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Terceirização da dor

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Hoje eu acho graça na escravidão moderna das empregadas.
E do coro dos preocupados com a luta de classes.
Verdade que pago alguns cobres para você arrumar a bagunça que deixo para trás.
Verdade mais que verdadeira, eu deixo tudo muito arrumado – sempre.
No máximo uma vassoura com pano úmido.
Umas roupas para dobrar.
E você não é mais CLT.
Pago a uma empresa.
Uma empresa que te paga.

Sabe que também me pagam para fazer faxina?
E a bagunça é de uma natureza mais variada.
Envolve egos, gente graúda e com medo das modernidades, gente graúda e que tem pressa e passa por cima.
Gente que chega agora.
Gente que demora a partir.
Gente que opera nas sombras.
Gente que tem medo de operar.
Tem os que metem pés pelas mãos.
Viciados em internet.
Operário padrão.
Secretária. Estagiário.
E você também paga a uma empresa.
Empresa que sou eu.
Com números e CNPJ porque ninguém mais aguenta FGTS, Inss, 40% de multa rescisória.

Ah, querido, o mundo é um moinho.
Talvez seja moedor de carne.

Eu fico aqui só pensando.
Na epifania de domingo.

No fim das contas, a matemática não fecha.
Porque a graça anda nas entrelinhas.
E a vida mesmo só acontece nos intervalos.

Foco Foco Foco Foco Folga Foco Foco Foco Foco

Bipolaridade

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Uniforme

Há algum tempo foram-se os anéis.

Os últimos dias têm sido de um futuro incrível com sol, academia e novas viagens  – fiquei enferrujada neste quesito. Travada no presente.

Intervalos de “e agora, José?”.

Revisão de arquivos da memória – grande parte deles preenchidos com participações especiais e que não deveriam ser memoráveis.

Sozinha no meu quarto de hotel, penso em como começar – sabendo que já começou, a despeito do meu planejamento tardio.

As questões de grana nunca afetam meus planos. Sejam eles de morar em Paris ou de me acabar em algum restaurante.

E agora o sonho é fácil. Retomar as rédeas do pangaré.

A casa, os gatos, cachorro, a vida.

Eu sempre estive pronta para transformar o esquema.

Isto não me aflige.

Me aflige apenas a divisão, a negociação que, a partir de agora, deverá ser feita. Hoje e sempre.

Ainda sou dona do meu nariz, mas nunca fui do dos outros.

Paciência, Ana.

Isto eu não tenho.

Então sossega, mas como?

Lá na frente eu vejo até mais gente.

Hoje só esta impessoalidade com assinatura Blue Tree.

Resolução de ano novo

sábado, 3 de janeiro de 2015

O ano quando começa abre as portas do impossível.
E elas se fecham rapidamente. Quem passar não volta jamais.
Não, não há dinheiro envolvido, amor novo ou sua saúde de volta.
Sete ondas, oferendas, espumante, beijo – nada disto faz sentido.
Ousadia.
Dos significados do dicionário, os que mais se assemelham à verdade são a falta de reflexão; a imprudência; a temeridade.
Não que eu não ame cometer todas as antonímias.
O objetivo é testar, testar, testar.
Aqui, dentro do meu universo, eu vôo muito, vôo longe.
A tal casca dura que molda como mármore.
Que te faz uma personagem.
Quando você voa ela se esfarela como sal do Mar Morto.
E você vira passageiro desta espiral de coisas impossíveis que, quando leves, sempre proibidas.
Beber de manhã, falar o que não deve, sonhar com coisas difíceis, escrever o que bem entende e para quem se interessar. Escrever.
Imaginar outras histórias, outras pessoas, uma casa menor, um gosto por café, uma sem-vergonhice absolutamente inusitada. A falta de vergonha de seguir o faro.
Pensar nos grilhões de um trabalho como um tíquete de loteria.
Desejar salvação pelo caminho mais simples: uma nova prisão.

Quando a gente é novo, o novo é puro prazer.
Ele é doce.
Ele tem tempo e fé.
Quando se envelhece, existe a dor.
Existe também um auto-conhecimento, um saber cristalino de suas limitações.
E, a despeito de tanto chumbo, tudo é bom porque é suado.

Passei oito anos e meio – quase dez se contar um intervalo sabático – no mesmo emprego.
Coisas de principiante.
Hoje espero coisas que estejam fora do tempo.
Não sou guia nem sou calma.
Vejo meu filho inquieto, impaciente, exigindo “agora”.
E eu sinto uma identificação orgulhosa.
No fundo, no fundo, o “agora” ainda grita em mim.
E são tantos anos.

Agora.

Meu melhor ângulo não está aqui

Uniforme

terça-feira, 24 de julho de 2012

procura-se

Meu uniformizinho de aspirante a general.
Calça preta justa de alfaiataria.
Camisa preta e blaser preto – tudo muito bem cortadinho e com uma gracinha moderna.
Meu cabelo aloirado bem escovadinho.
Meu anelão que denota personalidade forte.
Meu sapatinho de cobra asiática assassinada – coitada.
Meu carrão importado (tenho até dó de pensar).

E o carão.

Vamos lá, de novo, ser gauche na vida.
Carregar a pastinha, vender a si mesmo por um preço tão baratinho, pagar as contas da casa nova.
Esquecer as fofocas toscas das babás nas milhares de pracinhas.
Deixar os rebentos sentirem falta da mammamamamaãe.

As unhas vermelhinhas, a maquiagem, caretinha.
Um tal de ter que ser gente para sair desse quadrado.
Conta do pão.
Roupinha nova.
Viagem.
Veterinário.
Empregada.
Gasolina.

Não é que a gente perde o foco rapidinho?

Semana 1

segunda-feira, 11 de junho de 2012

segunda com chuva?

E a semana começa com um belo pé d’água.
Para derreter o gelo, limpar a alma e te lembrar que um escritório pode ser um bom lugar.
Imagine ficar em casa de pijama e meia grossa, enquanto a turma da faxina conjetura sobre seus hábitos e obrigações.
No escritório, um bom café de máquina pode ser a salvação.
Uma conversa de corredor, um resolver tudo de uma vez porque hoje não tem sol lá fora (mesmo que você fique numa baia distante da janela).

E aí me lembro de correr na chuva com calor.
No início, você e alguns incautos.
Depois, você e você.
Ninguém.

O tênis, encharcado, fazendo barulhos estranhos.
A roupa, antes fria, agora ensopada com um líquido meio morno: chuva, suor e seu corpo trabalhando duro para manter a temperatura.
Alguns passarinhos escondidos nos galhos das árvores.
As avenidas engarrafadas.

Os pés mantém um ritmo bom para que o corpo não entre em choque.
A semana começa com um único objetivo: ducha quente.
Depois os carros, o caminho, o trabalho, o café de máquina.

Bom (re)começo.

Capítulo 21 – A doméstica

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Nunca imaginou algo parecido: uma pessoa, em casa, contratada para varrer, lavar, passar as roupas, cozinhar.
Nos livros de ficção científica nunca lera nada parecido.

Desde que chegara, numa manhã chuvosa de abril, eram ele e ela, a doméstica.
Ela chegava cedo e recolhia latas, garrafas, limpava cinzeiros.
Não poucas vezes encontrou roupas espalhadas pela sala.
Todas acabavam no varal com cheiro de lavanda.

Nos primeiros dias, como havia sido pedido, preparou o café.
Ele dormia até mais tarde e passava o dia trancado no quarto.
O café da manhã permanecia na mesa intocado até a volta dela no dia seguinte.
Ela desistiu.
Com medo de alguma reclamação, decidiu deixar algo pronto para que ele comesse quando sentisse fome.
Macarrão a bolonhesa.
Frango com quiabo.
Tudo permanecia como fora deixado.

Aos poucos, ela percebeu que não era preciso fazer muita coisa.
Um pano mal passado.
Uma roupa jogada no varal para que ele tirasse e vestisse como estava.
Nada de comida.

Aos poucos, decidiu só limpar os cinzeiros até que estivessem bem cheios.
As garrafas e latas eram deixadas no hall de serviço – não eram lavadas e nem separadas para reciclagem.
As janelas foram ganhando um ar empoeirado.

Ela então decidiu chegar mais tarde.
E sair mais cedo.
Ele nunca saía do quarto.
Não conhecia seu rosto.

A casa passou a ter um cheiro forte de nicotina.
Os panos, antes brancos e imaculados, foram se rasgando, ganhando marcas de cigarro.
Não havia mais comida na despensa.
Nada na geladeira.
Nem água.
Quando ela aparecia, fazia barulho para que ele ouvisse.
Reclamava da sujeira.
Perguntava alto se havia dado festas.

Nada.
O quarto, trancado.
Barulhinhos de dedos no teclado.

Um dia, ela recusou-se a recolher as roupas que haviam sido deixadas pelo chão.
Revoltou-se.
Abandonou a chave na porta, que ficou aberta.
Decidiu exigir seus direitos no sindicato.

Nunca mais voltou.

Capítulo 19 – Então ele teve um dia normal

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Almoçou com os colegas e falou do chefe.
Olhou para as bundas carnudas das secretárias.
Encontrou-se com a analista na escada do escritório.
Como sempre acontece nesses casos, foram flagrados ao voltar para o hall do elevador.

(Negaram veementemente – como sempre acontece nesses casos)

Pegou o carro no quarto subsolo e foi para casa.

Banho, jantar, o filho que já dormia.
A mulher reclamava da empregada.
A Babá sussurava ao celular histórias de toucador dos patrões.

E ele percebeu, com graça, que havia saído de casa com meias de cores diferentes.
No pé direito, uma cinza.
No esquerdo, uma negra.

Capítulo 12 – O bode

quinta-feira, 26 de abril de 2012
humble is my buzz

humble is my buzz

A vaca sagrada no meio da sala.
O bode profano no quintal.

Nessa vida independente, sem garotos chatos no pé, sem viagens ao redor do mundo na classe econômica e sem trabalho insano e inútil no fim de semana, tudo é muito tentador.
Você pode fazer absolutamente o que quiser e a toda hora.
E, não raramente, você quer mesmo é ficar quieto.
Porém, é preciso ter fé.

Esta semana, as estruturas da minha Igreja foram novamente abaladas por multinacionais com propostas polpudas e a velha história de geração Y, viagens low cost e pilhas de trabalho.
Ok, é a marca mais cara, adorada, tecnológica do mundo.
Certamente “você” vai parar na Califórnia.

Tive que atualizar o Linkedin.
Falar mil vezes em inglês. Até em espanhol e francês.
Pensei, repensei.
Liguei para os universitários.
Fiquei com gás. No pique.
A torcida toda mandando seguir em frente.

Entrei numas.
Chamei o bode e vaca.
Tomamos um dry martini.
Fizemos bebê dormir.
Terminamos a noitada num pacto.

Recusei.
Minha vida agora é essa: sem gente chata, sem viagem de pobre, sem fim de semana de trabalho desperdiçado.
Release? Videozinho?
Fofoca de corredor!?
Sacou tudo, Batman.

Sorry, periferia gringa.
Money is all I get.

Capítulo 10

terça-feira, 24 de abril de 2012

Agenda social cheia.
Casamento em Florianópolis.
Batizado em Belo Horizonte.
Cerimônia budista em Ribeirão Preto.

Qual seria seu repertório?
Iria encontrar com o cara que o dispensou do trabalho.
Com ex-colegas da ribalta.
Com celebridades.
Praia. Montanha. Estrada. Avião.

Depois de dois anos enjaulado, seu corpo não era o mesmo.
Os lindos cabelos haviam sido cortados.
Não tinha cartão de visita.
Não trabalhava.

Via espartanamente.
Tentava escrever para se libertar dos fantasmas.

Voltar ao mundo dos vivos.
Escolher uma personagem.
Vestí-la de corpo inteiro.
Sorrir sem motivo.

Pensou numa saída: chegar tarde.
Sair cedo porque só conseguiu um vôo que partia em pouco tempo.
Falar pouco.
Ouvir tudo.
Beber.

Capítulo 3

quarta-feira, 11 de abril de 2012

“The foot feels the foot when it feels the ground.”

 

Ela repetia a frase que encontrou quando buscava qualquer coisa no Google.
Atribuíam ao Buda, mas era do inglês adepto da yoga e do zen, Ernest Wood.

A cabeça andava perdida como balão de gás em mão de criança.
As moedas deixadas com displicência num copo de requeijão na janela da área de serviço começaram a minguar.
Moedas para comprar pão.

Todos os dias a mesma história.
Acordar bem cedo.
Descobrir entediada o que acontecera no mundo entre meia noite e cinco da manhã.
Café – que odiava – sem açúcar – para ficar intragável.
Esperar ansiosa pelo pão que mandava buscar.
Casca branca e quente.

Depois, realidade.
Encher as horas com tarefas inúteis.
Rodar de carro.
Correr no parque para suar e tentar tirar o chumbo que pressionava a cabeça.
Inútil.

Às oito, de banho tomado, começar a velha história.
Fingir que lutava.

Contatos.
Revisar o passado.
Mexer e mudar coisa ou outra naquele texto virtual que promete trazer dinheiro, apagar toda e qualquer ociosidade desde que o destinatário pague em dia.
Efeitos colaterais: estresse, angústia, desespero por férias.

Vez ou outra um almoço “de negócios”.
Trabalho.
Fazer parte deste mundo.

O pé sente o pé quando sente o chão.
Olhou para baixo e não viu nada.