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Trottoir

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

No centro, ao lado de uma estação de ônibus, esbarrei de novo com o Itamar Assumpção.
Magro, cheio de dreads, cultuado ainda e nada maldito.
Maldito era o enrgético com uisque, depois com gim.
Maldita é a combinação com o celular.

O jazz.
O menino.
Os meninos.
E esta coisa de travesti – que, quem entende dos astros, dos seres do outro mundo, quem entende manda que eu anule, que eu pare, que eu não assuste.

Devo sair por aí de vestidinho rosa de lacinho.
E devo sorrir com biquinho.
E o mundo viverá tranquilo e eu apavorada.

O Jazz era nos Fundos mas o passeio foi na praça Roosevelt.
Os loucos, os bêbados, os tarados, toda a trupe reunida.
Eles comiam minha amiga com os olhos e eu, com minha corda de mulher maravilha, ia dando estaladas no chão para espantar tudo que é invisível e qualquer vampiro.

No restaurante escolhido, mojito.
Ceviche depois de duas esfirras de carne.
Ou 3?
E a promoção: dois Aperol Spritz dão direito à uma taça de vidro vagabunda.
E eu realmente preciso de uma taça de vidro.
Um sanduiche de grao de bico, um pacote de biscoito de gergelim.
Eu pensando: vai ser até bom, preciso de um quilinho a mais no momento.

Mas o maldito celular e a coragem estúpida dos bêbados.
Se era para fazer tanta besteira usando a ponta dos dedos e uma tela de cristal, melhor teria sido ter subido no palco e ter cantado “Código de acesso”.

Armando

sábado, 13 de abril de 2013

Em seus braços eu parecia uma dramática do Tango.
Em toda e qualquer gafieira.

Fui para dar um bote no filho, colega de faculdade, pedindo uma fita cassete dos Mutantes.
E ele roubou meu coração.
Veio com Lígia, uma carioca incrível, fora de qualquer padrão mineiro de montanha que consome.
Lígia carioca, mãe aos 40, prima do Ezequiel Neves – o cara que descobriu Cazuza.
Quantas vezes fiz um DDI só para ouvir a mensagem louca e escrachada do Ezequiel na secretária eletrônica…

As melhores festas.
Os melhores pós-Natal.
Tudo o que era ilicitamente de família.
Os namorados.
As fotos.
Os papos-cabeça de quem tem vinte.
As bebedeiras intermináveis.
Em casa de Armando nunca faltou bom uísque e um tiragosto para deixar qualquer boteco com inveja.

Armandinho nunca foi um namorado.
Um comparsa no crime.
Uisques enxugados.
Vodkas sem fim.
Armandão dando força para toda e qualquer maluquice.

Passaram-se 20 anos.
Vieram filhos, novos namorados, casamentos, separações.
Armando sempre com uma cabeleira bonita.
Um sorriso enorme.
Um novo boteco.
Causos.

Armando que foi a minha formatura, com quem dancei a noite toda.
Armando em meu casamento.
Em minha festa de despedida.
Armando em batizado.
Armando em separação.
Armando e meu Imposto de Renda.

Armando.
Só agora que me dói fundo a falta é que me dei conta.
Eu não sei dançar.

1996

Capítulo Quatorze e meio

segunda-feira, 7 de maio de 2012

so so

Começou com um espumante barato no hotel – tudo bem, qualquer coisa servia.
Mais tarde, um casal perguntou se os assentos estavam livres.
Meia-idade, sem filhos.
Outro casal se sentou ao lado deles.
Chamaram uma dupla de amigos.
Os copos não ficaram vazios.
As histórias virando tranças.
Ela, no Rio.
Ele, Florianópolis.
Com uma filha de nove anos.
Sem filhos.
Mudar de vida.
Segundo casamento.
Uisque.
A seleção de futebol alta de maconha em plena Jamaica nos anos 80.
Teve aquela da festa na Locanda della Mimosa.
De repente, todos no salão.
New York, New York.
De lá até chegar ao Rap das Armas foram camisas amassadas, alguns cacos de vidro no chão.
Aquele casal de gringos não saiu da pista.
MC Hammer.
Docinhos caseiros.
Café.
Remédio para proteger o estômago.
Meu Louboutin fico preso no pier.
Lá se foram 800 dólares.
Espumante.
Uma lua absurda.
No dia seguinte, todos muito comportados na areia.
Abraços protocolares no aeroporto.
Como se o mundo não existisse fora do salão.
Florianópolis.
Rio.
Nova York.
São Paulo.

Capítulo 14 – Ócio oculto

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Com os pés presos, uma carreira semi-acabada por ter ido nu ao escritório, resolveu soltar a última corda que prendia a alma.
Meio dia, frio de 9°C no país tropical.
Ameaça de chuva.
Parou num bar.

Começou com um chopp garoto.
Mas o corpo, gelado, pedia por algo mais forte.
Um uísque.
O garçon sugeriu um negroni.
Tomou também.
Trocou o almoço por mais um drinque colorido.
E voltou para o escritório com as idéias embaralhadas.

Conseguia andar em linha reta, mas sentia a cabeça pesada.
Respondeu emails com humor.
Decidiu deletar os provocativos – que eram tantos e sobre questões banais.

Pediu uma jarra de água para a secretária.
Chocolates.

Passou a tarde com a mente variando, rindo das bobagens que viravam grandes dramas corporativos discutidos com agressividade por email. Alguém, hoje, enfrentava problema cara a cara?
Comeu chocolates sem parar.
Lambuzou os dedos. Sujou o terno.
Encheu-se de água para curar o fogo.

Decidiu se levar menos a sério.