Vapor

Ando pensando muito e escrevendo na cabeça.
Saem uns textos bonitos e sem a menor revisão.
Aí me esqueço daqui e fico flanando no ar.

A estilista morta – tão bonita, tão trágica.
Os meninos ricos da internet.
As lutas televisionadas.
As empregadas.
Fica tudo assim tão século passado.

Tenho achado todos muito impacientes.
Todos correndo.
Todos atrasados.
Uma agressividade pulsante.
Uma necessidade de gritos.

Estou no olho do furacão e gosto.
Sou feliz.
Aqui não há som.
Só imagem.

Casa nova que vai subindo.
Dinheiro, como sempre, escoando rua abaixo.
Viagens.
Cartões.
Chocolate.
E bastante vinho.
Agora com direito a corrida, personal trainer.
Cabelo louro.
Cortado louco.

Vapor.
Ando rindo de tudo.
Ando calma.
Será o outono ou a primavera?

anti-ruido

Quebre o vidro

Ano novo, todo mundo resolve ficar bonzinho, fazer regime, parar de comer doces…
Por aqui, agora na terra da ponte estaiada, antes desbundadada em um posto qualquer, comecei enchendo a cara, andando de bicicleta em zig zag e curtindo o novo ano na maior ressaca.
O dia “um” pode dizer muito sobre os 364 que restam (ou 356 se você é purista).
Depois, estrada, São Paulo, poeira de casa, lar.
E trabalho.
Tudo o que não foi combinado vem fazendo o (meu) mundo entrar nos eixos.
Nesta pausa para o café, uma dívida – que não é promessa -: tentar escrever um pouquinho mais.
Em tempos de bandidos menores de idade que matam com pistola tamanho mini, em tempos em que grávidas são baleadas sem dó, há que se navegar sem medo.
Se for para doer, passe a navalha devagar.
Se não for, fique mais um pouquinho.
2013 é uma sopa de números tão bonitinhos.
Se você não ganhou os tais 81 milhões (já descontados os impostos), faça como eu: vá de classe econômica, mas estenda um lencinho de seda no assento.
E caminhe sem olhar para trás.

Serpente

Para celebrar 2013 que, segundo os chineses, começa oficialmente em 13 de fevereiro…
Curvas, elipses, rugas.
Porque ter mais de 30 é perder as vergonhas.
É sentir tudo direto na veia.
E cair quantas vezes se fizer necessário para provar o seu ponto.
E provar outras cositas más.
Ah…

“Cuando estés bien en la vía,
sin rumbo, desesperao…
Cuando no tengas ni fe,
ni yerba de ayer (…)”
Gardel

me permiti uma foto ridícula (mais do que as outras)

O peixe morre pela boca

Tempos modernos.
Você que lê aqui o que acontece numa vidinha comum, discuta o caso: bandido tira foto coberto por nota de 100 reais e é preso acusado de participar de roubo a carro forte.
Pai esquece filha dentro do carro e publica no Facebook carta dizendo-se culpado pela morte da criança.
Jogador (?) Adriano diz a jornalista que não está acabado e que só na (favela) Vila Cruzeiro sente-se “gente”.
Garota brasileira é estrela (?) do programa australiano ‘Virgins Wanted’, responsável pelo leilão da virgindade dela.

Hoje em dia, tudo é público.
Tudo é gritado, arremessado contra a multidão.
Não importa quão bizarro, quão íntimo ou estritamente privado.
O negócio é ser publicado.
Jogado ao povo e escancarado.

O que me estranha é a politicagem que nunca vê nada.
Nem as penas do povo do mensalão…
Nem isto nem aquilo.

Uns querendo vender a alma ao diabo da internet e outros concorrendo ao Oscar…

Fato

(farpas)

Vagando pelas ruas cheias,
minha alma procura frestas.

Um ser antes rotundo, iluminado.
Hoje pálido, sem curvas, encurvado.
Sem tempo ou relógio.
Sem fé.
Pura farpa.

Com a voz rouca.
Cabelos cuidadosamente arrumados.
Vagando com a agenda cheia.
Pelas ruas escuras.

Minha alma é só.

AZT

Não era agito?
Agito a praga que me afligia?
Pois eu aqui, equilibrada, tendo que me metamorfosear.
Equilibrista.
Passadeira.
Diarista.
Trabalho.
Viagem.
E casa.
Casa e contas.
Carro.
Gasolina.
Radiador.
Procuro AZT para o meu gato.
Fato.
Ontem a gatinha preta doou sangue.
Trabalhei, fiz reunião, passei no colégio, reclamei desta correria.
Aproveitei um fiapo de sol.
Comi bomba calórica da padaria.
E nada, nada mesmo
de AZT para o meu gato.
De noite, transfusão.
Na clínica, no hospital todos riem quando ouvem seu nome.
Leleco.
Eu fico indignada.
Confundirem personagem de novela com o um clássico de Nelson Rodrigues.
E não é que ele voltou quase bom?
Mas (ainda) falta o AZT.

São Paulo vista de dentro

também chove

Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida – umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.



Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente, por isso pouco sentiam. De aí a sua perfeita execução da obra de arte.

Fernando Pessoa

Não

Eu não

Definitivamente não tinha medo.
Quanto mais alto o andar, mais tinha vontade de pular.
E coração sempre batia acelerado.
Algumas vezes, ficava tonta.
Por não ter medo vivia cheia de hematomas.
Cicatrizes.
Pontos.
As pernas, tão bonitas, tinham marcas de alto a baixo.
E falava alto.
Sempre.
Para ser ouvida.

Achava estranho não ter morrido como os mártires, aos 27.
A velhice ia chegando e ela estava de pé.
O medo, talvez, fosse a própria morte.

Capítulo 27: alô

holla, que tal

E ela atendeu o telefone.
Seguiu as instruções, não discutiu a proposta, fez o que seu mestre mandou.

(fez o jogo e se calou)

Sua vida então mudou.
Não voltou mais ao velho apartamento.
Hoje vive num vão livre brutalista.
Tem 4 escudeiras fiéis e bem pagas.
Na decoração, poucos objetos.
Usa roupas simples.
Viaja menos e com mais emoção.

Sorri – com e sem motivo.

O tal telefonema?
Ah… Pergunte para o Snoopy.

Capítulo 26 – Resgate

Par

A correspondência foi sendo jogada por debaixo da porta até que um bolo de papéis travou a entrada.
O porteiro, então, começou a fazer pilhas de cartas ao lado da porta de entrada.
O vizinho da frente não gostou, mas não teve ânimo para reclamar da nova “decoração” do hall.
Ele passava dias e noites acordado.
Quase não comia.
Olhava para a foto da musa tão viva que nem parecia que, hoje, é morta.
Engraçado é que, improdutivo, sentia menos angústia.
Não tinha vontade de consumir.
As compras de supermercado – pensadas para durar uma semana – já duravam 8 semanas.
2 meses trancado dentro de casa.
A porta da área, aberta desde que Rita surtou e foi embora.
Rita, a diarista.
Não pagou a luz e não precisava mesmo de luz.
Tomava um banho frio quando sentia vontade.
A conta do condomínio.
Seria débito automático?
Não se lembrava e nem sabia quando ainda teria no banco.
A estante estava repleta de livros com belas capas, autores consagrados, coisa ou outra pop para combinar com a decoração…
Livros mortos.
Ele então escolhia 15, 20.
Lia todos de uma vez.
Um parágrafo de cada um.
E ia construindo novas estórias.
Costurando narrativas.
Via o sol nascer da janela.
Ouvia o barulho dos ônibus lá fora.
E lia, lia, lia.
Quando se entediava, passava horas olhando para aquele par de seios perfeitos.
Seios de diva morta.