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O nome dela é Caster Semenya

quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?

Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?

A sul-africana arrebentou nos 800m. Chegou 2s45 à frente da segunda colocada nesta corrida.
E tem só 18 anos.
Diferente, foi acusada de ser… Homem.
Nenhuma adversária foi cumprimentá-la depois da prova. Recebeu um único abraço: o da bandeira sul-africana.

A polêmica já começou nas eliminatórias. A queniana Jepkosgei liderava uma bateria quando foi tocada por Caster Semenya na última curva. A queniana sofreu uma queda e foi eliminada. Conseguiu no tapetão participar da final. Para perder – sem tombo.

Ser diferente.
Não ser mignon. Não ter o nariz da fada sininho. Não ter a pele alva.
Não fazer biquinho para falar.
Não ter os cabelos lisos e sedosos e louros e brilhantes.
Não comer pouco.
Falar palavrão.
E, além de tudo, ser a melhor do mundo.
Aí ferrou.
Ser diferente, negra e boa para caramba?
Só sendo homem.

No meu caso. Não consegui ser a melhor do mundo. Em nada. Risos.

Voltamos a minha última obsessão
(gosto da tradução do Houaiss – ■ substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo. suposta apresentação repetida do demônio ao espírito)

Madonna.

Onde Sean, Carlos e Guy erraram? Onde Jesus acertou?

E voltamos às diferenças. Se uma diferença pesa muito, ela separa? Ou o momento atenua?
E, de fato, existem semelhanças?
Eu não tenho a menor vergonha de dizer: tenho pavor de encontrar meu clone.
Imagine alguém como eu. Seria um horror, um inferno.
Mas meu oposto também é um pesadelo.

Em 2002, voltei ao Brasil com uma sensação muito nova no peito.
Queria fugir. Para algum lugar. Para fora do planeta.
É sério.
Depois de uma longa temporada na ilha de Fidel, vendo gente pobre e instruída sofrer de falta de liberdade, os Estados Unidos se preparavam para invadir o Iraque. E invadiram no dia do meu aniversário: 19/03/2003.
As Torres ainda ardiam nos olhos de Bush. E o petróleo corria em suas veias.
Hoje, abro o jornal: 95 mortos no Iraque. Medo de votar no Afeganistão – moradores temem ataques dos Talebans. No Rio, duas inglesas condenadas por dar o golpe da mala roubada (para receber o seguro). Na política, ex-presidente escapa de acusações pesadíssimas. No barato, o cara usou (muito) dinheiro público em benefício próprio. No esporte, campeã da corrida é suspeita de ser homem.

Quando é que os caras começam a vender passagem para Marte? Eles aceitam vale-transporte? O carro como entrada?

domingo, 15 de março de 2009

entrelesmurs

Ontem li e gostei desse post no Twitter:

Brilliant essay on this by M. Gladwell http://bit.ly/dLd7 RT @claudiamm37 you begin to lose yourself the moment you begin to concentrate.
2:44 AM Mar 14th from web

Numa tradução livre, você começa a perder o seu eu no momento em que você começa a se concentrar.

A concentração começa assim: você vai para a escola.
Lá, aprende o que precisa para se integrar e, se tudo der certo, virar um vencedor na sociedade.
Falar palavrão é feio.
Seja agradável e sociável.
Principalmente, você a prende a obedecer.

A família te ensina a se encaixar – a entrar na caixa do que é aceitável. E, quase sempre, torce pelo seu sucesso (leia-se ter uma profissão, casar, comprar muitos bens – a casa, o carro -, reproduzir, morrer).
A escola te forma. Bota na forma.
Pronto para ter o mínimo necessário para enfrentar a selva de pedra.

E você tem esse foco: vencer.

Mas o foco, às vezes, fica embaçado.
Você se formou em medicina.
Mas gosta mesmo é de música.
Quando sai de um show, pensa em como teria sido a vida se…
Tivesse trocado os livros pelo violão.
Mas você nunca vai concretizar isso.
Então vai a shows e conforta essa vontade musical que ficou esquecida em alguma sinapse cerebral.

Ontem vi o filme do poster acima.
A história não vou contar. Vá ao cinema porque vale a pena ver.
Na Oprah (sim, eu vejo Oprah), Sean Penn – meio bêbado, meio sonado – falou na manhã seguinte ao Oscar que Entre les murs esse é um filme como ele não via há tempos. Um filme completo, que tem tudo. Documentário, política, ficção, incômodo.

Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes

Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes

O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O júri era dirigido por Penn.
Concorreu ao Oscar e não levou. É claro. É óbvio.

O professor se questiona: o que estou fazendo?
Ensinando? Podando? Conformando?
Os alunos, numa turma multicultural, também fazem perguntas.
E confrontam o mundo como deveria ser do mundo que é.
O modelo ideal versus a realidade.

Estudante de direito eu li A República, de Platão.
Mas não entendi nada.
Não tive a maturidade.

Ora, estabelecemos, e repetimos muitas vezes, se bem te recordas, que cada um deve ocupar-se na cidade de uma única tarefa, aquela para qual é melhor dotado por natureza
Platão, A República, livro IV

“A República” (Politéia), foi escrita entre 380 e 370 a.C., quando Platão tinha mais de 50 anos.

No livro, o cenário onde o reunião acontece é a casa de um homem rico, o velho Céfalo, que põe o salão à disposição dos intelectuais, políticos e artistas para discutirem filosofia e assuntos gerais. Participam Sócrates, os filhos do dono da casa, Polemarco, Lísias e Eutiderno, Timeu, Crítias e Trasímaco.
O debate busca determinar como constituir uma sociedade justa.
Como tal não existe na realidade, os participantes se dispõe a imaginá-la, bem como determinar sua organização, governo e a qualidade dos governantes.
Para Platão, a educação (paidéia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação das aptidões de cada um.

Alma = apetite + coragem + razão

Sendo a alma humana (psikê) um composto de três partes: o apetite, a coragem e a razão.
Todos nascem com essa combinação, só que uma delas predomina sobre as demais.
Se alguém deixa envolver-se apenas pelas impressões geradas pelas sensações motivadas pelo apetite, termina pertencendo às classes inferiores.
Por outro lado, se manifesta um espírito corajoso e resoluto, seguramente irá fazer parte da classe dos guardiões, dos soldados, responsáveis pela segurança da coletividade e pelas guerras. Se o indivíduo se deixa guiar pela sabedoria e pela razão é obvio que apresenta as melhores condições para participar dos setores dirigentes dessa almejada sociedade.

Justiça

Desta forma, com cada indivíduo ocupando o espaço que lhe é devido, a justiça está feita.
A Justiça (dikê), para ele, seria a necessidade de que cada um reconheça o seu lugar na sociedade segundo a natureza das coisas e não tente ocupar o espaço que pertence a outro.

Crítica

Aristóteles, discípulo de Platão, questionou: a cidade é a “unidade da multiplicidade”, composta de pequenos grupos e pessoas que são distintas umas das outras e que fazem questão de manifestar abertamente a sua distinção.
Na cidade ninguém quer parecer-se com o outro.
Seria, então, antinatural exigir uma uniformização ou padronização total, como sugerem os moldes platônicos.
Para Aristóteles, a tese de entregar o poder apenas a um segmento da sociedade era contradizer a vocação essencial da cidade, que é ser regida por leis comuns a todos e não apenas por um setor dela, por mais qualificado que o governante pudesse ser.

A(s) pergunta(s) que ficou(aram) para mim – e que anda indo e vindo há anos – é (são):

– Faço o que quero?

Faço o que gosto, uso minhas aptidões?
Até onde vão os estragos produzidos pela família e pela escola e até onde influenciaram minhas decisões?
Há como fugir disso?
Um dia me realizarei?

Platão escreveu A República já maduro.
Eu tenho um longo caminho para soltar as amarras de 34 anos seguindo a cartilha.
Mas dei o primeiro passo. Tomei consciência.
E preciso reler A República.

Milk, Slumdog Millionaire e sábados com macumba

domingo, 8 de março de 2009

p3080017

O sábado tem sempre um ritual.
Passeio na praça – que é meu quintal de casa – com Alice.
Café sem pressa na Rodésia.
Papo com Denis, um simpático e doce atendente da padoca.
Mais passeio na praça.
Volta para casa e programação do dia.
A tarde foi para colocar os filmes em dia.

Milk

Tem uma frase emblemática do filme que me tocou.
Harvey Milk fala para o parceiro que ele acabou de conhecer:
– Quase 40 (anos) e ainda não fiz nada de que me orgulhasse.
Mais do que um filme sobre a luta sobre o direito dos gays e das minorias, é um filme sobre um cara que mudou a vida aos quarenta anos. É forte. Eu, como sempre, saí do cinema querendo chutar o pau da barraca. Mas estou me preparando para isso.
Ou vc acha que largar a Globo depois de uma década foi fácil?
Mas não espere: – Meu nome é Ana Pessoa e estou aqui para te recrutar… RÁRÁRÁRÁRÁ.

James Franco é sucesso total como Scott Smith e como pessoa em si

James Franco é sucesso total como Scott Smith e como pessoa em si

Sobre a atuação de Sean Penn, acho que o machão que espancou Madonna e que curava as ressacas de Bukowski fez um grande esforço. Sinceramente, ele está uma bicha muito afetada. Acho que um pouco over.
Mas, com toda certeza, mereceu levar o Oscar.

Slumdog Millionaire

E por falar em Oscar… Vamos – rapidamente – espinafrar Jay Ho.
Slumdog Millionaire é – sem sombra de dúvida – um dos filmes mais picaretas que já vi.
Roteirinho para Oscar – e levou 8 para casa.
Tema que agrada: ser Pollyanna num mundo cruel.
E tem clipinho final com os momentos mais marcantes do filme.
E clip com a música-chiclete Jay Ho.
Sinceramente, uma porcaria anglo-americana.
Eu, se fosse indiana, jogaria Danny Boyle na parte mais suja do Ganges.
Quem gostou de Trainspotting pode esquecer… O cara agora é Jay Ho – leia-se comercial até as tampas. Ah! E uma curiosidade: vocês sabem o que é jay ho?
É uma gíria para turbo, speedy – Speedy aqui no Brasil, nas últimas semanas, muita gente viu o que é… Rárárárárá.

Macumba

E, num dia com batata frita, milk-shake, chocolate, pizza e vinho (!), o melhor é terminar o post co macumba.
É que uma esquina da praça aqui perto de casa virou ponto de despacho.
Semana passada tinha tigela com bife e pimenta.
Depois, duas galinhas sem cabeça e um vidro de cachaça.
De tarde apareceu um jarro funerário branco com uma guia cheia de caveiras…
Eu, gaiata, e cheia de vinho na cabeça, dei um google nos cânticos de Exu, fiz um cartaz e preguei na árvore.
Escrevi que quem fizer macumba ali vai levar a praga de volta para casa. E botei um trecho do cântico.
Será que cola?
Rárárárárá…

Abaixo, detalhes da cartinha e da macumba das galinhas…

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