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A vida que não me dei

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Da ressaca pós-eleitoral veio a inspiracão.
Nossos suspiros são sobre a vida que poderíamos ter tido.
Sobre as promessas não cumpridas, não realizadas.
Sobre nosso auto-engano.
Sobre acreditar que tudo poderia ter dado certo.
Mesmo insistindo várias vezes em fazer tudo torto.

Da vida que vi lá atrás e que nada tem com a de hoje.
Das noites mal dormidas.
Dos gastos estapafúrdios.
Das idas e voltas, das despedidas.
Da coragem de deixar para trás.

Os candidatos tiram de nós o retrato.
Hoje parei o carro em plena avenida para uma ratazana passar.
Ela estava confusa, provavelmente louca de veneno.
Mas parou. Saiu debaixo do carro que estava a minha frente.
Parou.
Olhou.
Viu que não era a sua hora.
E sumiu pelo jardim do acostamento.
Um pedestre gritou.

Eu acelerei de novo.
Pensando nos caminhos, repisando a calçada portuguesa.
Ansiando por minha solidão benvinda – tão atacada, vilipendiada.
Pensando em tudo o que poderia ter sido.

Eu sabia que seria assim.
Mas me enganei muito bem.
Parabéns.
Palmas para a ressaca moral.

Cirandinha

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

puxe a corda

Sair de esquadro.
Uma volta de carro e gritos histéricos de liberdade só para chegar em casa e sentir-me inteira novamente.
Gritos em silêncio.

Sentir o sol, o vento, ver os pelos muy eriçados.
Querer fugir de tudo o que me obriga. Como você.
Como todo mundo.
Fugir tendo os pés fincados no chão.
E, mesmo assim, voar.

Aceitar tudo o que não me cabe.
Não caber em mais nada.
Que serenidade é essa que me faz fugir do espelho?
Não ter mais aquela fome.
Aproveitar cada pequeno segundo que – ah, ironia – não cabe mais em um minuto.
Ser grande e saber que não sou nada.
Eu sei (?)

Despedir dos amados.
Levantar e seguir pela estrada. Só.
E desaprender a viver nessa solidão que um dia foi tão minha.

Uma segunda-feira.
Gosto de amora preta na boca.

…”solidão cuja forma final é um confronto com a própria mortalidade”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

amiga do peito

Aqui no único minuto de silêncio, espero pelo próximo da noite seguinte.

Essa invasão de corpo, de casa, de tudo o que me guardava em mim mexeu muito mais do que hormônios e do que toda essa história de “continuidade “.

Aqui nesse canto fugaz e soturno, meu rabicho de segurança se esvai.
E fico sentada com pernas cruzadas pensando em como me esconder debaixo da mesa.

Enquanto as alegrias falsas correm como rio que deságua em Tietês e Capibaribes, penso nas verdades que nunca ninguém quer ouvir.
Ou dizer.
Que tudo é apenas isso e que não há mágica ou momento eternizado.

A vida pequena nas coisas grandes, médias, minúsculas.
E os riachinhos que não terminam em lugar nenhum.
Água pura e cristalina sem sentido ou direção.

Nunca tive medo de escuro.
É o claro que me assombra.

Transilvânicos tropicais

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

o que você não vê

Dizem que têm hábitos noturnos, que vestem capa e procuram pescoços de moças cândidas e virgens.
Mentiras, marketing puro para confundir os predadores.

Saíram das arábias, devoram babaganouch e coalhada seca.
Com doze anos, usaram aparelho fixo.
Aprenderam a dançar nos bálcãs.
E escolheram o Brasil para ficar.
Ciganos, anarquistas armados.

Ýn iþi, cin iþi deðil insan kiþi!

Não, não dormem num sarcófago no porão.
Gostam de cama macia e têm preferência por dossel com mosquiteiro.
O sangue doce e quente atrai insetos.

Quando a madrugada encontra o dia, por volta das cinco horas, correm como lobos.
Vêem o mundo que nem bandidos ou putas conhecem.
O mundo de quem ainda não acordou e de quem acaba de ir dormir.
Nessa saída quase que religiosa, gritam, dão socos no ar.
Levam iPod para lembrar da caminhada de outros séculos.
Suam.
O corpo não é esguio e muitas vezes pensam em cirurgia plástica.

É certo que não são dourados de sol.
A pele branca é usada como isca.
Em Cuba, fiquei sabendo, usam “vampisol”, um poderoso preparado que não deixa a pele descascar.

Sim, seduzem.
Têm canto de sereia.
E brincam de levar um séquito de curiosos para cima e para baixo.

Mas é na corrida de todo o dia que sabem quem são.
Correm sós.
Debaixo de temporal.
Pensam em, quem sabe um dia, baixar a guarda.