Carnaval derradeiro

Tudo que pedi tu já me deste.

Um passeio.
Exploração dos novos velhos caminhos.
Conversa com porteiros.
Admiração por fachadas.
Passarinhos e gatos.
Alice.

A primeira vez foi intensa.
Bela Vista.
A entrada, em mármore rosa de Verona e corre-mão de latão dourado.
Elevador de madeira nobre.
Armários com porta de chamalote original de 1937.

Eu, ela, dois gatos e o fantasma da Dona Bibiana.
Aos poucos, tudo se mimetizava.
Café na padoca, almoço de domingo no Bexiga, caminhada na Paulista, trabalho na Freguesia do Ó.
A matriz na praça que parecia avisar: o interior ainda é distante.
As madrugadas que se arrastavam em plantões transformando o sábado num dia para ser dormido.
Os nossos barulhos e os barulhos inexplicáveis.

Na varanda, o vaso de supermercado.
Indiferente ao seu fito, a trepadeira subiu, fez curvas, seguiu o barbante e desenhou um moldura na porta de vidro.
Brotaram flores amarelas.
De amarelo claro pintei o quarto.
A cama de casal que ganhei do tio.
O edredom azul com mais flores, agrado do avô.
O armário da fazenda e vidros de Salinas.
Do nosso pequeno canto mineiro, eu avistava o Masp por inteiro.
Vazio.
São Paulo é pedra dura, faca amolada.

Decidi explorar os mares.
Aldeota de casas baixas e varandas de granito.
Brisa morna.
Branco piso de porcelanato que evidenciava fios de cabelo vermelho (nossos).
Garagem para duas vagas e dei ré numa carroça.

Do amor longo e desfeito à mata.
Uma noite no Debret.
Leleco, Mafalda e Bibi numa kitchenette em Copacabana.
Leblon, paixão platônica, até que o facho sossegou.
O pintor anotou o telefone num pedaço de papel amarelado.
Em pouco mais de 24 horas, estávamos todos juntos de novo.

A varanda com piso de ladrilho vermelho, a cozinha de pastilhas hexagonais.
A garagem aberta sem porteiro, o ladrão de rádio de carro, minha bicicleta.
Gatos malandros em madrugadas escaldantes.
Subia Chico, Bial descia.
Todo mundo no Bar Jóia.

Juntei cobres, preparei PF para pedreiro, e fui estacionar na Vila.
Sem trepadeira, com piso de taco.
Improvisei ladrilho hidráulico na cozinha.
Bancada preta rica.
Banheira com pés de cobre.
Um suspiro.
Uma chance.

João engatinhou na Praça das Bandeiras, estreou confete em Olinda.
Ganhou jardim gramado e jabuticabeira.
Gritaria esganiçada de maritacas.
Papagaio fazendo parada no telhado.

Ibirapitanga.
30 metros de casca marrom-escura que se lasca revelando o lustroso cerne vermelho-sangue.
Contrabandeada, adaptada, cerrada.
Nem toda árvore cria raiz.
Rara.

Não mais voltarei.
Tudo que pedi tu já me deste.

Alice não mora mais aqui

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