A venda

Atento aos sinais

Qualquer ser humano médio, não adepto do estilo fora-da-lei, e que tenha passado pelo menos um quinto da vida no Brasil é capaz de:
– sair do nada e ir para algum lugar;
– fazer gambiarra;
– antecipar se é assalto, sequestro ou delivery do iFood.

São décadas navegando por mares completamente escalafobéticos, não é, minha filha?

E é por isso que, para mim, o ‘novo normal’ é dissipar a poeira do caos, corrupção, fé cega e malandragem por meio de pés fincados em qualquer biboca onde pelo menos UMA lei seja rigorosamente cumprida.
Vale até Lei do Silêncio.

Corra, Lola, corra

2017.
Tal qual Scarlett O’Hara, agarrei a terra (estrangeira) entre os dedos e fiz um juramento:
” – Despachante, nunca mais!”

O apartamento paulista, fruto de suor, reforma e uma dose de loucura concretista, foi fechado.
Virou momumento ao “e se”.
E se tivesse deixado o dinheiro no banco, hoje não daria para comprar uma bicicleta de rodinhas.
E se der tudo errado, ainda tem casa.
E se faltar dinheiro, vende.

Dois anos se passaram e ele foi alugado.
Esperei com candura pelos novos problemas.

O inquilino

Antes mesmo de chegar a comprovação de renda, as redes sociais já gritavam.
Lobista, representante de big tech transformado em funcionário público, executivo de aplicativo estrangeiro que incentiva a restauração do movimento escravagista, persona tornada pública em vídeo da Lava-Jato no YouTube.
De brinde, namorada blogueira, influencer, estandarte de roupa-preta, com franja da Solange de Vale-Tudo.

Na chegada, a pressa era infinita.
Em uma semana, negociação de contrato, vistoria, seguro-fiança, 6 meses de aluguel adiantados.
No dia da entrega das chaves… Solange revelou-se Maria de Fátima e maltratou minha diarista.

A revelação

Em janeiro, surpresa! Ou seria karma?
Como toda cobertura que se preze, bastou a turma do condomínio iniciar uma obra na laje para nos brindar com um vazamento.
Junto com os pedreiros e encanadores, veio uma nervosa lista de demandas.
Não quer cortina de voil.
Quer rolô.
Quer janelas novas no décimo andar.
Quer um tanto disto e muito mais daquilo.

Paladina de terras distantes em que palavra se honra, segui o script.
Arrumou-se o que era para ser arrumado, falou-se ‘não’ para o que não havia sido acordado previamente.

Contágio

A quarentena começou com a pompa e glória de quem tem um buraco na parede e chove lá fora…
Mal passou o choque da vida real e o aluguel atrasou.
Eu processei a informação e segui o jogo: sentei-me em posição de lótus, fiz pão, quebra-cabeças, comecei a beber na segunda-feira, todas as opções que um Circuit Breaker te oferece no século XXI…

Seis meses de ‘relacionamento’, e recebo o já esperado email – certamente escrito num momento de devaneio no claustro – sugerindo rompimento do acordo com dispensa da multa.
A argumentação não era a super aceitável “pô, acabou a grana”…
Na verdade, a culpa era minha de não estar cumprindo o combinado (?).
Contrato de aluguel, basicamente, é eu entro com a apartamento, eles entram com o pagamento… Não tem variável.
Simpáticos, eles avisam que “relutaram muito” em depositar o devido do mês.
Poxa, escreveu, não leu, nem precisa de pau na frase.

Como, por aqui, Covid-19 assombrou mais cedo e com muito mais potência, minha lente já estava filtrando outras paisagens.
Levanta a âncora, irmã!

Cuidado com o que desejas

Coloquei o apartamento à venda.

O inquilino complicado, que até ontem estaria de malas prontas, sapateou.
Disse que iria consultar advogados no plural.
Ameaçou não permitir visitas.

E está chovendo comprador.

Si vis pacem, para bellum

Disclaimer: Todas as personagens e situações deste texto real são absolutamente fictícias. Qualquer semelhança com a vida como ela é é pura prosa, ou mera coincidência. De perto, o “novo normal” é muito mais embaixo. Já dizia Camus do Crato, melhor literatura do que documentário.

Cultura e Sociedade

 

O Império

será sempre da hipocrisia.

Quando Machado pariu Capitu, feministas já raspavam cabeça – tenho certeza. E a Esquerda Caviar nadava em Nutella. Direitistas trocavam as armas assim como o fazem com iPhones. Instagram bombava de senhorinhas exibindo as canelas.

Rappers pretos pobres se casavam com herdeiras brancas.

A turba, revoltada, transferia os investimentos do Itaú para a XP.

Advogados lobistas em Brasilia desfilavam o ante-braço tatuado com símbolos indígenas.

Modernas em apartamento alugado exibindo live da decoração e da vida que não acontece lá fora clamavam por justiça.

Sapatos prateados.

Muita cartela de cor e preto básico.

Consultoria.

Esse Brasil lindo e fagueiro, de um eterno show off cujas realidades são sempre escusas.

Lugar da fala.

“Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

Em priscas eras de followers, quero apenas o vácuo.

Veneno eu bebo quente

McGrath
Pat para Dior (foto: Roxanne Lowit)
A voz sussurrada e a melodia precisa do trompete de Chet Baker – o que seriam delas não fosse o divino ser desdentado?
Heroína por heroína, Miles, Coltrane e metade turma da cadeira-cativa do Flamengo do jazz se lambuzou de ópio.
E tocou melhor que ele.
Mas sem dente e bonito de doer, só Chet.

Num mundo em que abundam termos como gordofobia, lugar da fala, feminazismos…
Ah, é preciso tanto músculo para continuar remando contra essa maré.
O que não dá é usar neologismo para esconder o que desperta o desejo: a beleza.
Buço, cueca por cima da calça, andar fantasiado por alguma ruela européia, postar seu último bolo no instagram – pode até ser cult, bonito não é.
Estética vem do grego e significa compreensão pelos sentidos.
Vai além do seu protesto cafona.

Patti, a Smith, tem uma biografia sensacional.
Eu, particularmente, devorei as páginas sobre o Sam Shepard.
E fiquei chapada com a descrição de como um corte de cabelo inspirado no Keith Richards a catapultou para a ‘fama’.

As belas rodam eras, mutantes, hora encaracoladas, hora tábuas.
Nem menina nem menino.
Seguem sempre presentes e geniais.
Para além da figura, elas têm um élan.

Não vale o borogodó que veio de graça, e pulou na platéia aos 20 anos, mas o que se fez dele.
Porque ser fugaz é para quase todos.
Ser bonito é para mitos.
Para sabedores de si que cuidaram do rico patrimônio.

No final, em era bichada, tudo sempre se harmoniza numa paleta meiga ou numa vanguarda da Pat McGrath. Uma Divine Rose original.
Aliás, Pat que é preta e gorda, é a maior entendedora de beleza feminina desse século torto e desembestado.
Quem nasceu para Michelangelo, querido, não se preocupa muito com o destino de David.

Tudo isso só para dizer que não existe conceito torto de beleza.
Não existe padrão.
Existe bonito.
Quem não gosta do bonito anda às turras com o espelho.

A dona da padaria não ficou para a historia
Patti Smith e Sam Shepard – circa 1971. (by Judy Linn)

Fabrício

Fiat Lux é o desejo, mas, de Pinheirinho para baixo, Olho no Queiroz.

Oremos por Atibaia, ou a grande Tocaia, onde pedalinhos personalizados não são seus nem de ninguém.

Onde cozinha completa sai bancada por empreiteira.

Onde casa de advogado abriga fugitivo.

Bom mesmo são os fósforos Queiroz – para a palha que arde em seu palpite político.

(Nada de novo no front e o barquinho navega no brejo)

Fósforos Queiroz, pelo menos queima oQ filme

Elegia ao bife

Parece que aqui, no sudeste excêntrico da Asia, a receita de bife rendang é sacra como a do nosso picadinho.

Rendang é um curry da Malásia. 

Um prato extravagantemente rico, fácil de preparar, mas que leva tempo e muita paciência para cozinhar. 

Na vida, faltou-me.

Ao contrário de muitos, este é um curry seco, a carne não nada em molho, muito menos, berço esplêndido. 

Ruínas fumegantes, // o molho confunde-se com a sorte, salve! De Sumatra// Desmorona bem-vinda a carne. Curry grosso e escuro // aos olhos que turva de pranto picante,// mas formosíssimo exala
vapor // num arroz simples e branco que o envolve 
de indômita virtude// feitos e d’alta resignação. 

(Nolasco revira-se na tumba e eu nem pisco)

Fato é que a vida tem dessas e eu fui me associar a um bando de donas de casa com pouca ou nenhuma ocupação.

Da fauna toda, um pedaço: a indonésia em segundas núpcias com um australiano solteirão.

O primeiro filho foi deixado para o pai. 

Junto com ele, histórias fantásticas de vilas e de dinheiro imaginário.

A vida de hoje é simulacro do que seria uma novela bem ao gosto do povo.

Riqueza temperada com pequenos dramas, senhorio a ser servido de rosé gelado.

Tudo à beira da piscina cujo deck necessita de um reparo.

A nossa personagem dizia-se estilista de noivas.

Contratando costureiras baratas na terra natal, ela produzia, na verdade, um sem número de saias e vestidos mal acabados, arrematados a preços nada camaradas por conhecidas do círculo social da escola dos dois novos filhos.

Não posso negar que alguns me caiam muito bem.

Numa dessas, uma madame polida em Londres e Nova York, mas completamente desacreditada por ser filipina, levou e não pagou.

Ah! Os pontos de virada das novelas populares.

Para ajudar a colega, e sempre me expondo aos riscos da selva do segundo escalão da sociedade, aquele que joga dados, cartas ou tarô para arriscar tudo por um degrau perto do topo, fui desenrolar a pendência.

O uso de palavras é sempre arma cruel.

Não importa a cultura.

As peças, depois de dois meses sequestradas, voltaram para a dona como resultado de um jogo de xadrez jogado em whatsApp.

Como recompensa, prometeu-me um bife.

Passados dez dias e nada do bife, recebo uma foto.

A carne num barro marrom, como que atolada numa poça da chuva dessa manhã.

Acompanhada de legumes verde-escuro – provavelmente pimentão que dá azia.

Já ia eu levantando as mãos para o céu a agradecer mais um almoço de segunda-feira solucionado quando ela soltou:

“- Fiz o bife, mas algumas amigas (as ricas) quiseram comprá-lo.

É wagiu (20 dólares 300 gramas).

Se você encomendar agora, consigo entregar amanhã”.

Recusei elegante alegando ter feito uma feijoada imaginária que seria degustada ao longo dos três próximos dias.

Fazer o quê?

O hexâmetro nunca gozou de grande popularidade em línguas Latinas.

Dois mundos

Estou em Singapura desde 26 de dezembro de 2017.

440 dias.

Muitas viagens, uma volta ao Brasil. Ondas gigantes de sentimentos indo e vindo com a maré. Marolas de águas quentes me fazendo afundar o pé na areia sem medo.

Nesse período, passei um dia em Amsterdã, alguns em Ho Chi Minh (eterna Saigon), visitei a parte pútrida do delta do Mekong no Vietnã; visitei a parte linda, calma, marrom chocolate no Laos. Templos, feiras-livres. Comi sapos, provei gafanhotos, evitei baratas crocantes. Vi churrasco de cachorro. Entrei em casas cujas configurações jamais passariam pela minha cabeça.,Camboja, Tailândia das praias lindas do sul às montanhas mágicas do Norte. Incenso feito com terra, ervas e mãos grandes de anciãs carecas. Açúcar leve de palma. Pimentas. Dezenas de tipos de gengibre. Híbridos de limão com cidra. Leite de côco.

Quando atravesso oriente e ocidente, minha parada é sempre Istambul. Como manteiga caseira. Pretzel. Pão sem fermento. Dou um braço para não pisar nos Emirados Árabes, um enorme shopping cafona cravado no meio do deserto. Uma ode ao espírito vazio.

Agora, recém chegada de volta a Singapura, com o corpo cheio de sal e a cabeça inundada de tons de azul de Krabi, na Tailândia, procuro pelo meu porteiro.

Meu prédio – creia – não é um condomínio típico de Singapura. Com “apenas” 4 blocos, 2 apartamentos por andar, 42 andares cada, é considerado pequeno. Tem piscina olímpica. E uma meia quadra de de futebol feita de cimento e  habitada por pernilongos, esquilos, lagartixas, passarinhos. Tem jardim com flores. Tem um galo safado que insiste em voar pelo alto do muro. Tem gatos malandros,. Tem tucanos locais com dois bicos. Tem vida.

Os funcionários, finíssimos, sempre dão bom tarde, boa noite, tenha um lindo dia.

Mohammed foi o primeiro a puxar papo. Alto, moreno cor de chocolate meio amargo com um pouquinho de leite, um bigode indiano, alto. Figuraça. Cuida da porta principal – dos carros que entram e das pessoas que chegam à pé.

Adora mexer com as crianças. Leva cones – daqueles, feitos de jornal, ou de cartolina colorida que costumavam carregar amendoim torradinho nos nossos sinais de trânsito brasileiros. Nos cones do Mohammed, ração para as carpas. É que em frente da guarita dele, na entrada caprichada do prédio, há um lindo lago, com ponte, bambus, taboas, e dezenas de carpas. Minhas prediletas são as amarelas cor de gema de ovo. Preguiçosas e gordas, elas se enfileiram na beira do lago para pedir comida para quem quer que passe. As tartarugas e peixões ficam no laguinho do outro lado, vez ou outra os quelônio tomam sol fazendo malabarismo, uma em cima do outro.

Mohammed trocou fotos comigo para compararmos nossa decoração de Natal. Um dia me convidou para jantar. Eu aceitei. Ficamos de marcar. Ele impressionado que eu aceitei, eu abismada que ele convidou. Cheguei a falar disso num dos meus primeiros vídeos: o porteiro que ganha como gente, pode também se sentir cidadão e chamar a pessoa para quem ele presta serviço para dividir um prato de comida.

No meu predio em São Paulo, tínhamos três porteiros: José, Zezinho e Ednilton. O último, chegado numa cachaça, foi demitido depois que deixei o Brasil. Uma pena. Merecia mais atenção médica do que um pé na bunda. Zezinho, o de cabeça-dura e dedo verde, plantou feijões em todo o gramado feio, maltratado que por lá havia. No muro da piscina, colocou maracujazeiro. Ao lado da muda de cerejeira de flor, em plena calçada,  cismou de plantar abacaxi. Com Zezinho plantando, tudo dá.

Antes de eu ir-me embora, fizemos uma feijoada de Natal. Cada vizinho levou um prato de comida. Os feijões orgânicos, plantados por Zezinho, serviram quase 20 famílias. O maracujá virou caipirinha. O abacaxi foi colhido por esses dias. Demorou – e virou atração no Sumarezinho.

À festa de Natal da rua Aimberê, nenhum dos porteiros compareceu. Ficaram encabulados, sentindo-se sem lugar. Penso eu – porque ninguém disse nada, só não apareceram. Comemos o feijão que Zezinho comprou, plantou, cultivou, colheu, debulhou. Zezinho levou uma quentinha.

Hoje, voltando para casa, parei na guarita, deixei a fila de 6 carros ficar impaciente com minha estacionada. Onde anda Mohammed? Tirou férias? Casou? Mudou de emprego?

Mohammed andava sumido. Eu, ocupada. O tempo passou, Mohammed não voltou.

Lembrei da cara de espanto dele quando comecei a jogar cocô de cachorro num latão que fica na saída do prédio. Espanto que virou risada. Demorou meses para a chefe dos funcionários me explicar que o latão é uma fornalha ritual, que as pessoas usam para queimar oferendas, velas e outros objetos sagrados em memória de seus antepassados. Bom, andaram queimando cocô de cachorro por um bom tempo…

Mohammed não vai voltar.

Num domingo, 27 de janeiro, levou um tombo em casa. Bateu a cabeça, fraturou o crânio. Seus inquilinos, preocupados com o silêncio dele em dia de folga, chamaram a polícia.

Quando arrombaram a porta, não havia nada mais a fazer. Mohammed já não mora mais aqui.

E a poesia da minha Lua de Mel com Singapura deu hoje seu último suspiro. Casa nova, país estrangeiro, é tudo como namorado recém-chegado. O fogo dura um tempo bom que parece nunca acabar. Mas acaba. Depois é capinar.

Jasmin-Manga ou Frangipanni
Jasmin-Manga ou Frangipanni

 

Agora é que não são Elas

Que coisa mais cafona achar que as mulheres agora se mobilizaram.
As mulheres, queridos, sempre estiveram na luta.
“Agora” é marketing masculino para vender revista e papel higiênico.
E, mesmo mobilizadas, e ralando feito malucas, elas continuam neuróticas com a magreza, inseguras com os peitos, desesperadas para agradarem as amigas e para encontrarem um “homem”.
Sempre achei que o paraíso seria nascer de novo na versão 2.0: sapatão.
Tenho repensado: sapatão, não.
O paraíso é nascer do jeitinho que nascemos e surdas.
Surdinhas.
Porque o defeito é ouvir demais a opinião alheia.

Recentemente, não sem dor no coração, fiz uma limpa na minha timeline pessoal.
Tirei gente por quem tinha apreço.
Gente que saiu ferida. E cuspindo marimbondo.

Mas não dá para ter 40 anos e andar na gangue que praticava bullying com 12, né?
Não dá para maltratar todo aquele que não concorda com as suas asneiras…

Ai, 40, venham felizes grudar em mim.
Que delícia ver as veias saltarem na mão.
Ter um bração de Madonna sem bomba – pura natureza.
Perder os peitões – com tristeza – mas olhar os pernões ainda firmes.
Pensar que um botox pode valer a pena antes do fatídico bisturi.
Ralar a semana toda para compensar os biscoitinhos de chocolate do domingo.
Mas não deixar de lado o chopp na casa dos amigos.
A feijuca do sábado.

E saber que 3 kg num fim de semana não vão te deixar mais ou menos feia.
E que, infelizmente, são muita coisa.
E dão trabalho para perder.
Mas você topou o risco.
Agora sua, gata, para tirar os 3 danados de você… rala!

E la nave va.

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Domingo de sol

Confúcio disse que a vida é simples, a gente é que complica.
Camus cravou que não há que se ter vergonha de preferir a felicidade.
Deleuze explicou que escreve-se sempre para dar a vida, para liberar a vida aí onde ela está aprisionada, para traçar linhas de fuga.

Linha de fuga.
Eu sei o que eu quero.
O mais difícil.
O complicado.
A minha criação.

Ao mesmo tempo, o que me faz rir.
O que me leva para o infinito.
O que me revela porque me dá medo.

Mas, sobretudo, o que eu quero é me encostar em você e te curar.
Como pode, num mundo deste tamanho, não se permitir desalinhar os cabelos?
Não sair do roteiro.
Pensar em dinheiro.
Quando ainda falta um caminho inteiro?

Eu puxei o freio de mão com o carro andando.
Resolvi suar a camisa.
Parar com o álcool por uns tempos.
Ficar em casa.
Escrever.

E dizer não para gentes, empresas, coisas.
Este negócio de dizer não é tão novo.
Eu me movo, comovo, eu estremeço.

O que eu quero?
Pode ser o que você quer.
Pode ser uma coisa qualquer.
Pode ser apenas um música.
Um abraço.
Um olá.

Eu quero isto e o intenso.
Denso.
Penso.
Penso demais.
Falo mais do que isto.

Eu quero a descoberta honesta.
A vida, enfim.

Ouverture d’une âme meurtrie

Je pense toujours que le verbe aimer en français est plus dense.
Je pense trop.
Viens avec moi à jouer dans mon abîme.
Profonde, sans fin, dangereux.
Venez rouler dans l’herbe.
Venez lâcher son âme. Votre pulsation cardiaque.
Permettez-moi de vous emmener.
Vous me faites glisser fermement.
Vous me attirent.
Et je suis impuissant.

Où avez-vous été tout ce temps?
Je ne sais toujours pas où je suis.

———–

Cheiro.
Olho.
Tudo dando certo e errado.
Fico me segurando.
E provoco sempre que posso.
Geladinho na barriga.
Nenhuma, nenhuma briga.
(Ainda?)
Tudo para dar errado.
Idade, filho, medo.
Posse.
Posso?
Cansaço.
História.
Memória.
Dúvida.
Certeza.
Fome.
Sede.
Telefone.
Ai, tecnologia, que saco.
Se fosse anos atrás iria ser mais ao vivo e menos na tela de cristal.
Seu número?
Tem certeza…
Eu sei que vai ser dureza.
Moleza.
Pela primeira vez na história, domada.
Saudade.

É muita coisa boa ao mesmo tempo.
Fico guardando os minutos na bolsa para durar mais.

Je ne sais toujours
Je ne sais toujours

There she goes again

Quando eu cheguei, estava escrito que eu não iria me conformar.
Eu andava por aí com um caminhãozinho que tem nariz de palhaço.
No acampamento da escola, fui eleita Miss sei lá o quê.
Desfilei de fio dental e com flores de bougainville no cabelo.
No meio da “passarela”, saí correndo e me atirei de faixa e tudo na piscina.
A turma toda me acompanhou e ferramos com o evento.
Miss Take – here I am.

Larguei a natação e do alto de 1,62m (ou 1,64m dependendo da corcunda), resolvi jogar vôlei e basquete.
Adivinha quem fazia mais pontos no time?
Pulei a janela da escola em Curitiba. A mesma escola onde estudou o Leminski.
O diretor foi convencido a não contar para a minha mãe que eu havia me abrigado no internato masculino.
Haja lábia e cabeça aberta do Irmão Lino.

E veio o vestibular em Belo Horizonte.
Comunicação, “claro”.
Passei na melhor faculdade.
Tudo escrito.
E resolvi só usar roupa preta.
Comprei uma bateria com a grana da bolsa do CNPq.
Fui gentilmente convidada a não completar o período da bolsa.
Imagina que eu levava a minha baqueta para a biblioteca e tirava som de tudo – das mesas, livros, estantes, gaveteiros, ficheiros.
Tudo menos ralar para receber a grana da bolsa.
Eu fui representante da turma, presidente do CEC (D.A. para os íntimos).
E comprei uma briga do caramba: cortei a palhaçada de comprar maconha com o dinheiro público dado para a manutenção de nossa sala.
Não fui popular.
Foda-se.

Escrevi o discurso de formatura (que foi votado democraticamente – pois eu não seria a pessoa escolhida se fosse pelo rostinho bonito – e eu li vestida de Emília do Sítio do Pica-Pau).
Completamente fora de esquadro, iconoclasta, engraçada, mandona, mal-criada, amiga, perdida, avant garde.
Eu simplesmente não me encaixava – encaixo.
Então eu não grilo com a falta de peças, com o encaixe de cubo mágico – você precisa tentar mais de uma vez para acertar a seqüência.
Comigo, pelo menos.

Aí veio o mundo.
Escrevi na Veja.
Trabalhei na Globo.
Pesquisei livro do Jabor.
Conheci muita gente “famosa”.
E a música foi ficando para trás.
Larguei minha câmera fotográfica.
Dei o pé no fotógrafo, no designer.
O cabelo ruivo voltou ao natural.
Troquei as calças Vision por tailleurs.
Cuba por Paris.
Buenos Aires por Nova York.
Comprei casa, carro, fiz filho, descolei cachorro.
E virei gente grande.
Fiquei modesta, adorei um cartão de visitas, aprendi a me enfeiar para ser mais respeitada.
“She’s down on her knees, my friend”

Aí fiz 40.
E dizem que vem uma crise junto com esta idade.
Crise boa do caramba.
O passado veio voltando e cobrando a conta.
O presente foi se transformando.
Comecei a me redescobrir.
Rueira.
Sem vergonha.
Magra? Forte feito o Hulk.
Bonita sem pudor nenhum – não, não sou Giselão, mas sei te enfeitiçar feito nenhuma outra.
Yogini.
Destemida.
Descobri que creio em tudo, não sou atéia.
Descobri a fé.
Descobri que amo ajudar.
Não é dinheiro que me move.
Foda-se.

Descobri que sou um traveco mesmo.
Nasci torta, um hominho de saias.
E uma menininha escondida – às vezes.
Conheci uma penca de gente linda.
Falei tudo o que que me veio à cabeça.
E não parei mais.

Falo, abraço, beijo, ajudo, ajudo, ajudo.
Não durmo.
Não ligo.
Eu escrevo.
E eu descobri que ser feliz é isto.
Vim ao mundo para tomar todas as porradas e transformar.

Sou feliz de fato.

She’s gonna bawl and shout
She’s gonna work it
She’s gonna work it out, bye bye

Velvet Underground

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