Olho vivo, que cavalo não desce escada

Os olhos verdes jade de Lilibeth tinham um brilho tão impressionante que as pessoas, não raras vezes, confundiam-se acreditando ser mais azuis do que os violetas de Elizabeth Taylor. O tom de pele moreno azeitona era um privilégio pois realçava os cabelos louros ondulados naturalmente. Essa mistura vibrante era orgulho do pai que dizia ser ela a representante oficial da paleta de cores da bandeira nacional.
Criada a pão de ló e quase sem limites, não havia nesta vida algo que Lilibeth pedisse fazendo beicinho que não lhe fosse entregue em bandeja de prata em menos de 24 horas. Os dois únicos constituintes da família – pai viúvo e tio solteirão – dividiam a casa e revezavam-se na tarefa de satisfazem todos os desejos da moça. A mãe, uma criatura de pele alva e temperamento manso, morreu no parto, pouco antes de completar 22 anos. De lembrança deixou um terço, usado pela menina nas missas de domingo, e uma foto em que aparece com um sorriso torto e os olhos perdidos no espaço.
A vida, conforme Lilibeth conhecia desde que abriu pela primeira vez os olhinhos faiscantes, seguia o script que ela mesma escreveu. Com roupas da moda, banhos de mar, footing aos domingos, coleção de bonecas de porcelana, sorvete antes de dormir e um eventual coquetel colorido para celebrar pequenas vitórias: o broche de rubi que ela cismou de comprar, a partida de duplas vencida no Tijuca Tênis Clube, os sapatos novos com laços de cetim ou uma parada estratégica para ver e ser vista no “Bife de Ouro” do Copa.
As empregadas do sobrado espanhol no Cosme Velho viviam exasperadas pelas duras demandas da pequena tirana e geralmente não duravam mais de três anos no emprego. A ausência de mulheres no círculo íntimo – uma avó, uma madrinha – a tornava rainha de um mundo em que os homens só diziam sim e as mulheres limpavam, engomavam, penteavam, serviam.

A única amiga

A melhor (ou única) amiga de Lilibeth estava convenientemente a um oceano de distância. Nadine era aluna de Albert Besson, na École Spéciale d’Architecture, em Paris. Ela conhecera a brasileira num cruzeiro de férias na Grécia. Uma disputa acirrada pelo último exemplar de uma bijuteria na lojinha do navio – vencida por Nadine que cedeu o butim à Lilibeth – acabou as aproximando. O pai, que vendera um terreno na Urca para pagar a viagem, viu com bons olhos o fato da filha ter feito amizade com outra moça – ainda que mais velha – e sentiu-se aliviado por, pelo menos durante a viagem, não ter mais que que acompanhar Lilibeth nas visitas às maisons de couture.
O que o destino une é tarefa do diabo separar. E Lilibeth e Nadine viraram unha e carne. Durante o ano, era frequente a troca de cartas. E as férias eram na Côte d’Azur. De junho a agosto, as duas faziam absolutamente tudo juntas. O pai ou o tio acompanhavam as jovens e davam muita liberdade para que elas aproveitassem a praia, sessões de cinema, passeios sem fim. As duas foram sozinhas à estreia de Bardot em “Et Dieu… cré ala femme”. Ao sair do teatro, passaram horas no lobby do hotel em que se hospedavam bebericando vinho com gelo e falando sem parar. O futuro a elas pertencia…
As cartas, no início curtas e superficiais, viraram envelopes gordos, carregados de páginas manuscritas, fotografias, pedaços de tecido, recortes de jornal, e outros pequenos tesouros que as uniam em gostos e ideias. Era através dessa troca de textos que dividiam dúvidas, aventuras e inconfidências. Ambas tinham um plano um tanto quanto ousado: a primeira que tivesse oportunidade, casaria-se com algum nobre ou empresário já bem velho, para logo ficar viúva e ganhar a enorme fortuna e, com ela, a emancipação. Quem ficasse rica primeiro bancaria a outra. Queriam, em plena virada das décadas de 50 e 60 serem livres (de homens e de convenções sociais) e muito ricas, bien sûr.

Educação

Aos 15 anos, cansada de álgebra e da castrante disciplina religiosa, Lilibeth bateu o pé. Foram semanas com dores de cabeça inventadas, indisposições de última hora, greve de fome, até que o pai e o tio, assustados com a mudança de humor da menina, cederam: cancelaram a matrícula no Colégio Sion. Dali em diante, ela passaria temporadas mais longas na Europa, dividindo um pequeno estúdio com Nadine, que seria paga para levá-la a museus, acompanha-la em cursos de etiqueta, de filosofia. Na cabeça dos homens da casa, esta era uma fase – logo ela se cansaria e voltaria ao Brasil.
Lilibeth, que já falava francês sem sotaque, logo aprendeu italiano, inglês, e ainda arriscava frases em russo e alemão. O professor de russo foi um marinheiro muito branco com olhos profundos que conheceu num footing pelo Canal de Saint Martin e, coitado, depois de um mês de corte, atirou-se ao mar ao ser recusado como namorado.
“É importante que a menina fale corretamente, frequente salões, vista-se bem para que encontre pretendentes estrangeiros, homens seguramente muito mais bem educados, estáveis e gentis dos que ela encontraria na sociedade fluminese”, atestava a amiga em carta ao pai e ao tio. A correspondência entre os três era constante e Nadine os deixava muito satisfeitos ao mostrar a rápida evolução da moça.

Posses

Dinheiro, é bom deixar claro, não faltava, mas também não sobrava. Para manter a moça provida de luxos e badulaques, o tio fazia hora-extra na repartição, o pai abria o consultório de domingo a domingo, e ambos desfaziam-se de algumas posses da família. Lilibeth, criada numa redoma, cercada de pompons cor de rosa, cheirando a talco, e fazendo tic-toc no piso com as sapatilhas de bico fino, cresceu sem a menor noção de vida prática.
Os homens da família se encarregavam de mandar uma boa mesada para que as roupas de Lilibeth surgissem engomadas nos armários. Dormia tarde, acordava depois do almoço. A comida, servida em pequenas porções, brotava milagrosamente da cozinha do restaurante situado no térreo do edifício em que vivia com Nadine. Aliás, não havia cozinha em seu estúdio – cômodo que ela fazia questão de evitar porque lhe parecia muito quente, úmido, além de ter odores estranhos.
Os melhores aromas, para ela, surgiam nas diversas soirées para as quais era convidada. Nadine, com cara alongada, olhos de gato, desprovida de curvas, tinha um talento fora do comum para fazer contatos. Em sua lista de telefones, constavam figuras da realeza, estrelas de cinema, playboys internacionais e até pintores surrealistas.
Beneficiada pelos convites garimpados pela amiga, antes de completar 18 anos, Lilibeth já era uma locomotiva conhecida nas festas faraônicas de Antenor Patiño. Logo virou figurinha carimbada na Revista Cruzeiro e até chegou a dar dicas do que fazer em Paris. O auge foi o furor causado no casamento da Farah Diba com o Xá da Pérsia. Vestida de dourado dos pés a cabeça por Guilherme Guimarães, ela surgiu em meio a uma nuvem de fumaça do mentolado Salem que quase lhe valeu o título de baronesa de Rothschild, pois provocou uma paixonite no barão Edmond que, muito diferente do marinheiro russo, foi curar a rejeição casando-se às pressas com uma tchecoslovaca de nome impronunciável.

Independência ou morte

O barão não foi a única vítima: Lilibeth era exigente e dizia não com rapidez e muita facilidade. Ela gostava do jogo de sedução, mas, depois de poucas semanas, o encanto passava e já saía a procura de novas distrações. Ela brincava que seus sapatos duravam mais do que os amores.
No começo, Nadine achava graça , afinal, as opções eram vastas e a menina era nova. Mas, com o passar do tempo, a francesa começou a entender que a amiga não daria cabo do plano que as duas haviam traçado. Nadine, que sempre atuou nos bastidores contando com o sucesso retumbante de Lilibeth, passou a sentir que a idade logo chegaria e que, se continuassem nessa toada, ela – certamente – ficaria solteira e muito provavelmente sem o pagamento que era enviado mensalmente do Brasil. Seria a ruína.
A última gota foi quando a brasileira se recusou a visitar a casa de praia de um diplomata de mais de cinquenta anos, exímio jogador de polo e piloto de automóveis da República Dominicana. Perfil perfeito para os planos da dupla. Aquela incongruência ligou um alerta definitivo em Nadine. A francesa, mais experiente e pragmática, passou a usar a agenda de telefones estrelada para fazer discretas incursões independentes.

A carta

Natal era sempre uma alegria no Brasil. Janeiro quente, fevereiro, carnaval. Lilibeth estava impossível: fora coroada madrinha do Baile no Municipal. Preocupada em encomendar as melhores plumas de faisão na casa Turuna e atarefadíssima recompondo o bronze tropical, além de participar de inúmeros saraus e convescotes, ela recebeu a carta de Nadine e deixou na escrivaninha para ler mais tarde.
Em fins de maio, Paris chamava. Lilibeth, depois de uma temporada de brilho e sucesso no Brasil, agora voltava a sentir falta da amiga parisiense. Em junho, o calor europeu deixaria a capital francesa inabitável e ela queria arrastar Nadine para um roteiro pela Costa Amalfitana.
Enquanto Lilibeth se despedia da família e posava lânguida para uma reportagem especial da Revista Manchete, as empregadas, esbaforidas, finalizavam a arrumação das malas. A carta, esquecida na escrivaninha há meses, foi colocada na maleta de mão, junto com alguns folhetins que divertiriam madame no longo trajeto de volta a França.
No Aeroporto, Lilibeth beijou o pai e o tio, abraçou os dois longamente. No embarque, recebeu cartões postais com fotos do avião e das refeições que seriam servidas. Antes de tomar assento, ajeitou a caneta e retirou as revistas e livros que estavam na maleta de mão. E descobriu a carta de Nadine. “Ela deve estar zangada comigo”, pensou. Sem muita cerimônia, abriu o envelope e começou a ler as três folhas de papel de seda.
Mal terminou a leitura, começou a berrar.
“- Você podia ter telefonado, deveria ter telefonado!”
As comissárias pediam calma. Tentaram água com açúcar.
Os passageiros ficaram assustados.
Um médico apareceu.
“- Traidora, logo você!”
Os gritos altos, histéricos, uma agitação nervosa.
Saiu dopada de ambulância. Na mesa do avião, ficaram para trás folhetins, recortes de jornal com as fotos de Lilibeth no carnaval e a carta de Nadine em pedaços.

O barão

Em 1958, ele se casou com uma senhora de nome improvável, mas, dois anos depois, a amizade com Nadine, criada por conta da paixão dele por Lilibeth, virou admiração mútua, depois, dizem, amor. Por quase um ano eles se encontraram às escondidas – amigos de noitada, família, Lilibeth, ninguém fazia idéia. Em dezembro, Nadine descobriu que estava grávida e Edmond pediu a anulação do casamento com a inominável. Casaram-se antes do nascimento do único filho, Benjamin.
Quatro mil convidados.
Foram servidos vinho tinto francês, 60 quilos de camarão, 20 quilos de lagosta, 10 quilos de foie gras, 40 patos, variedade de frutas e saladas.
Houve queima de fogos de artificio e uma pequena apresentação de passistas de escola de samba.
Nadine vestiu dourado.

Nos primeiros meses depois do surto de Lilibeth, Nadine era informada semanalmente sobre o estado de saúde da amiga. Com o tempo, as ligações foram ficando esparsas, foram substituídas por cartas. Ela enviou ao Brasil as roupas e pertences de Lilibeth. As jóias foram vendidas para ajudar no pagamento da clínica.
Nadine se converteu ao judaísmo e se lançou com entusiasmo em seu novo papel de anfitriã, criando uma vida social altamente sofisticada, que incluía festas incríveis em Pregny. Ela também escreveu um livro best-seller sobre como ser uma esposa perfeita, uma obra profundamente antifeminista que tacitamente aceitava que os maridos eram infiéis e não levavam muito em conta os desejos de suas esposas

O gato

Quando Lilibeth deixou a clínica e começou a receber cuidados médicos em casa, o nome de Nadine passou a ser proibido. Tudo que remetia a Paris – e não era pouca coisa – foi retirado da casa.
Meses se passaram e lentamente ela foi se restabelecendo. Falava pouco, recusava-se a aceitar visitas, não lia cartas, não atendia o telefone.
Passava o dia na janela, de camisola, fumando,
Para tentar animá-la, arrumaram um filhote de gato.
O pobre bichano passou dias trancado no quarto com ela, que não encostou os dedos nele.
Uma manhã, as empregadas ouviram um miado alto, desesperado.
Abriram a porta do quarto e o gato, com o olho em carne viva, zunou escada abaixo sumindo pelo jardim.
Lilibeth, com olhos de louca, limpou o cinzeiro e mandou as empregadas prepararem um banho de banheira.
Escolheu uma calça preta cigarrete, blusa Chanel, salto baixo, passou maquiagem. Disse para servirem café completo.
O tio, que ainda não havia saído para trabalhar, ligou para o pai, abismado.
– Falei, Quinzinho, que o gato iria ajudar? (…) Fugiu, coitadinho, cego de um olho.
Para apreensão de todos, tomou um táxi e só voltou no começo da tarde. Cabelo cortado, sacolas de compras, mudou a marca de cigarro. Pediu para ligarem a vitrola.
Os olhos magnéticos de Lilibeth voltaram a brilhar.

Apesar das boas novas, o pai achou por bem não interromper o tratamento de uma vez. Um colega de repartição do tio sugeriu um psicanalista novo que abrira um consultório moderníssimo no centro, bem perto da Colombo, que Lilibeth voltara a frequentar. Por via das dúvidas, marcaram…

Saiu no jornal

Catatônica, alheia do mundo, mal sabia que saíra do brilho fugaz das colunas sociais e notinhas de moda e caíra definitivamente no jornalismo diário, nas páginas policiais.
“Quem o olho do gato fere, caolha ficará” gritava uma das chamadas de capa de um jornal da periferia.
“Grã-fina tinha vida dupla em Paris”, publicara outro.
“Polícia investiga se madame estava alcoolizada”, um jornal de bairro disparara
“Povo defende doutor que cegou grã-fina cruel” foi nota no Última Hora.

– Pobre dr.Roberto, comentou Santinha na roda das amigas da costura.
– Certamente, ele não aguentou as maldades que saíram da boca daquela depravada.

A Sociedade Protetora dos Animais realizava protestos diários na porta da Clínica em Laranjeiras. Mães de família, crianças carregavam cartazes com fotos dos gatos para adoção.
Bebeto virou assunto por dias na mesa cativa do restaurante Le Bec Fin. Na roda de amigos comandada por Ibrahim Sued, o pior que poderia acontecer era o aparecimento de um “chumbeta” que puxasse conversa para tentar plantar uma nota na coluna. E chumbetas não faltaram para fazer inconfidências sobre a desregrada vida de Lilibeth em Paris em oposição à correção dos caminhos do jovem Dr.Roberto.

– Puta!, um homem grande, de peito peludo, berrou na porta da clínica, soltou uma cusparada no chão, e foi embora.

Bebeto – Dr.Roberto para o povão –, mais pela repercussão e menos pela letra da lei, foi julgado e absolvido. Legítima defesa da honra.

Pai e tio não pouparam recursos. Foi necessário, inclusive, vender o sobrado do Cosme Velho. Mas, para protesto geral, ela também foi absolvida. Amnésia temporada provocada por doença dos nervos.

A casa de fundos no Méier tinha os paninhos bordados de organdi sempre engomados. Uma dona de casa de primeira. Nos últimos 20 anos, fizera a escolha missionária. Comandou grupos de oração na Igrejada Ressurreição e também na Igreja Nossa Senhora de Copacabana – para onde ia de lotação, jogando os cabelos sobre a cicatriz que substituíra o olho extraído. Passou a visitar os doentes, os pobres, rezando por todos e fazendo a “imposição das mãos”.
Cuidou do pai e do tio até o fim.
Morreu solteira.
Uma santa.

***

(inspirado no conto “O Gato Cego” de Nelson Rodrigues)

Qualquer

Filtro em demasia

Ana Uma
Pessoa Fernando
Qualquer
Estrela
Ego
EU
Meu
ID
Nua
Pura
A imagem não é o que te ofereço
Nunca
Dos sertões de Guimarães trouxe meus buritis
É preciso molhar os pés e afogar
Enquanto eu sairei seca
Alterada
Transtornada
Preservada em álcool
Com fios brancos que te darão inveja
Sem cicatriz alguma
Queloides
Diferente de vocês, eu não venho de misturas
Sou terra
Pura
E não finco raiz
Uma alguma e nenhuma
De todos
E de qualquer alguém
Dentro do vendaval
Eu sei dançar
Ando com medo das facas que comprei
Sao japonesas, afiadas, leves
Talvez essa leveza seja o que me falta
O que abra o meu portal
E eu desapareça de vez.
Talvez.
Alô?
Uma pessoa?
Sim e não.
Ana Pessoa.

Os Patos

O pato vinha cantando alegremente, qüem, qüem
Não perdeu prazo do IR, eu, eu
Pagou imposto ao sindicato, eu, eu
IPTU, IPVA, eu, eu
Mesmo sem 13º, quem, quem, contribuiu para a caixinha de Natal, hein, hein?

Quando um marreco sorridente pediu
Pra entrar também no samba, no samba, no samba
Faltava máscara, sobrava verba do orçamento
Mas tinha live de Tereza a Caetano
Prato vazio para tirar um som

O ganso gostou da dupla e fez também qüem, qüem, qüem
Quem tem pijama para mostrar, tem tem
Olhou pro cisne e disse assim, vem vem
Que o fiscal não te avistou, bom, bom

Carlinhos, Flávio, Michele e Queiroz
Na beira da lagoa foram ensaiar
Para começar, o tico-tico no fubá
Laranja, rachadinha, Amazônia
Que o quarteto ficará bem, muito bom, muito bem

A voz do pato era mesmo um desacato
Jogo de cena com o ganso era mato
Mas eu gostei do final quando caíram n’água
E ensaiando o vocal
A ema bicou
Qüem, qüem, qüem, qüem
Qüem, qüem, qüem, qüem

Carnaval derradeiro

Tudo que pedi tu já me deste.

Um passeio.
Exploração dos novos velhos caminhos.
Conversa com porteiros.
Admiração por fachadas.
Passarinhos e gatos.
Alice.

A primeira vez foi intensa.
Bela Vista.
A entrada, em mármore rosa de Verona e corre-mão de latão dourado.
Elevador de madeira nobre.
Armários com porta de chamalote original de 1937.

Eu, ela, dois gatos e o fantasma da Dona Bibiana.
Aos poucos, tudo se mimetizava.
Café na padoca, almoço de domingo no Bexiga, caminhada na Paulista, trabalho na Freguesia do Ó.
A matriz na praça que parecia avisar: o interior ainda é distante.
As madrugadas que se arrastavam em plantões transformando o sábado num dia para ser dormido.
Os nossos barulhos e os barulhos inexplicáveis.

Na varanda, o vaso de supermercado.
Indiferente ao seu fito, a trepadeira subiu, fez curvas, seguiu o barbante e desenhou um moldura na porta de vidro.
Brotaram flores amarelas.
De amarelo claro pintei o quarto.
A cama de casal que ganhei do tio.
O edredom azul com mais flores, agrado do avô.
O armário da fazenda e vidros de Salinas.
Do nosso pequeno canto mineiro, eu avistava o Masp por inteiro.
Vazio.
São Paulo é pedra dura, faca amolada.

Decidi explorar os mares.
Aldeota de casas baixas e varandas de granito.
Brisa morna.
Branco piso de porcelanato que evidenciava fios de cabelo vermelho (nossos).
Garagem para duas vagas e dei ré numa carroça.

Do amor longo e desfeito à mata.
Uma noite no Debret.
Leleco, Mafalda e Bibi numa kitchenette em Copacabana.
Leblon, paixão platônica, até que o facho sossegou.
O pintor anotou o telefone num pedaço de papel amarelado.
Em pouco mais de 24 horas, estávamos todos juntos de novo.

A varanda com piso de ladrilho vermelho, a cozinha de pastilhas hexagonais.
A garagem aberta sem porteiro, o ladrão de rádio de carro, minha bicicleta.
Gatos malandros em madrugadas escaldantes.
Subia Chico, Bial descia.
Todo mundo no Bar Jóia.

Juntei cobres, preparei PF para pedreiro, e fui estacionar na Vila.
Sem trepadeira, com piso de taco.
Improvisei ladrilho hidráulico na cozinha.
Bancada preta rica.
Banheira com pés de cobre.
Um suspiro.
Uma chance.

João engatinhou na Praça das Bandeiras, estreou confete em Olinda.
Ganhou jardim gramado e jabuticabeira.
Gritaria esganiçada de maritacas.
Papagaio fazendo parada no telhado.

Ibirapitanga.
30 metros de casca marrom-escura que se lasca revelando o lustroso cerne vermelho-sangue.
Contrabandeada, adaptada, cerrada.
Nem toda árvore cria raiz.
Rara.

Não mais voltarei.
Tudo que pedi tu já me deste.

Alice não mora mais aqui

A venda

Atento aos sinais

Qualquer ser humano médio, não adepto do estilo fora-da-lei, e que tenha passado pelo menos um quinto da vida no Brasil é capaz de:
– sair do nada e ir para algum lugar;
– fazer gambiarra;
– antecipar se é assalto, sequestro ou delivery do iFood.

São décadas navegando por mares completamente escalafobéticos, não é, minha filha?

E é por isso que, para mim, o ‘novo normal’ é dissipar a poeira do caos, corrupção, fé cega e malandragem por meio de pés fincados em qualquer biboca onde pelo menos UMA lei seja rigorosamente cumprida.
Vale até Lei do Silêncio.

Corra, Lola, corra

2017.
Tal qual Scarlett O’Hara, agarrei a terra (estrangeira) entre os dedos e fiz um juramento:
” – Despachante, nunca mais!”

O apartamento paulista, fruto de suor, reforma e uma dose de loucura concretista, foi fechado.
Virou momumento ao “e se”.
E se tivesse deixado o dinheiro no banco, hoje não daria para comprar uma bicicleta de rodinhas.
E se der tudo errado, ainda tem casa.
E se faltar dinheiro, vende.

Dois anos se passaram e ele foi alugado.
Esperei com candura pelos novos problemas.

O inquilino

Antes mesmo de chegar a comprovação de renda, as redes sociais já gritavam.
Lobista, representante de big tech transformado em funcionário público, executivo de aplicativo estrangeiro que incentiva a restauração do movimento escravagista, persona tornada pública em vídeo da Lava-Jato no YouTube.
De brinde, namorada blogueira, influencer, estandarte de roupa-preta, com franja da Solange de Vale-Tudo.

Na chegada, a pressa era infinita.
Em uma semana, negociação de contrato, vistoria, seguro-fiança, 6 meses de aluguel adiantados.
No dia da entrega das chaves… Solange revelou-se Maria de Fátima e maltratou minha diarista.

A revelação

Em janeiro, surpresa! Ou seria karma?
Como toda cobertura que se preze, bastou a turma do condomínio iniciar uma obra na laje para nos brindar com um vazamento.
Junto com os pedreiros e encanadores, veio uma nervosa lista de demandas.
Não quer cortina de voil.
Quer rolô.
Quer janelas novas no décimo andar.
Quer um tanto disto e muito mais daquilo.

Paladina de terras distantes em que palavra se honra, segui o script.
Arrumou-se o que era para ser arrumado, falou-se ‘não’ para o que não havia sido acordado previamente.

Contágio

A quarentena começou com a pompa e glória de quem tem um buraco na parede e chove lá fora…
Mal passou o choque da vida real e o aluguel atrasou.
Eu processei a informação e segui o jogo: sentei-me em posição de lótus, fiz pão, quebra-cabeças, comecei a beber na segunda-feira, todas as opções que um Circuit Breaker te oferece no século XXI…

Seis meses de ‘relacionamento’, e recebo o já esperado email – certamente escrito num momento de devaneio no claustro – sugerindo rompimento do acordo com dispensa da multa.
A argumentação não era a super aceitável “pô, acabou a grana”…
Na verdade, a culpa era minha de não estar cumprindo o combinado (?).
Contrato de aluguel, basicamente, é eu entro com a apartamento, eles entram com o pagamento… Não tem variável.
Simpáticos, eles avisam que “relutaram muito” em depositar o devido do mês.
Poxa, escreveu, não leu, nem precisa de pau na frase.

Como, por aqui, Covid-19 assombrou mais cedo e com muito mais potência, minha lente já estava filtrando outras paisagens.
Levanta a âncora, irmã!

Cuidado com o que desejas

Coloquei o apartamento à venda.

O inquilino complicado, que até ontem estaria de malas prontas, sapateou.
Disse que iria consultar advogados no plural.
Ameaçou não permitir visitas.

E está chovendo comprador.

Si vis pacem, para bellum

Disclaimer: Todas as personagens e situações deste texto real são absolutamente fictícias. Qualquer semelhança com a vida como ela é é pura prosa, ou mera coincidência. De perto, o “novo normal” é muito mais embaixo. Já dizia Camus do Crato, melhor literatura do que documentário.

Cultura e Sociedade

 

Aula inaugural

Do Zoom para o Google Meets num átimo de segundo: por que fui inventar de me comprometer?
Agora, aguenta!
Link, conectar…
Cinco minutos de atraso – você fica para o final, pode ligar o vídeo e abrir o áudio quando chegar sua vez.

Pronto, sabia!
Um grupo inteirinho formado por mulheres.
Pior: mulheres da geração que queimou sutiã.
Uma fala inglês entre as frases em português, outra explica que trocou Letras por Medicina para fugir da conversa fiada.
Tem pesquisadora da Fiocruz – eu lembrando da minha visita aos macacos reshus em outros tempos, outros vírus. Promotora – essa, aposto, tomou cafezinho com o Moro.
Clarice é muito sombria, Cecília, ou isto ou aquilo.
É mandatório deixar Stanislaw de lado porque, em tempos de  ‘mexeu com uma, ninguém solta o filtro do Instagram de ninguém’, falar de lista das “Mais bem despidas do ano” pode acabar em passeata.

Eu começo a ficar com fome,  já abri e fechei a geladeira duas vezes.
Depois dessa aula, eu ainda tenho que sair para comprar discos de algodão.
Enquanto ouço as histórias, penso no pagamento já realizado – mania de ir logo passando cartão…
Se tivesse esperado, ainda poderia desistir.
Mas como vou deixar mamãe sozinha?

Respiro fundo, tento assimilar o recado: deixa o texto dormir.
Quando acordar, já é outra história.
Eu deveria deixar o dinheiro dormindo.
Ou a história.
Ou o curso de crônica, sei lá.

Tem ex-secretária de turismo, tem filha de escritor… E até gaúcha do interior.
Três mineiras de Belo Horizonte.
Uma aluna estava, ao vivo e de máscara, dentro do avião.

Bebo um golinho rápido, olho para a mãe, refletida na tela de LCD.

“- Boa noite, meu nome é Antônio.
…eu?
Fui presidente de multinacional.
Morei fora muito tempo.
Fiz meu MBA na Science PO.
Nesses tempos de pandemia, tenho aproveitado para participar de cursos online com minha mãe.
Já fizemos degustação de vinho, aula de meditação, de pão com fermentação natural, acabamos hoje o curso de auto-maquiagem.
Mamãe escolhe, eu pago e acompanho.”

 

Antônio, ou o bendito fruto

Passado

(AP PHOTO/CHARLIE RIEDEL)

Talvez seja sina viver cercada por papagaios do apocalipse.
Ou de ter que ouvir uma elipse de reclamações.
Quanto mais nos aprofundamos no mundo do virus, mais eu penso na minha Lua.
Nasci e vivi uma era em que drogas ‘eram’ usadas com alegria e sem restrição.
Sexo feito no manual sem látex.
Álcool e cigarros para menores.
Com em excesso.
Glitter no cabelo.
Lata de ferro.
Nenhuma tartaruga com canudo nas narinas.

A Aids chegou e mudou as regras da brincadeira.
Ficamos mais seletivos.
Perdemos o amor “livre”.
Mas o processo foi lento.
A poesia resistiu apesar da dor.

Como acreditar que um ator de Hollywood, presidente, seria um sinal dos tempos?
Arauto da política de rótulos?

Hoje, assistindo a um filme da minha idade, tive um clique, um susto.
Muita gente na rua.
Ninguém usando máscaras.
Aí acordei.
Protegida, embalada a vácuo.
Passando por pontos de ônibus com gente usando uniforme escolar dos anos 50.
Máscaras.
Escudos de rosto.
Marcas no chão para manter distância.
Fiscais do atomismos pagos com verba pública circulando uniformizados.

Sou guerreira do plenismo.
Herdeira do cirenaísmo.
Devota do benthamismo.

Saravá.

Bayes’ theorem

Where?
go go go go non stop

The wheel has already been invented – even if the gentrification process brings right angles to it.

Angles.

The new right is a consequence of the old left and vice versa in an eternal loop that will always give you car sickness.

I live in a tropical country, blessed by gods and insecure by nature.

New research suggests climate change will cause humans to move in unprecedented numbers.

Welcome to my world, fellows.

Desterrada.

Nunca em silêncio.

(lugar-comum)

 

Portrait

49,888

Bangladesh
Myanmar
Filipinas

(Migrant workers living in dormitories made up the vast majority).

Empilhados em quartos abafados.

E descobertos por um virus.

Enquanto eles perecem, nós, cercados, bebemos e cantamos. E até passamos a semana em hotel para fingir que é verão.

Os donos da terra seguem, ignorando, ignorantes.

Prejudiced, whistleblowers, fearfuel, cruel.
Small.

My third world wealth pays for your retirement.
It moves your economy.

I will keep it close.

Aquelarre or El gran cabrón (Francisco Goya)

Rich people’s problems

Uma semana a mais nessa enorme síndrome de Estocolmo.
A mão invisível não perde oportunidade de cobrar a conta…
Quem sai, não entra.
A moda é passar uns dias num hotel, distante, 7, 8 km da sua própria casa e marcando hora para frequentar piscina.
Crianças, mimadas, deixam um rastro de garrafas de aço inoxidável 18/8 pro-grade – antes eram pedras pintadas.

O calor não ajuda…

Sigamos.

Gaiola