Andar com fé…

Quarentena, modo de descompressão e a gente reaprendendo a andar.Os barulhos têm me incomodado. Foram 90 dias de profundos silêncios, disquinhos na vitrola, interação com passarinhos e seus hábitos, entreveros com macacos, enterros de sapos.

E Gil fez anos. Elza, 90. Para o príncipe negro mais branco do Brasil, a panelinha de sempre prestou homenagem-canção exibindo uma coletânea de tipos que mostra nossa sociedade de cumpadrio firme e forte no riscado. Ali não se vê o receptor da música, o público – sempre pagante, mas apenas quem roda a roda do negócio cultural – até atriz bissexta ganhou seu mergulho e um flash. Pergunta respeitosa: não seria um video para circular apenas entre os dele? Publicar, pareceu-me, veio para certificar a máfia a de “quem pode”?

O problema da gente deixar rastros na rede é que temos que prestar continência aos nossos atos passados no futuro. Eu bem sei…

Vendo de longe, no Brasil, quem pode acha-se acima de tudo, mas acaba pegando vírus…  Não que isso vá provocar uma mudança radical entre os sobreviventes. Mas tem uma graça, uma ironia embutida. O mundo enfrentando a batalha do milênio e Queiroz aparece em sítio de advogado ligadíssimo à suspeita família do Chefe de Estado; presidente da Embratur tem seu dia de clipe do Gil, ministro novo com Currículo falsificado velho, artista numa eterna live-minha-vida-não-difere-da-do-Adriano-Imperador, executiva da Avon com menos de 30 mantém a tradição da velhinha-escrava, banqueiro defende que funcionário em home office receba menos, pilota roda na pista e em dinheiro desviado da Saúde, jornalista que usou meio para aclamar extrema direita explica que isso é entretenimento (e perde a boca), juiz dispara nas pesquisas… Nem vou citar nuvem de gafanhotos e meteoro porque não precisa. O Brasil é auto-suficiente em desastre.

Enfim, a gente sai, demora um tempo para se reencontrar, e, de repente, o foco, o ponto de vista vão para outros mundos. E os gostos.

Antes, o Brasil era uma grande dor. Depois, uma conexão, hoje, posso passar dias sem procurar saber.

Tirando a beleza da língua, essa, sim, uma raiz, o resto, desnecessário.

Notícia mesmo foi a morte de Maurice. Muito antes de pandemia, e na França, onde mais, ele virou notícia por ser… ele mesmo. A turma da modernidade, incomodada. A turma da tradição, em guarda. Maurice venceu. Mas, como é costume entre novas celebridades, sucumbiu.

Sua dona fez um magnífico epitáfio: “Não sou um herói. Esta é uma palavra usada em demasia. Eu falei minha verdade. Fiz o que me minha natureza ditava. Muito muda, mas o essencial fica. (…)”

Salve Maurice.

Sem clipe, sem palminha, sem alarde.

Morto por uma gripe.

Dizem que cantou, não ciscou e partiu.

Do original em inglês (e não foi Corinne que escreveu):

I am not a hero. That’s an overused word. I spoke my own truth. I did what came naturally to me. Many things change but the essential things do not.

The sun sets. The sun rises. Shaking my wattles, raising my head, I had to greet the morning. I could never resist, and why should I have? I had to crow. This was my particular joy, my particular thing. Each of us has one. Honor it.

I am sorry to have caused a fuss. I never wanted to annoy anyone. Those neighbors from Limoges, with their busy city lives, I know they wanted their peace. They had been saving for their summer vacation. Perhaps what they missed is that a sound, like my crowing or a ship’s foghorn or a train whistle, may form part of the peace of a place.

A little more patience, a little less agitation, never did any harm. I never went anywhere, and I was happy. There’s more to a coop than meets the eye. There’s more to any place if you look long enough.

I was content to have three hens as companions. They kept me busy. Contentment, for me, was being attuned to the rhythms and cycles of life. The chicken and the egg.

This is a strange season to be ending my days on this small planet. Human beings, so restless, seem fearful. I hear there is a virus. I am not sure exactly what the virus is. I think the virus is many things. It always lurks, and it will pass, and some other scourge will appear. Keep your eye on the sunrise.

My countrymen are angry. What else is new? It’s always too much or too little in France but, my God, what a country of boundless pleasures! Bastille Day is coming along. Off with their heads, out with the old, in with the new! We French are revolution specialists. The world needs a good revolution now and then.

Even if everything changes so that everything can stay the same. Cultivate your garden. That never disappoints.

I will miss Corinne. I will miss strutting about. I will miss puffing out my plumage and making heads turn (yes, I admit it, I noticed that). I will miss emptying my lungs in the dawn, such a perfect feeling. I will miss the little familiar sounds that offer comfort.

I bequeath the 1,000 euros the judge awarded me to the establishment of an online (yes!) audio museum of rural sounds. Lest this hectic world forget.

May peace spread across the earth, but please do not confuse peace with silence.

Maurice the Rooster

Maurice, o galo
Corinne Fesseau com Maurice na ilha de Oléron. Credito: Kasia Strek / The New York Times

Planejamento que nasce torto…

Se você não ouviu, está perdendo: podcast Trabuco. Esse texto é inspirado numa elucubração desses caras.

Em épocas de pandemia,  praia fica lotada  (até na Inglaterra onde se estica a canga sobre o cascalho), e também há passeata de alemães todos brancos pelos irmãos americanos pretos que não conseguem respirar. Tudo regado à  álcool (gel) para dar ares de responsabilidade. Vacina não existe e organização internacional dorme no ponto para só acordar quando o leite derramou.

Seria o fim do planejamento e estaria inaugurada a era do bundalelê sem carnaval?

Eu  venho de Belo Horizonte, uma cidade planejada. Inicialmente, prédios públicos, repartições, negócios seriam abrigados no perímetro da Avenida do Contorno.  As ruas com os nomes dos Estados são cruzadas pelas de nomes indígenas. Tupis, Guajajaras, Amazonas, Guaicurus, Rio de Janeiro, Bahia… Gringo que desce de paraquedas na capital mineira trava a língua.

Saindo do antigo palácio do governo, dando as costas para os edifícios das secretarias – hoje museus -, chega-se à Savassi, parte do bairro (dos) Funcionários, onde um dia houve um brejo (em tempos em que não se pode mexer nos proventos de servidores públicos isso vira até poesia se misturada ao lépido Aedes).  Savassi, curiosamente não é nome local. Os irmãos Achille, Arturo e Angelo Savazzi, imigrantes de Mântua, proprietários da padaria mais famosa dos anos 30 foram os homenageados.

Nos atuais anos 20 do novo milênio, chegar a qualquer padoca é complicado: os ônibus saem lotados das cidades do entorno e despejam trabalhador de baixa renda de dia para recolher à noite. Já peguei muita van pirata – truque esperto para contornar um sistema público de transporte ineficiente. A Serra do Curral – cartão postal – é uma casquinha fina  de montanhas comidas pelas mineradoras. Alguns bairros que deveriam só receber casas para evitar que a paisagem fosse tampada pelos arranha-céus tiveram documentação mudada no apagar das luzes de mandatos de certos prefeitos e, como resultado, sofreram enorme especulação imobiliária. E, ironia, os rycos foram morar fora, em Nova Lima e adjacências. A cidade não é mais Jardim e todo mundo se encontra (eu não entendo muito) para comer pizza em supermercado que fica na beira da favela.

Fato também é que este solo, apesar de toda a dor, tem um poder transcendental.

Já citei por aqui e repito: pesquisas apontam que a força dos minérios adentra as entranhas e quem deixa Belo Horizonte sofre profundas alterações químicas e de metabolismo. Abstinência.

Quem fica, bebe sem cerimônia. E tem o estranho hábito de se alimentar da vida alheia.  Mineiro, 95% das vezes sabe tudo dos outros e torce para dar errado.  Mas a torcida para a cidade, naquela época era real, e a nova capital foi inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas na periferia da cidade, juntamente com os antigos moradores do Curral del Rei – que foram realojados na lonjura da Cidade ‘Nova’.

Bem… se lá o planejamento deu em novos brejos, aqui, a história foi outra: porto, terra de ninguém, habitada por estivadores, putas, fantasmas de ópio, Chineses em busca de riqueza, javaneses, colonizadores ingleses, malaios… Por não ser de ninguém mesmo, por não vir com um ranço histórico, e por ter sido rejeitada, foi planejada sem aventura Niemeyristica, com disciplina estilo rédea (e orçamento) curta e, ao que tudo indica, deu certo.

Isso se você considerar “certo” ter muito dinheiro, morar cercado de jardins, enfrentar baixos índices de violência, contar com um porto moderníssimo, um aeroporto Disneylandia, e, também, topar achar normal dar porrada em doméstica, meter reguada em perna de estudante.

A diferença em números grita: por aqui, com cerca de 6 milhões de habitantes, 6,298 casos ativos – mais de 36 mil tratados e liberados. 188 hospitalizados, 1 em estado grave. 26 mortos. Em Belo Horizonte, com 2,5 milhões de habitantes,, segundo a SES, 4.668 casos ativos,  104 mortos.

Se Drummond vivo estivesse, certamente, teria material para uma nova Quadrilha.

PS: O Marku Ribas – tocando bateria no clip do Mick Jagger acima – ilustra bem esse ‘meu’ mundo. Ele simplesmente tocou com Bob Marley, James Brown e Clara Nunes.  Se tivesse seguido a maré, não seria explosão. Mas explosão no Brasil é só uma manchete e amanhã é outro dia.

 

 

 

Veneno eu bebo quente

McGrath
Pat para Dior (foto: Roxanne Lowit)
A voz sussurrada e a melodia precisa do trompete de Chet Baker – o que seriam delas não fosse o divino ser desdentado?
Heroína por heroína, Miles, Coltrane e metade turma da cadeira-cativa do Flamengo do jazz se lambuzou de ópio.
E tocou melhor que ele.
Mas sem dente e bonito de doer, só Chet.

Num mundo em que abundam termos como gordofobia, lugar da fala, feminazismos…
Ah, é preciso tanto músculo para continuar remando contra essa maré.
O que não dá é usar neologismo para esconder o que desperta o desejo: a beleza.
Buço, cueca por cima da calça, andar fantasiado por alguma ruela européia, postar seu último bolo no instagram – pode até ser cult, bonito não é.
Estética vem do grego e significa compreensão pelos sentidos.
Vai além do seu protesto cafona.

Patti, a Smith, tem uma biografia sensacional.
Eu, particularmente, devorei as páginas sobre o Sam Shepard.
E fiquei chapada com a descrição de como um corte de cabelo inspirado no Keith Richards a catapultou para a ‘fama’.

As belas rodam eras, mutantes, hora encaracoladas, hora tábuas.
Nem menina nem menino.
Seguem sempre presentes e geniais.
Para além da figura, elas têm um élan.

Não vale o borogodó que veio de graça, e pulou na platéia aos 20 anos, mas o que se fez dele.
Porque ser fugaz é para quase todos.
Ser bonito é para mitos.
Para sabedores de si que cuidaram do rico patrimônio.

No final, em era bichada, tudo sempre se harmoniza numa paleta meiga ou numa vanguarda da Pat McGrath. Uma Divine Rose original.
Aliás, Pat que é preta e gorda, é a maior entendedora de beleza feminina desse século torto e desembestado.
Quem nasceu para Michelangelo, querido, não se preocupa muito com o destino de David.

Tudo isso só para dizer que não existe conceito torto de beleza.
Não existe padrão.
Existe bonito.
Quem não gosta do bonito anda às turras com o espelho.

A dona da padaria não ficou para a historia
Patti Smith e Sam Shepard – circa 1971. (by Judy Linn)

Garrinhas

Ah! Abriram-se as portas, a rua do comércio encheu-se de mascarados.
Hoje, depois de um mais longo e úmido verão, a vida acordou lá fora.
Logo cedo, a turma da dedetização bateu à porta para – achei tão delicado – “colocar para dormir” as formigas.
E tentar dar um jeito na mosquitada que se reproduz nas minhas helicônias.
Verdade seja dita: não fosse o oportunismo da dengue e uma riqueza fugaz, eu conviveria feliz com os insetos.
Mas nem terminaram e eu já estava pronta para desenferrujar.
Foi manutenção preventiva – polimento de garras -, rua, celular, carro, estacionamento.
Pulei o almoço, trabalhei – ao ar livre -, arrematei a sexta com reunião happy-hour para discutir a sorte nesse futuro incerto.

Heliconias
Se não for tropical nem me convida

Em alguns momentos, perdida no caminho.
O cérebro limpa tudo o que é supérfluo.
Em outros, incomodada com os barulhos da coletividade.
As duas australianas, aos berros, saíram com menos unhas numa nuvem de mau querer.
O estacionamento, lotado, nunca antes neste país.
O barzinho, zero copos para lavar

Ah. Eu sei – a vida que eu reneguei é forjada na bigorna.
Nada dessa placidez burguesa.
Eu aqui, enrolando a prosa, para dizer que tudo vai ficar bem.

Ainda não me decidi.
Essa coisa de viver a casa – e fechar a porta para a rua.
Isso é que é.
Já dizia o poeta – perto do osso é mais gostoso.
E ainda assim, doloroso.

Elegia ao bife

Parece que aqui, no sudeste excêntrico da Asia, a receita de bife rendang é sacra como a do nosso picadinho.

Rendang é um curry da Malásia. 

Um prato extravagantemente rico, fácil de preparar, mas que leva tempo e muita paciência para cozinhar. 

Na vida, faltou-me.

Ao contrário de muitos, este é um curry seco, a carne não nada em molho, muito menos, berço esplêndido. 

Ruínas fumegantes, // o molho confunde-se com a sorte, salve! De Sumatra// Desmorona bem-vinda a carne. Curry grosso e escuro // aos olhos que turva de pranto picante,// mas formosíssimo exala
vapor // num arroz simples e branco que o envolve 
de indômita virtude// feitos e d’alta resignação. 

(Nolasco revira-se na tumba e eu nem pisco)

Fato é que a vida tem dessas e eu fui me associar a um bando de donas de casa com pouca ou nenhuma ocupação.

Da fauna toda, um pedaço: a indonésia em segundas núpcias com um australiano solteirão.

O primeiro filho foi deixado para o pai. 

Junto com ele, histórias fantásticas de vilas e de dinheiro imaginário.

A vida de hoje é simulacro do que seria uma novela bem ao gosto do povo.

Riqueza temperada com pequenos dramas, senhorio a ser servido de rosé gelado.

Tudo à beira da piscina cujo deck necessita de um reparo.

A nossa personagem dizia-se estilista de noivas.

Contratando costureiras baratas na terra natal, ela produzia, na verdade, um sem número de saias e vestidos mal acabados, arrematados a preços nada camaradas por conhecidas do círculo social da escola dos dois novos filhos.

Não posso negar que alguns me caiam muito bem.

Numa dessas, uma madame polida em Londres e Nova York, mas completamente desacreditada por ser filipina, levou e não pagou.

Ah! Os pontos de virada das novelas populares.

Para ajudar a colega, e sempre me expondo aos riscos da selva do segundo escalão da sociedade, aquele que joga dados, cartas ou tarô para arriscar tudo por um degrau perto do topo, fui desenrolar a pendência.

O uso de palavras é sempre arma cruel.

Não importa a cultura.

As peças, depois de dois meses sequestradas, voltaram para a dona como resultado de um jogo de xadrez jogado em whatsApp.

Como recompensa, prometeu-me um bife.

Passados dez dias e nada do bife, recebo uma foto.

A carne num barro marrom, como que atolada numa poça da chuva dessa manhã.

Acompanhada de legumes verde-escuro – provavelmente pimentão que dá azia.

Já ia eu levantando as mãos para o céu a agradecer mais um almoço de segunda-feira solucionado quando ela soltou:

“- Fiz o bife, mas algumas amigas (as ricas) quiseram comprá-lo.

É wagiu (20 dólares 300 gramas).

Se você encomendar agora, consigo entregar amanhã”.

Recusei elegante alegando ter feito uma feijoada imaginária que seria degustada ao longo dos três próximos dias.

Fazer o quê?

O hexâmetro nunca gozou de grande popularidade em línguas Latinas.

Antigo

Esse blog começou tão antigamente… que eu deveria reler cada pedaço de onde eu teimava em me esconder.

Escrever é cachaça e como todo álcool, vez ou outra, é recomendado abster-se de.

Eu ando perdendo – mais do que costumava – a nossa língua.

Não é culpa de falar inglês, mas dos meios eletrônicos, dos auto-corretores…

E da parca leitura.

Andei encomendando uns Machados no original, Machados que encontrei a bom preço – milagre -, valor venal que parece ter sido influenciado pela edição esgotada das memórias póstumas de Brás Cubas traduzidas na terra onde as vidas negras importariam.

Acho uma graça nosso mulato fazer sucesso estrondoso na gringa em chamas.

E, por conta dessa fama toda, acabar sendo lembrando no nosso quintal com bananeiras apinhadas de espinhos.

Pense no que Machado escreveria se hoje vivo estivesse.

E nas músicas do Tom, se a casa da Gávea ainda tivesse seu piano.

E nos sambas, choros, nas sandálias novas…

A pandemia veio chegando meio debochada, brincando de que já logo ia, deixou em mim um rastro de balanço de fim de ano, de revisão de estoque dos anos 80 na Avenida do Contorno. Eu ia abrindo as caixas com pijamas, com camisas Master, as blusas Sulfabril vermelhas… E cantando as quantidades. 12, 9, 27.

Voltei a cantar. Que coisa!

Mergulhei numa poça funda de jazz.

Tentei ler e nada.

Filmes do canal Criterion.

Vez ou outra um achado em Netflix.

Perdi a paciência – nenhuma novidade – com quem projeta em mim respostas.

E descobri a desculpa perfeita para começar tudo de novo.

enrolando
enrolando

 

Havaianas soltam as tiras

Pense, amigo brasileiro, reflita amigo português, sobre como é viver em seu país.

No Brasil, presidente é vizinho de assassino de vereadora. Filho de presidente recebe milhões em depósitos no banco e não explica de onde o dinheiro saiu. Nós, dia pós dia, desviamos da bandidagem, pagamos toneladas de impostos e entendemos que a vida é uma selva, um salve-se quem puder.

Em Portugal, colonizador e fornecedor de muitos trejeitos do Brasil, eu deixaria de presente para avaliação a série da Netflix sobre o desaparecimento da inglesinha Madeleine McCann. Ali aprende-se muito sobre política pública e treinamento policial.

Mas falemos do tigre asiático que tem a educação número 1 do mundo.

 “Rigorous teaching methods and excellent teachers keep the island-state top of the class” – The Economist

Rigor que permite que professores batam em alunos. Segue o texto publicado por uma mãe no principal jornal local (tradução livre):

” Segundo ele (filho da autora), ele foi atingido pela primeira vez e repetidamente no antebraço com uma régua de madeira porque ele errou a resposta a uma tarefa de educação em saúde.

Então, quando ele voltou para mostrar sua correção, a professora bateu nele várias vezes porque ele havia escrito algo que ela queria acima, em vez da primeira resposta.”

E a mãe ainda justifica:

“Nem todos nós podemos ser abençoados com professores gentis e atenciosos o tempo todo, e até mesmo o professor mais paciente pode perder a cabeça algumas vezes.”

E tem dúvidas se deveria questionar a escola:

“Na verdade, eu me perguntei se deveria enviar o e-mail por medo de ser rotulada como uma mãe monstruosa.”

A-hã.

Se ser o primeiro lugar no mundo tem seu preço, o que tenho notado em pouco mais de um ano por aqui é que o preço é anular o indivíduo em nome da coletividade. E as consequências, muitas vezes, saem do controle.

De um lado, a ingenuidade de quem tem medo de perguntar, de questionar, ou seja: de quem abdicou do famoso senso crítico.

De outro lado, as válvulas de escape de quem tem um cotidiano de ser continuamente colocado dentro de uma “caixa” para que fique “formado” tal como esperam seus governantes.

Jogaram pedra na Maria e vão para o xilindró
Jogaram pedra na Maria e vão para o xilindró (Fonte: StraitsTimes, foto Kevin Lim)

Hoje, um casal foi condenado por espancar a empregada doméstica. A condenação veio depois de uma primeira condenação, anos atrás, pelo menos motivo, referente a abusos com outra empregada.  Segundo a sentença, a patroa, mãe de três filhos, batia na empregada e não lhe dava comida suficiente – tendo a moça, faminta, comido cascas de banana jogadas no lixo. Na verdade, a empregada era alimentada com arroz e água – nada diferente do que faziam os carcereiros japoneses na segunda guerra mundial com seus prisioneiros de guerra (fossem eles americanos, ingleses ou chineses).

Se você está achando meu texto pesado, pare por aqui. Ou assuma o risco.

“Quando a empregada disse à patroa que não recebera comida suficiente, sua empregadora colocou um funil na boca e alimentou-a até vomitar. A criada recebeu a ordem de comer seu vômito e ela obedeceu.”

Este não é o primeiro caso acontecido na ilha. Seis em cada dez trabalhadores domésticos estrangeiros em Singapura são explorados por seus empregadores, de acordo com uma pesquisa recente, com as empregadas citando más condições de vida, excesso de horas de trabalho, dedução de salário e violência. Se você quiser ver a pesquisa completa, clique aqui.

E uma consequência das mais esperadas dessa pressão educacional e social é desastrosa para uma nação que  precisa conceder de 15 a 25 mil vistos de residentes permanentes para estrangeiros, por ano, para equilibrar seu próprio sistema de aposentadoria (sim, é preciso importar estrangeiros para garantir que o sistema de previdência de Singapura não quebre). Ah! E não pense que este mesmo “green card” te dará de direito de usufruir do sistema de aposentadoria que você estará ajudando a custear. Nope. Seu imposto banca os locais e você que se vire para bancar uma previdência privada.

O suicídio é a principal causa de morte entre pessoas entre 10 e 29 anos na ilha. Há 2,4 vezes mais mortes por suicídio do que acidentes de transporte. Alguém aí se lembra da velha máxima que o Brasil mata em acidentes de trânsito por ano o que se matou em toda a guerra do Vietnã?  Os homens respondem por mais de 66,6% de todos os suicídios em Singapura. E, para cada suicídio, há pelo menos 6 sobreviventes de uma tentativa frustrada.

Resumindo, companheiros: moro num país tropical, moro em apartamento trocentas vezes melhor do que o da média  dos locais, tenho carro – o que a maioria não tem -, pago menos impostos do que pagava no Brasil e tenho mais verde e mais segurança, meu filho estuda em escola privada enquanto os locais, em públicas (isto não é opcional para locais). Eu optei por não ter empregada, e, quando tive, nunca encostei o dedo em uma. No meu país tropical subdesenvolvido, meu pai sentiu a dor de experimentar uma palmatória, eu não. Aqui, estudasse meu filho numa das disputadíssimas escolas locais, com certeza, por sua origem e comportamento, tomaria algumas reguadas para se enquadrar no sistema.

Se quero voltar? Não.

Se me tornei uma pessoa mais conformada? Também não. Corro sério risco de nunca ter um visto permanente só por ter escrito este post.

Singapura é o paraíso sob diversos aspectos, mas o preço, ah… Não existe perfeição no mundo capitalista. Existe o lobo e o cordeiro. E umas ovelhas negras que, como eu, perambulam sem rumo por aí.

 

 

 

Dois mundos

Estou em Singapura desde 26 de dezembro de 2017.

440 dias.

Muitas viagens, uma volta ao Brasil. Ondas gigantes de sentimentos indo e vindo com a maré. Marolas de águas quentes me fazendo afundar o pé na areia sem medo.

Nesse período, passei um dia em Amsterdã, alguns em Ho Chi Minh (eterna Saigon), visitei a parte pútrida do delta do Mekong no Vietnã; visitei a parte linda, calma, marrom chocolate no Laos. Templos, feiras-livres. Comi sapos, provei gafanhotos, evitei baratas crocantes. Vi churrasco de cachorro. Entrei em casas cujas configurações jamais passariam pela minha cabeça.,Camboja, Tailândia das praias lindas do sul às montanhas mágicas do Norte. Incenso feito com terra, ervas e mãos grandes de anciãs carecas. Açúcar leve de palma. Pimentas. Dezenas de tipos de gengibre. Híbridos de limão com cidra. Leite de côco.

Quando atravesso oriente e ocidente, minha parada é sempre Istambul. Como manteiga caseira. Pretzel. Pão sem fermento. Dou um braço para não pisar nos Emirados Árabes, um enorme shopping cafona cravado no meio do deserto. Uma ode ao espírito vazio.

Agora, recém chegada de volta a Singapura, com o corpo cheio de sal e a cabeça inundada de tons de azul de Krabi, na Tailândia, procuro pelo meu porteiro.

Meu prédio – creia – não é um condomínio típico de Singapura. Com “apenas” 4 blocos, 2 apartamentos por andar, 42 andares cada, é considerado pequeno. Tem piscina olímpica. E uma meia quadra de de futebol feita de cimento e  habitada por pernilongos, esquilos, lagartixas, passarinhos. Tem jardim com flores. Tem um galo safado que insiste em voar pelo alto do muro. Tem gatos malandros,. Tem tucanos locais com dois bicos. Tem vida.

Os funcionários, finíssimos, sempre dão bom tarde, boa noite, tenha um lindo dia.

Mohammed foi o primeiro a puxar papo. Alto, moreno cor de chocolate meio amargo com um pouquinho de leite, um bigode indiano, alto. Figuraça. Cuida da porta principal – dos carros que entram e das pessoas que chegam à pé.

Adora mexer com as crianças. Leva cones – daqueles, feitos de jornal, ou de cartolina colorida que costumavam carregar amendoim torradinho nos nossos sinais de trânsito brasileiros. Nos cones do Mohammed, ração para as carpas. É que em frente da guarita dele, na entrada caprichada do prédio, há um lindo lago, com ponte, bambus, taboas, e dezenas de carpas. Minhas prediletas são as amarelas cor de gema de ovo. Preguiçosas e gordas, elas se enfileiram na beira do lago para pedir comida para quem quer que passe. As tartarugas e peixões ficam no laguinho do outro lado, vez ou outra os quelônio tomam sol fazendo malabarismo, uma em cima do outro.

Mohammed trocou fotos comigo para compararmos nossa decoração de Natal. Um dia me convidou para jantar. Eu aceitei. Ficamos de marcar. Ele impressionado que eu aceitei, eu abismada que ele convidou. Cheguei a falar disso num dos meus primeiros vídeos: o porteiro que ganha como gente, pode também se sentir cidadão e chamar a pessoa para quem ele presta serviço para dividir um prato de comida.

No meu predio em São Paulo, tínhamos três porteiros: José, Zezinho e Ednilton. O último, chegado numa cachaça, foi demitido depois que deixei o Brasil. Uma pena. Merecia mais atenção médica do que um pé na bunda. Zezinho, o de cabeça-dura e dedo verde, plantou feijões em todo o gramado feio, maltratado que por lá havia. No muro da piscina, colocou maracujazeiro. Ao lado da muda de cerejeira de flor, em plena calçada,  cismou de plantar abacaxi. Com Zezinho plantando, tudo dá.

Antes de eu ir-me embora, fizemos uma feijoada de Natal. Cada vizinho levou um prato de comida. Os feijões orgânicos, plantados por Zezinho, serviram quase 20 famílias. O maracujá virou caipirinha. O abacaxi foi colhido por esses dias. Demorou – e virou atração no Sumarezinho.

À festa de Natal da rua Aimberê, nenhum dos porteiros compareceu. Ficaram encabulados, sentindo-se sem lugar. Penso eu – porque ninguém disse nada, só não apareceram. Comemos o feijão que Zezinho comprou, plantou, cultivou, colheu, debulhou. Zezinho levou uma quentinha.

Hoje, voltando para casa, parei na guarita, deixei a fila de 6 carros ficar impaciente com minha estacionada. Onde anda Mohammed? Tirou férias? Casou? Mudou de emprego?

Mohammed andava sumido. Eu, ocupada. O tempo passou, Mohammed não voltou.

Lembrei da cara de espanto dele quando comecei a jogar cocô de cachorro num latão que fica na saída do prédio. Espanto que virou risada. Demorou meses para a chefe dos funcionários me explicar que o latão é uma fornalha ritual, que as pessoas usam para queimar oferendas, velas e outros objetos sagrados em memória de seus antepassados. Bom, andaram queimando cocô de cachorro por um bom tempo…

Mohammed não vai voltar.

Num domingo, 27 de janeiro, levou um tombo em casa. Bateu a cabeça, fraturou o crânio. Seus inquilinos, preocupados com o silêncio dele em dia de folga, chamaram a polícia.

Quando arrombaram a porta, não havia nada mais a fazer. Mohammed já não mora mais aqui.

E a poesia da minha Lua de Mel com Singapura deu hoje seu último suspiro. Casa nova, país estrangeiro, é tudo como namorado recém-chegado. O fogo dura um tempo bom que parece nunca acabar. Mas acaba. Depois é capinar.

Jasmin-Manga ou Frangipanni
Jasmin-Manga ou Frangipanni

 

Moral e bons costumes

Durante uma pá de anos, eu usei esse espaço para falar tudo e qualquer coisa.

O mundo mudou, o menino Mark (que, por ofício, conheci pessoalmente) parecia besta (e é)… Enfim, foram-se os anos. Mas continuo falando de tudo e qualquer coisa. Em frases, em posts cifrados, para poucos – onde fica meu conforto e meu prazer. Não que não haja efeitos colaterais e uns bloqueados pelo caminho…

Aqui, pelo menos (e com um visual demodê), quem manda nessa bagaça sou eu (e o Word Press, e o desenvolvedor e o designer – alô, designers, estou procurando um para renovar essa casa velha)…

Chega de preâmbulo.

“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde

Nunca antes, nesse país, uma conversa de bastidor definiu tanto. Ainda hoje, meus amigos economistas citam Ricupero como um grande pensador, elogiam a crítica do Henrique Meirelles à reforma da previdência, alguns, mais old school, se emocionam e tiram selfie com o Delfim.

Eu, que não tenho nada com isso (É a economia, sua boçal), não consigo, de verdade, separar o homem da obra. Tá certo: Woody Allen, Michael Jackson, Chico Buarque… Com esses sou mal resolvida. Decidi que não assistirei a nenhum filme novo do primeiro. Ainda vibro com as músicas do segundo – mas tenho sentimentos dúbios e penso no meu filho. O terceiro pagou em vida pelas escolhas políticas. Vou continuar ouvindo e vou continuar ignorando o que quer que ele tenha a dizer sobre o partido de estimação. Nossa “relação” está zerada, até por que

Seus filhos, erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais

Mas em se falando de economistas, não consigo processar. Não consigo passar um pano no passado do trio duralex e simplesmente me ater aos seus brilhantes pensamentos. Quando o sujo fala do mal lavado, em fevereiro é carnaval.

(EM – eternas – OBRAS)