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Home alone pero no mucho

domingo, 25 de agosto de 2013

Enquanto ele não acorda e vira pela enésima vez a minha vida do avesso.
Robalo, arroz basmati, ervilhas frescas, molho de coco.
E um Rosé de primeira.
Ontem, hospital.
A tal tosse que não para.
Uma hora e meia na fila com meu cartão hiper privé tarja preta e vendo todas as crianças remelentas passando na minha frente…
Cinco minutos de consulta e voilá: minha primeira sinusite.
3 caixas de remédio e 200 reais depois: a tosse continua firme no arreio e minha cintura do lado direito dói como seu eu tivesse feito mil abdominais.
Passei a manhã no museu do futebol.
Na última vez foi a a última vez que encontrei meu pai nesta vida.
O museu é incrível, mas hoje, o que me fez bater o coração (tá certo, os telões com as torcidas e a derrota de 50 sempre me tiram umas lágrimas) foram uns meninos pobres de excursão.
Turminha de Franco da Rocha.
Com suas roupas puidas, o cabelo pintado, uma corrente no peito e tênis muito gastos.
Na ala interativa, tiveram toda a paciência do mundo com meu pequeno.
Jogaram bola virtual com ele sem parar.
Ele ria, gritava gol, Mengão, Brasil.
Pulava, dava uma espécie de cambalhota – extasiado com os mais velhos.
Sem saber que são pobres, que vieram numa excursão destas de caridade, que têm um passado nada manso.
Na saída, eu, o diretor, o inglês convidado que deu uma bola nova para o meu rebento.
E os meninos pobres sendo contados como gado.
O robalo acabou, lavei o prato, os talhes, tomo mais uma taça de rosé.
Home alone.
Chamo os meninos e eles logo armam uma foto de time.
Lindos, carinhosos, com seus dentes brancos de quem tem fé.
Meu pequeno está no céu.
Eu pensando na casa nova que cada dia torna-se mais real.
No dinheiro no banco que quase se esvai.
Na lareira, no ar-condicionado split quente e frio.
No meu sofá de grife personalizado.
Nos tecidos fake da Missoni.
Quem disse que dinheiro é capim?
Os dois meninos lindos e doces com o meu pequeno.
Home alone avec mon rosé. Terceira taça.
Nem aí se o antibiótico, se o antialérgico, se o spray nasal vão dar tilt com meu álcool natural.
Pensando nos dois meninos de Franco da Rocha.
Tirei as fotos e pedi um email para mandá-las.
Constrangidos dizem que não têm email, orkut, facebook.
Pergunto se os pais têm.
Uma monitora se aproxima e explica que nem pais alguns deles têm.
Mando as fotos para o email dela.
Peço, praticamente suplico a ela que me retorne.
Quero ir atrás dos dois, dar o uniforme do Timão, levar para casa, dar o peito, a carteira, dar banho, colocar para dormir.
Penso nos sequestros aqui de casa.
Os bandidos levaram os cobres, cá estamos.
Penso nos meninos, no meu menino, no país, da presidentA de motocicleta e sem carteira.
Penso que queria estar agora, bêbada com estou, sozinha quando fujo, no Ibirapuera, sem filho, sem documento, ouvindo um jazz do Bourbon.
Penso nos dois.
Eles não me saem da cabeça.
Derramo a quarta taça.
Domingo eu não vou ao Maracanã.

Ventania de almíscar

terça-feira, 7 de agosto de 2012

(vento...)

Púrpura escuro, seco, suave.
Não se importa com o que dizem.
Ri quase o tempo todo.
Pensa anil.
Expira amarelo ouro.

Viajante noturno.
Venta forte.
Rodopios por ruas, avenidas.

Puro ou artificial.
Agitado.
Cheio de histórias.
Corre o cervo tibetano.
O mais forte, o mais rápido.
Imune a tudo e a você.

Idéias a mil.
Dia pegando fogo.
Corre, roda.

Milhões de metros cúbicos de ar.

Capítulo 29 – A ruiva

terça-feira, 19 de junho de 2012

pow!

Escandalosa, falava alto e tinha uma risada meio boçal.
Chegou atrasada.
Entrou na piscina com os olhos carregados de maquiagem.
A filha, fantasiada de Carmen Miranda dos alpes de Higienópolis.

Ela, que voava longe em seus pensamentos, levou água.
Cara lavada, maiô preto, touca de silicone preta.
Ficou olhando o rebento: calmo, observador.

A pequena não era bem acabada.
Agitada, feliz, soltava gritinhos.
Crianças costumam ser todas iguais (menos os filhos de Woody Allen).

Ela, tentando não deixar o Concorde pousar, pensava em vinho, Spinoza, ia longe e toda a gritaria era comprimida em um grande silêncio de templo budista.
Ela ali, germânica, com cadeiras de índia paraguaia, pensando em filosofia e em tudo o que não entendia.

O mundo girando como a Lusitana.
Até que acabou.

Ao sair, chovia.
Decidiu voltar a pé para casa.
No meio do caminho, tirou os sapatos.

Asfalto e mais nada.