chamaram uma dupla de amigos.
Os copos não ficaram vazios.
As histórias virando tranças.
Ela, no Rio.
Ele, Florianópolis.
Com uma filha de nove anos.
Sem filhos.
Mudar de vida.
Segundo casamento.
Uisque.
A seleção de futebol alta de maconha em plena Jamaica nos anos 80.
Teve aquela da festa na Locanda della Mimosa.
De repente, todos no salão.
New York, New York.
De lá até chegar ao Rap das Armas foram camisas amassadas, alguns cacos de vidro no chão.
Aquele casal de gringos não saiu da pista.
MC Hammer.
Docinhos caseiros.
Café.
Remédio para proteger o estômago.
Meu Louboutin fico preso no pier.
Lá se foram 800 dólares.
Espumante.
Uma lua absurda.
No dia seguinte, todos muito comportados na areia.
Abraços protocolares no aeroporto.
Como se o mundo não existisse fora do salão.
Florianópolis.
Rio.
Nova York.
São Paulo.