Boato

Mais uma viagem a caminho e eu acompanhando o pós-dia das mães com atenção antropológica.
É engraçado como os publicitários não são criativos: jóias, eletrodomésticos, roupas, panelas, flores, chocolates – o mix que serve para várias comemorações, menos para as mães de hoje, invade encartes de jornal, editoriais e outros meios menos favorecidos.
Se for pai, troque as jóias por relógios; os eletros, roupas e chocolates permanecem; saem panelas e flores e entram gadgets para cuidar do carro.
Comprar, comprar, comprar.
A regra é entupir sua casa de coisas inúteis e sonhar com trocas incríveis: a sua geladeira velha ganha aposentadoria.
A nova e colorida que vai durar menos do que a antiga vira a vedete da cozinha.
Oh, céus!
Não sou defensora do não-consumismo radical e caio centenas de vezes em tentação, mas acho que o verbo presentear está sendo torturado.
Em pouco tempo, veremos o pobre verbo com barba longa, um corão do lado, mãos acorrentadas, preso dentro de uma gaiola em Guantánamo.
De lá, será transferido para um outlet em Miami e onde será dilacerado por turistas brasileiros em fúria.
Triste fim de um verbo.

Conheci uma senhora que deu para uma vendedora um anel de 7 mil dólares.
A vendora havia elogiado o anel.
A senhora, antes de deixar a loja, o tirou e entregou para a moça.
Deu porque quis, não por que não iria fazer falta.
Porque sentiu prazer.
E disse:
“- Dar é para poucos, receber é para quase ninguém”.
A vendedora não conseguiu balbuciar um “obrigada”.

E pensar que anda se encontra filosofia de boteco em plena época de liquidação…

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