Estrangeira

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A alegria da internet no Studio e de fazer revista durou pouco… Risos. 
Coisas diferentes.

Minha vontade de sair por aí.
Há tempos que eu não sentia isso. Quantos fins de semana em casa. Noites lendo.
Aqui eu não consigo ficar quieta.

Claro que não tenho o conforto da minha casa, nem as distrações eletrônicas, os meus livros, a companhia, a bicharada.
Mas a rua me chama.
E ontem quase que a rua fica comigo.
Peguei o último metrô!

Conto tudo.
De manhã, casa.
Francês, l’imparfait.
Gente para que ais, ais, ait, ion, iez, aient? Chato de falar, quase não utilizado – e eu tendo que inventar um texto usando isso…
Almoço, pulei.
Botei minha roupinha chique, o sapatão na bolsa, a sapatilha de ballet no pé e fui passear.

O escolhido do dia: cemitério Père Lachaise.
De cara, Balzac. Um busto imponente.
Proust. Granito negro, um nome  e só.
Oscar Wilde, que coisa.
Uma tumba art deco, lindíssima. E totalmente beijada de batom.
O falo, conta-se, foi arrancado por uma louca indignada com o tamanho.

batom

Não acredito em vida após a morte. Não acredito em incomodar os restos mortais de alguém.
Portanto tudo ali era para os vivos que expressaram seus sentimentos das maneiras mais loucas.
Gertrud Stein era pedra e areia.
Piaf e Henri Salvador são vizinhos, quem diria.
A pequena Piaf tinha rosas vermelhas; Salvador, um cesco com uma banda de negrinhos – completa.
Jim Morrison – que bateu Chopin e tantos outros restos de pó ilustres – foi cercado.
O busto, roubado. Ficaram duas capas de disco, um ou outro bilhete e só.
Bourdieu. Comte. La Fontaine.
Abelardo e Heloísa, dos primeiros a chegar ao cemitério, na Idade Média (Père Lachaise recebeu os restos quando foi fundado), repousam juntos enfim.

Depois dessa, só sacudindo o esqueleto com carninhas.
Passei na Sephora e dei um tapa no make. Coisas de menina.
Le Fumoir – encontrei meu mais novo amigo, Paulo Mariotti, correspondente da Vogue em Paris.
3,4 taças de um excelente branco e veio Rodrigo.

Heloísa e Abelardo

Comemoramos o último dia de trabalho dele, que vai para Barcelona em agosto. Deixa Paris.

Meu risoto com verbena estava uma coisa! Mas eu precisaria de dois pratinhos para matar minha fome dos vivos.
De lá, passamos no Marais.
Mais drinks, comi uns queijinhos e pimba!
Amigo belga chamando para a festa num inferninho.
Fomos!
Uma tacinha de champagne e eu e uma ratazana maior que meu gato corremos em direção ao metrô.
Duas da manhã, virei abóbora!

PS: Ontem provei o chá Troyka (preto com laranja, “bergamote” e “mandarine” – eu pensei que mexerica e bergamota fossem a mesma coisa e, pelo visto, não. O Houaiss é um tanto ambíguo. Usa uma como sinônimo da outra, mas explica que a bergamota é uma ” variedade de pêra sumarenta”). Agora, estou prestes a descobrir o St.Pétersbourg, como “agrumes” (cítricos), frutas vermelhas e caramelo. Pelo cheiro… promete.

Bandinha

3 respostas para “Estrangeira”

  1. Soneto do Epitáfio, Bocage
    Lá quando em mim perder a humanidade
    Mais um daqueles, que não fazem falta,
    Verbi-gratia — o teólogo,o peralta,
    Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

    Não quero funeral comunidade,
    Que engrole “sub-venites” em voz alta;
    Pingados gatarrões, gente de malta,
    Eu também vos dispenso a caridade:

    Mas quando ferrugenta enxada idosa
    Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
    Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

    “Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
    Passou vida folgada, e milagrosa;
    Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro”.

  2. Ana, nosso passeio noturno cura ateh dor de dente! Continue esse samba de brasileira excentrica c/ havaianas, repettos e Balenciagas nos pes, q continuamos aqui – avidos pelos proximos capitulos… oulala!

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