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Capítulo 21 – A doméstica

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Nunca imaginou algo parecido: uma pessoa, em casa, contratada para varrer, lavar, passar as roupas, cozinhar.
Nos livros de ficção científica nunca lera nada parecido.

Desde que chegara, numa manhã chuvosa de abril, eram ele e ela, a doméstica.
Ela chegava cedo e recolhia latas, garrafas, limpava cinzeiros.
Não poucas vezes encontrou roupas espalhadas pela sala.
Todas acabavam no varal com cheiro de lavanda.

Nos primeiros dias, como havia sido pedido, preparou o café.
Ele dormia até mais tarde e passava o dia trancado no quarto.
O café da manhã permanecia na mesa intocado até a volta dela no dia seguinte.
Ela desistiu.
Com medo de alguma reclamação, decidiu deixar algo pronto para que ele comesse quando sentisse fome.
Macarrão a bolonhesa.
Frango com quiabo.
Tudo permanecia como fora deixado.

Aos poucos, ela percebeu que não era preciso fazer muita coisa.
Um pano mal passado.
Uma roupa jogada no varal para que ele tirasse e vestisse como estava.
Nada de comida.

Aos poucos, decidiu só limpar os cinzeiros até que estivessem bem cheios.
As garrafas e latas eram deixadas no hall de serviço – não eram lavadas e nem separadas para reciclagem.
As janelas foram ganhando um ar empoeirado.

Ela então decidiu chegar mais tarde.
E sair mais cedo.
Ele nunca saía do quarto.
Não conhecia seu rosto.

A casa passou a ter um cheiro forte de nicotina.
Os panos, antes brancos e imaculados, foram se rasgando, ganhando marcas de cigarro.
Não havia mais comida na despensa.
Nada na geladeira.
Nem água.
Quando ela aparecia, fazia barulho para que ele ouvisse.
Reclamava da sujeira.
Perguntava alto se havia dado festas.

Nada.
O quarto, trancado.
Barulhinhos de dedos no teclado.

Um dia, ela recusou-se a recolher as roupas que haviam sido deixadas pelo chão.
Revoltou-se.
Abandonou a chave na porta, que ficou aberta.
Decidiu exigir seus direitos no sindicato.

Nunca mais voltou.