Posts com a Tag ‘Tempo’

Alumia

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Voltando para casa minutos atrás, ele me aparece do além.
Entra no meu carro, abre a janela e coloca o Cristo reformado na paisagem da pequena metrópole.
Coloca fundo musical na minha escuridão.

Toda vez que ouço essa música, a sensação é de que Cazuza continua aí.
Porque tudo o que ele descreve é hoje e não, ontem.

“São 7 horas da manhã
Vejo Cristo da janela
O sol já apagou sua luz
E o povo lá embaixo espera
Nas filas dos pontos de ônibus
Procurando aonde ir
(…)
Neste filme como extras
Todos querem se dar bem
Num trem para as estrelas
(…)
Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois”

Fico pensando nesses artistas mortos.
Tanta clarividência…
Por isso ficam de longe rindo na nossa miséria.

O tal trem para as estrelas…
Tão óbvio e ainda tem gente fazendo fila na estação.

Hoje no francês, uma história que se repete.
Uma colega trabalha para um banco estrangeiro.
Problemas com a cultura.
Trabalho em excesso.
Ela vai puxar o carro e se mandar para Bordeaux. 6 meses de dolce far niente.
Todo mundo tem um caso parecido para contar.
Ninguém venha dizer aqui que estou usando de metáforas.
Não estou. Essa não é a minha história travestida de vida dos outros.

Na verdade o que me toca é essa sensação universal de estar fora da ordem.
Da nova ordem.
A questão do tempo.
Do pouco tempo.
Do trato.
Do prazer.
Do não ver a tal luz no fim do túnel.
E de sempre sentir que se está perdendo algo.
A grama do vizinho.
Juventude que se esvai.
Espaço que fica apertado.
A bilheteria que não tem mais passagens para Marte.

Na segunda-feira, um senhor me fez três perguntas.
Eu totalmente exposta, como carne seca no varal.

– O que é ser bonito?
– Do que você gosta?
– Você quer saber?

Isso virou uma mandala mística que abriu caixas, esconderijos, tirou pó, franziu testa.
Aquelas perguntas martelando na minha cabeça e abrindo mais e mais perguntas.
Eu querendo entender tudo.
Ou seria esconder?
Foi muito diferente.
Em outro momento, talvez eu não estivesse pronta.

Roda mundo…

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Virei a minha ampulheta hoje. Essa história de dar a volta ao mundo mexe com a gente.
São tantas informações e um sentimento de ser pequeno que é preciso descarregar a bateria toda para voltar.
E, como de costume, a volta foi violenta. Trabalho no feriado, fechamento de mais uma revista, redação cansada e um ou outro nervosinho – para deixar o time eclético.
Hoje dormi sete horas. Penso que não faço isso há mais de dez dias.
Não estou descansada. Mas satisfeita com o resultado. O olho ainda arde, mas lutei contra minha rotina.

...

Eu fico bem chateada quando não tenho tempo de escrever.

É que as idéias vem e vão embora. É preciso agarrá-las enquanto é possível.
Não me pergunte muito sobre a Austrália. Na “cidade mais distante do mundo”, você não vai ao restaurante, vai ao posto de gasolina trocar óleo pois tudo é frito, gordo, insosso. Vale pela cerveja – tomada na hora imprópria e bem gelada.
Para chegar a Sidney, cinco horas de avião. O Brasil fica pequenino.
O que me deixou louca foi a Nova Zelândia. Só pisei no aeroporto mas, do alto, vi verde claro, verde escuro, verde musgo.

A tal da energia faz o mundo girar.
Trouxe um queijo de lá. Mineiro é assim.

Nesses dias de cão, fico pensando nos egos.

Quando a gente perde o senso, o que acontece? Querer mais sem estar pronto para compartilhar. Poder é um negócio complicado. A briga é grande, mas poucos são os escolhidos.

Nesse blog que hoje nasceu enferrujado, lugar comum, penso, penso mas não coloco as idéias no lugar fora de casa.
Ultimamente ando rebelde.
Abandonei as vitaminas.
Segunda volto a minha ginástica. Ando procurando sem pressa uma yoga para voltar.
Fico pensando como Alice: “será que perdi o caminho?”

Em Pinnacles desert

Rodopiando

quarta-feira, 3 de março de 2010
Alê, MaÍra, Jorge Clerc e eu - Gato Negro para alegrar

Alê, MaÍra, Jorge Clerc e eu - Gato Negro para alegrar

Esses dias têm sido Ana ao cubo. TUUUUUUUDO ao mesmo tempo.

Agora mesmo gripei ou fiquei alérgica.  Achei um delivery de sopa no prédio e estou com uma coriza chata. Um ponto positivo e um negativo. E  tenho que correr para a Vogue – semana de fechamento da revista i. A revista está linda de morrer – e os textos, estupendos. Mas o meu pique “tá faiado“.

Alguns me perguntam sobre filhos. Outros, chai latte. De manhã despachei bicho de pelúcia, computador, creme – família toda presenteada via Correios e Telégrafos. No almoço, adieu mes amis. Com nosso ritual de Gato Negro e um certo ar ébrio no escritório.

Amanhã tenho assinatura na justiça (tema para um looooongo post), e reunião para oficializar minha saída da sociedade que foi um sonho, uma república e uma dúvida – e nenhuma dívida. Mas que tem gente muito bacana e correta – coisa rara nos dias de hoje. E tenho que trabalhar. E tenho que organizar a casa para quem vier. E tenho que escrever, escrever, escrever. E tenho tanta coisa que queria ficar de pantufa assistindo tevê. Quem sabe um brigadeiro de colher.

O fato é que o que eu queria mesmo era um tempo para respirar.

(Vou correr para a Vogue e tento terminar esse post de lá – mas não prometo nada. Tanta coisa para falar e eu aqui com a mão coçando e sem poder contar. Ai ai)

O dia mais curto

quarta-feira, 3 de março de 2010
mutante

mutante

Deu no Terra hoje

“Cientistas da Agência Espacial Americana (Nasa), afirmam que o terremoto de magnitude 8,8 que atingiu o Chile no dia 27 pode ter reduzido a duração dos dias na Terra. Segundo a Nasa, o terremoto deve ter encurtado a duração de um dia a Terra por cerca de 1,26 microssegundo (um microssegundo é a milionésima parte de um segundo).

(…)

O dado mais impressionante levantado no estudo é sobre o quanto o eixo da Terra foi deslocado pelo terremoto. “

Ou seja: tirando o tempo no trânsito, a vida no trabalho… Temos agora menos minutos para aproveitar a vida. Portanto, o terremoto abalou a todos. Preste atenção.

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Hoje foi um dia de comunicar ao time que estou pendurando a chuteira. Bom e incômodo ao mesmo tempo. Chato na verdade.
Sair é uma decisão. Mas deixar o povo querido, não.
Por isso é chato – porque eu adoro o meu povo. E deixar o dia-a-dia de convívio me dá peninha.

Por outro lado, fico pensando…
Eu não sossego. Eu não consigo ficar quieta.
Ou isso é insanidade ou não tem tratamento – risos.
O fato é que sou cigana comportamental.
Eu não tolero rotina. (Não que meu atual e futuro ex-trabalho seja automatizado)
Eu sou daquelas que vai na frente para ver a tsunami de perto. E morre afogada – ou toma um capote.
Eu sempre fiquei encucada com isso: talvez eu tenha metas fáceis. Deppois que cumpro, quero mais.
Talvez eu tenha sido precoce em algumas coisas e tenha uma paciência diminuta.
Talvez…
Vai ver que eu não seja tão especial assim e, como todo mundo, estou buscando meu lugar ao sol – com direito a espreguiçadeira.

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tempo

tempo

Sabe aquele cara que se acha? Pois é, pintou hoje do além jogando charme. Eu me divirto com esses tipos. Eles têm certeza de que o mundo gravita em torno deles. Eles, eles, eles, eles, eles e eles. No terremoto, eles. No Haiti, eles. Acho que foi por isso que fiquei com bode de TV: muita estrela para nenhuma constelação. Mas adoro dar corda para ver até onde vai a falta de noção.
Maldosona.

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Sabe aquela marra de colonizador? Saia no fogo e caia na fogueira. RISOS! O mundo é redondo mesmo. E não adianta fugir. A gente vai se esbarrar em algum momento.

E, com toda certeza, eu estarei cheia de idéias…

Un certain regard

domingo, 31 de maio de 2009

tati

Hoje foi o último dia de trabalho do Dênis, o garçon-faz tudo da padoca.
Desde que moro na vila – 2003 – Dênis é aquele personagem discreto, elegante e contente em ser coadjuvante.

Os artistas principais – famílias, velhinhas, casais, crianças – chegam e mandam.
Dênis, o moço gentil, atende a todos com um sorriso tímido e muita atenção. Sem anotar, faz pedidos de 4, 5 mesas. E não erra nada.

No sábado, ele fez questão de ir até nossa mesa. Ele estava na chapa, fazendo os sanduíches, mas foi até lá e me perguntou se eu não queria algo. Eu não queria, mas acabei pedindo um suco. E ele me prometeu fazer um suco especial.
Hoje, os outros garçons contaram que Dênis estava de mudança para o Ceará. Vai voltar para a terra e se casar.
Eu não sabia, mas foi o jeito fino dele se despedir. Com um último suco. Especial.

Ele trabalhou até 14h. Amanhã, vai passar para dar um abraço nos colegas e devolver os aventais. Ora, coisa de moço elegante. Fazer questão de devolver os aventais limpos.

Eu e Fred passamos o domingo pensando. Dinheiro, eletrodoméstico? O que dar a Dênis de presente de casamento. Teria que ser algo singelo e que não ocupasse espaço na mudança. Provavelmente ele voltará para o Ceará de ônibus. E são 3 dias de viagem.

Compramos um jogo de cama de casal de puro algodão. Algo simples, prático e para que ele se lembre de nós.
Dênis vai fazer falta.

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Tenho pensando em como criar mais tempo para as coisas de que gosto.
E em como gastar menos tempo para fazer dinheiro e comprar muitas coisas para esquecer que gasto a maior parte do tempo fazendo dinheiro. E não fazendo o de que gosto.