Andar com fé…

Quarentena, modo de descompressão e a gente reaprendendo a andar.Os barulhos têm me incomodado. Foram 90 dias de profundos silêncios, disquinhos na vitrola, interação com passarinhos e seus hábitos, entreveros com macacos, enterros de sapos.

E Gil fez anos. Elza, 90. Para o príncipe negro mais branco do Brasil, a panelinha de sempre prestou homenagem-canção exibindo uma coletânea de tipos que mostra nossa sociedade de cumpadrio firme e forte no riscado. Ali não se vê o receptor da música, o público – sempre pagante, mas apenas quem roda a roda do negócio cultural – até atriz bissexta ganhou seu mergulho e um flash. Pergunta respeitosa: não seria um video para circular apenas entre os dele? Publicar, pareceu-me, veio para certificar a máfia a de “quem pode”?

O problema da gente deixar rastros na rede é que temos que prestar continência aos nossos atos passados no futuro. Eu bem sei…

Vendo de longe, no Brasil, quem pode acha-se acima de tudo, mas acaba pegando vírus…  Não que isso vá provocar uma mudança radical entre os sobreviventes. Mas tem uma graça, uma ironia embutida. O mundo enfrentando a batalha do milênio e Queiroz aparece em sítio de advogado ligadíssimo à suspeita família do Chefe de Estado; presidente da Embratur tem seu dia de clipe do Gil, ministro novo com Currículo falsificado velho, artista numa eterna live-minha-vida-não-difere-da-do-Adriano-Imperador, executiva da Avon com menos de 30 mantém a tradição da velhinha-escrava, banqueiro defende que funcionário em home office receba menos, pilota roda na pista e em dinheiro desviado da Saúde, jornalista que usou meio para aclamar extrema direita explica que isso é entretenimento (e perde a boca), juiz dispara nas pesquisas… Nem vou citar nuvem de gafanhotos e meteoro porque não precisa. O Brasil é auto-suficiente em desastre.

Enfim, a gente sai, demora um tempo para se reencontrar, e, de repente, o foco, o ponto de vista vão para outros mundos. E os gostos.

Antes, o Brasil era uma grande dor. Depois, uma conexão, hoje, posso passar dias sem procurar saber.

Tirando a beleza da língua, essa, sim, uma raiz, o resto, desnecessário.

Notícia mesmo foi a morte de Maurice. Muito antes de pandemia, e na França, onde mais, ele virou notícia por ser… ele mesmo. A turma da modernidade, incomodada. A turma da tradição, em guarda. Maurice venceu. Mas, como é costume entre novas celebridades, sucumbiu.

Sua dona fez um magnífico epitáfio: “Não sou um herói. Esta é uma palavra usada em demasia. Eu falei minha verdade. Fiz o que me minha natureza ditava. Muito muda, mas o essencial fica. (…)”

Salve Maurice.

Sem clipe, sem palminha, sem alarde.

Morto por uma gripe.

Dizem que cantou, não ciscou e partiu.

Do original em inglês (e não foi Corinne que escreveu):

I am not a hero. That’s an overused word. I spoke my own truth. I did what came naturally to me. Many things change but the essential things do not.

The sun sets. The sun rises. Shaking my wattles, raising my head, I had to greet the morning. I could never resist, and why should I have? I had to crow. This was my particular joy, my particular thing. Each of us has one. Honor it.

I am sorry to have caused a fuss. I never wanted to annoy anyone. Those neighbors from Limoges, with their busy city lives, I know they wanted their peace. They had been saving for their summer vacation. Perhaps what they missed is that a sound, like my crowing or a ship’s foghorn or a train whistle, may form part of the peace of a place.

A little more patience, a little less agitation, never did any harm. I never went anywhere, and I was happy. There’s more to a coop than meets the eye. There’s more to any place if you look long enough.

I was content to have three hens as companions. They kept me busy. Contentment, for me, was being attuned to the rhythms and cycles of life. The chicken and the egg.

This is a strange season to be ending my days on this small planet. Human beings, so restless, seem fearful. I hear there is a virus. I am not sure exactly what the virus is. I think the virus is many things. It always lurks, and it will pass, and some other scourge will appear. Keep your eye on the sunrise.

My countrymen are angry. What else is new? It’s always too much or too little in France but, my God, what a country of boundless pleasures! Bastille Day is coming along. Off with their heads, out with the old, in with the new! We French are revolution specialists. The world needs a good revolution now and then.

Even if everything changes so that everything can stay the same. Cultivate your garden. That never disappoints.

I will miss Corinne. I will miss strutting about. I will miss puffing out my plumage and making heads turn (yes, I admit it, I noticed that). I will miss emptying my lungs in the dawn, such a perfect feeling. I will miss the little familiar sounds that offer comfort.

I bequeath the 1,000 euros the judge awarded me to the establishment of an online (yes!) audio museum of rural sounds. Lest this hectic world forget.

May peace spread across the earth, but please do not confuse peace with silence.

Maurice the Rooster

Maurice, o galo
Corinne Fesseau com Maurice na ilha de Oléron. Credito: Kasia Strek / The New York Times

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