Capítulo 3

“The foot feels the foot when it feels the ground.”

 

Ela repetia a frase que encontrou quando buscava qualquer coisa no Google.
Atribuíam ao Buda, mas era do inglês adepto da yoga e do zen, Ernest Wood.

A cabeça andava perdida como balão de gás em mão de criança.
As moedas deixadas com displicência num copo de requeijão na janela da área de serviço começaram a minguar.
Moedas para comprar pão.

Todos os dias a mesma história.
Acordar bem cedo.
Descobrir entediada o que acontecera no mundo entre meia noite e cinco da manhã.
Café – que odiava – sem açúcar – para ficar intragável.
Esperar ansiosa pelo pão que mandava buscar.
Casca branca e quente.

Depois, realidade.
Encher as horas com tarefas inúteis.
Rodar de carro.
Correr no parque para suar e tentar tirar o chumbo que pressionava a cabeça.
Inútil.

Às oito, de banho tomado, começar a velha história.
Fingir que lutava.

Contatos.
Revisar o passado.
Mexer e mudar coisa ou outra naquele texto virtual que promete trazer dinheiro, apagar toda e qualquer ociosidade desde que o destinatário pague em dia.
Efeitos colaterais: estresse, angústia, desespero por férias.

Vez ou outra um almoço “de negócios”.
Trabalho.
Fazer parte deste mundo.

O pé sente o pé quando sente o chão.
Olhou para baixo e não viu nada.

Capítulo 2

Presa dentro de uma caixa de papelão, ela ouvia a chuva.
Os pés descalços e sujos.

Um raio surdo.
A eletricidade foi cortada.

Barulhos de carros, gente que passa com pressa.
Vez ou outra alguém esbarrava na caixa.
Um chute.

Sentiu falta do celular.
Sua muleta de mão.

Por que não havia música?
Um pano de fundo para o sem nexo.

Fez contas. Quantas horas faltariam para sair da caixa.
Olhou para os pés.

Capítulo 1

Rápida

Acordou e não reconheceu a casa.
As roupas, a luz, as enormes janelas.
Procurou a bolsa.
Nada.
Abriu a porta.
O sol forte não aquecia a tarde.
Vitrines com cartazes coloridos anunciavam promoções.
Olhou para os pés.
Sapatos enormes.
Sentiu falta do telefone.
As mãos, ásperas buscaram nos bolsos.
Havia apenas um maço de cigarros mentolados.
Sentiu o hálito amargo.
Não reconheceu as ruas.
A cabeça repassando mil histórias sem começo ou fim.
Passos muito rápidos como se soubesse onde parar em meio a um romance kafkaniano tropical.
Procurava algo que lhe desse um chão, que fizesse a memória despertar.
Nada.
O que buscava mesmo?
Começou a correr.

Ruas, carros.
Nada.