Olho vivo, que cavalo não desce escada

Os olhos verdes jade de Lilibeth tinham um brilho tão impressionante que as pessoas, não raras vezes, confundiam-se acreditando ser mais azuis do que os violetas de Elizabeth Taylor. O tom de pele moreno azeitona era um privilégio pois realçava os cabelos louros ondulados naturalmente. Essa mistura vibrante era orgulho do pai que dizia ser ela a representante oficial da paleta de cores da bandeira nacional.
Criada a pão de ló e quase sem limites, não havia nesta vida algo que Lilibeth pedisse fazendo beicinho que não lhe fosse entregue em bandeja de prata em menos de 24 horas. Os dois únicos constituintes da família – pai viúvo e tio solteirão – dividiam a casa e revezavam-se na tarefa de satisfazem todos os desejos da moça. A mãe, uma criatura de pele alva e temperamento manso, morreu no parto, pouco antes de completar 22 anos. De lembrança deixou um terço, usado pela menina nas missas de domingo, e uma foto em que aparece com um sorriso torto e os olhos perdidos no espaço.
A vida, conforme Lilibeth conhecia desde que abriu pela primeira vez os olhinhos faiscantes, seguia o script que ela mesma escreveu. Com roupas da moda, banhos de mar, footing aos domingos, coleção de bonecas de porcelana, sorvete antes de dormir e um eventual coquetel colorido para celebrar pequenas vitórias: o broche de rubi que ela cismou de comprar, a partida de duplas vencida no Tijuca Tênis Clube, os sapatos novos com laços de cetim ou uma parada estratégica para ver e ser vista no “Bife de Ouro” do Copa.
As empregadas do sobrado espanhol no Cosme Velho viviam exasperadas pelas duras demandas da pequena tirana e geralmente não duravam mais de três anos no emprego. A ausência de mulheres no círculo íntimo – uma avó, uma madrinha – a tornava rainha de um mundo em que os homens só diziam sim e as mulheres limpavam, engomavam, penteavam, serviam.

A única amiga

A melhor (ou única) amiga de Lilibeth estava convenientemente a um oceano de distância. Nadine era aluna de Albert Besson, na École Spéciale d’Architecture, em Paris. Ela conhecera a brasileira num cruzeiro de férias na Grécia. Uma disputa acirrada pelo último exemplar de uma bijuteria na lojinha do navio – vencida por Nadine que cedeu o butim à Lilibeth – acabou as aproximando. O pai, que vendera um terreno na Urca para pagar a viagem, viu com bons olhos o fato da filha ter feito amizade com outra moça – ainda que mais velha – e sentiu-se aliviado por, pelo menos durante a viagem, não ter mais que que acompanhar Lilibeth nas visitas às maisons de couture.
O que o destino une é tarefa do diabo separar. E Lilibeth e Nadine viraram unha e carne. Durante o ano, era frequente a troca de cartas. E as férias eram na Côte d’Azur. De junho a agosto, as duas faziam absolutamente tudo juntas. O pai ou o tio acompanhavam as jovens e davam muita liberdade para que elas aproveitassem a praia, sessões de cinema, passeios sem fim. As duas foram sozinhas à estreia de Bardot em “Et Dieu… cré ala femme”. Ao sair do teatro, passaram horas no lobby do hotel em que se hospedavam bebericando vinho com gelo e falando sem parar. O futuro a elas pertencia…
As cartas, no início curtas e superficiais, viraram envelopes gordos, carregados de páginas manuscritas, fotografias, pedaços de tecido, recortes de jornal, e outros pequenos tesouros que as uniam em gostos e ideias. Era através dessa troca de textos que dividiam dúvidas, aventuras e inconfidências. Ambas tinham um plano um tanto quanto ousado: a primeira que tivesse oportunidade, casaria-se com algum nobre ou empresário já bem velho, para logo ficar viúva e ganhar a enorme fortuna e, com ela, a emancipação. Quem ficasse rica primeiro bancaria a outra. Queriam, em plena virada das décadas de 50 e 60 serem livres (de homens e de convenções sociais) e muito ricas, bien sûr.

Educação

Aos 15 anos, cansada de álgebra e da castrante disciplina religiosa, Lilibeth bateu o pé. Foram semanas com dores de cabeça inventadas, indisposições de última hora, greve de fome, até que o pai e o tio, assustados com a mudança de humor da menina, cederam: cancelaram a matrícula no Colégio Sion. Dali em diante, ela passaria temporadas mais longas na Europa, dividindo um pequeno estúdio com Nadine, que seria paga para levá-la a museus, acompanha-la em cursos de etiqueta, de filosofia. Na cabeça dos homens da casa, esta era uma fase – logo ela se cansaria e voltaria ao Brasil.
Lilibeth, que já falava francês sem sotaque, logo aprendeu italiano, inglês, e ainda arriscava frases em russo e alemão. O professor de russo foi um marinheiro muito branco com olhos profundos que conheceu num footing pelo Canal de Saint Martin e, coitado, depois de um mês de corte, atirou-se ao mar ao ser recusado como namorado.
“É importante que a menina fale corretamente, frequente salões, vista-se bem para que encontre pretendentes estrangeiros, homens seguramente muito mais bem educados, estáveis e gentis dos que ela encontraria na sociedade fluminese”, atestava a amiga em carta ao pai e ao tio. A correspondência entre os três era constante e Nadine os deixava muito satisfeitos ao mostrar a rápida evolução da moça.

Posses

Dinheiro, é bom deixar claro, não faltava, mas também não sobrava. Para manter a moça provida de luxos e badulaques, o tio fazia hora-extra na repartição, o pai abria o consultório de domingo a domingo, e ambos desfaziam-se de algumas posses da família. Lilibeth, criada numa redoma, cercada de pompons cor de rosa, cheirando a talco, e fazendo tic-toc no piso com as sapatilhas de bico fino, cresceu sem a menor noção de vida prática.
Os homens da família se encarregavam de mandar uma boa mesada para que as roupas de Lilibeth surgissem engomadas nos armários. Dormia tarde, acordava depois do almoço. A comida, servida em pequenas porções, brotava milagrosamente da cozinha do restaurante situado no térreo do edifício em que vivia com Nadine. Aliás, não havia cozinha em seu estúdio – cômodo que ela fazia questão de evitar porque lhe parecia muito quente, úmido, além de ter odores estranhos.
Os melhores aromas, para ela, surgiam nas diversas soirées para as quais era convidada. Nadine, com cara alongada, olhos de gato, desprovida de curvas, tinha um talento fora do comum para fazer contatos. Em sua lista de telefones, constavam figuras da realeza, estrelas de cinema, playboys internacionais e até pintores surrealistas.
Beneficiada pelos convites garimpados pela amiga, antes de completar 18 anos, Lilibeth já era uma locomotiva conhecida nas festas faraônicas de Antenor Patiño. Logo virou figurinha carimbada na Revista Cruzeiro e até chegou a dar dicas do que fazer em Paris. O auge foi o furor causado no casamento da Farah Diba com o Xá da Pérsia. Vestida de dourado dos pés a cabeça por Guilherme Guimarães, ela surgiu em meio a uma nuvem de fumaça do mentolado Salem que quase lhe valeu o título de baronesa de Rothschild, pois provocou uma paixonite no barão Edmond que, muito diferente do marinheiro russo, foi curar a rejeição casando-se às pressas com uma tchecoslovaca de nome impronunciável.

Independência ou morte

O barão não foi a única vítima: Lilibeth era exigente e dizia não com rapidez e muita facilidade. Ela gostava do jogo de sedução, mas, depois de poucas semanas, o encanto passava e já saía a procura de novas distrações. Ela brincava que seus sapatos duravam mais do que os amores.
No começo, Nadine achava graça , afinal, as opções eram vastas e a menina era nova. Mas, com o passar do tempo, a francesa começou a entender que a amiga não daria cabo do plano que as duas haviam traçado. Nadine, que sempre atuou nos bastidores contando com o sucesso retumbante de Lilibeth, passou a sentir que a idade logo chegaria e que, se continuassem nessa toada, ela – certamente – ficaria solteira e muito provavelmente sem o pagamento que era enviado mensalmente do Brasil. Seria a ruína.
A última gota foi quando a brasileira se recusou a visitar a casa de praia de um diplomata de mais de cinquenta anos, exímio jogador de polo e piloto de automóveis da República Dominicana. Perfil perfeito para os planos da dupla. Aquela incongruência ligou um alerta definitivo em Nadine. A francesa, mais experiente e pragmática, passou a usar a agenda de telefones estrelada para fazer discretas incursões independentes.

A carta

Natal era sempre uma alegria no Brasil. Janeiro quente, fevereiro, carnaval. Lilibeth estava impossível: fora coroada madrinha do Baile no Municipal. Preocupada em encomendar as melhores plumas de faisão na casa Turuna e atarefadíssima recompondo o bronze tropical, além de participar de inúmeros saraus e convescotes, ela recebeu a carta de Nadine e deixou na escrivaninha para ler mais tarde.
Em fins de maio, Paris chamava. Lilibeth, depois de uma temporada de brilho e sucesso no Brasil, agora voltava a sentir falta da amiga parisiense. Em junho, o calor europeu deixaria a capital francesa inabitável e ela queria arrastar Nadine para um roteiro pela Costa Amalfitana.
Enquanto Lilibeth se despedia da família e posava lânguida para uma reportagem especial da Revista Manchete, as empregadas, esbaforidas, finalizavam a arrumação das malas. A carta, esquecida na escrivaninha há meses, foi colocada na maleta de mão, junto com alguns folhetins que divertiriam madame no longo trajeto de volta a França.
No Aeroporto, Lilibeth beijou o pai e o tio, abraçou os dois longamente. No embarque, recebeu cartões postais com fotos do avião e das refeições que seriam servidas. Antes de tomar assento, ajeitou a caneta e retirou as revistas e livros que estavam na maleta de mão. E descobriu a carta de Nadine. “Ela deve estar zangada comigo”, pensou. Sem muita cerimônia, abriu o envelope e começou a ler as três folhas de papel de seda.
Mal terminou a leitura, começou a berrar.
“- Você podia ter telefonado, deveria ter telefonado!”
As comissárias pediam calma. Tentaram água com açúcar.
Os passageiros ficaram assustados.
Um médico apareceu.
“- Traidora, logo você!”
Os gritos altos, histéricos, uma agitação nervosa.
Saiu dopada de ambulância. Na mesa do avião, ficaram para trás folhetins, recortes de jornal com as fotos de Lilibeth no carnaval e a carta de Nadine em pedaços.

O barão

Em 1958, ele se casou com uma senhora de nome improvável, mas, dois anos depois, a amizade com Nadine, criada por conta da paixão dele por Lilibeth, virou admiração mútua, depois, dizem, amor. Por quase um ano eles se encontraram às escondidas – amigos de noitada, família, Lilibeth, ninguém fazia idéia. Em dezembro, Nadine descobriu que estava grávida e Edmond pediu a anulação do casamento com a inominável. Casaram-se antes do nascimento do único filho, Benjamin.
Quatro mil convidados.
Foram servidos vinho tinto francês, 60 quilos de camarão, 20 quilos de lagosta, 10 quilos de foie gras, 40 patos, variedade de frutas e saladas.
Houve queima de fogos de artificio e uma pequena apresentação de passistas de escola de samba.
Nadine vestiu dourado.

Nos primeiros meses depois do surto de Lilibeth, Nadine era informada semanalmente sobre o estado de saúde da amiga. Com o tempo, as ligações foram ficando esparsas, foram substituídas por cartas. Ela enviou ao Brasil as roupas e pertences de Lilibeth. As jóias foram vendidas para ajudar no pagamento da clínica.
Nadine se converteu ao judaísmo e se lançou com entusiasmo em seu novo papel de anfitriã, criando uma vida social altamente sofisticada, que incluía festas incríveis em Pregny. Ela também escreveu um livro best-seller sobre como ser uma esposa perfeita, uma obra profundamente antifeminista que tacitamente aceitava que os maridos eram infiéis e não levavam muito em conta os desejos de suas esposas

O gato

Quando Lilibeth deixou a clínica e começou a receber cuidados médicos em casa, o nome de Nadine passou a ser proibido. Tudo que remetia a Paris – e não era pouca coisa – foi retirado da casa.
Meses se passaram e lentamente ela foi se restabelecendo. Falava pouco, recusava-se a aceitar visitas, não lia cartas, não atendia o telefone.
Passava o dia na janela, de camisola, fumando,
Para tentar animá-la, arrumaram um filhote de gato.
O pobre bichano passou dias trancado no quarto com ela, que não encostou os dedos nele.
Uma manhã, as empregadas ouviram um miado alto, desesperado.
Abriram a porta do quarto e o gato, com o olho em carne viva, zunou escada abaixo sumindo pelo jardim.
Lilibeth, com olhos de louca, limpou o cinzeiro e mandou as empregadas prepararem um banho de banheira.
Escolheu uma calça preta cigarrete, blusa Chanel, salto baixo, passou maquiagem. Disse para servirem café completo.
O tio, que ainda não havia saído para trabalhar, ligou para o pai, abismado.
– Falei, Quinzinho, que o gato iria ajudar? (…) Fugiu, coitadinho, cego de um olho.
Para apreensão de todos, tomou um táxi e só voltou no começo da tarde. Cabelo cortado, sacolas de compras, mudou a marca de cigarro. Pediu para ligarem a vitrola.
Os olhos magnéticos de Lilibeth voltaram a brilhar.

Apesar das boas novas, o pai achou por bem não interromper o tratamento de uma vez. Um colega de repartição do tio sugeriu um psicanalista novo que abrira um consultório moderníssimo no centro, bem perto da Colombo, que Lilibeth voltara a frequentar. Por via das dúvidas, marcaram…

Saiu no jornal

Catatônica, alheia do mundo, mal sabia que saíra do brilho fugaz das colunas sociais e notinhas de moda e caíra definitivamente no jornalismo diário, nas páginas policiais.
“Quem o olho do gato fere, caolha ficará” gritava uma das chamadas de capa de um jornal da periferia.
“Grã-fina tinha vida dupla em Paris”, publicara outro.
“Polícia investiga se madame estava alcoolizada”, um jornal de bairro disparara
“Povo defende doutor que cegou grã-fina cruel” foi nota no Última Hora.

– Pobre dr.Roberto, comentou Santinha na roda das amigas da costura.
– Certamente, ele não aguentou as maldades que saíram da boca daquela depravada.

A Sociedade Protetora dos Animais realizava protestos diários na porta da Clínica em Laranjeiras. Mães de família, crianças carregavam cartazes com fotos dos gatos para adoção.
Bebeto virou assunto por dias na mesa cativa do restaurante Le Bec Fin. Na roda de amigos comandada por Ibrahim Sued, o pior que poderia acontecer era o aparecimento de um “chumbeta” que puxasse conversa para tentar plantar uma nota na coluna. E chumbetas não faltaram para fazer inconfidências sobre a desregrada vida de Lilibeth em Paris em oposição à correção dos caminhos do jovem Dr.Roberto.

– Puta!, um homem grande, de peito peludo, berrou na porta da clínica, soltou uma cusparada no chão, e foi embora.

Bebeto – Dr.Roberto para o povão –, mais pela repercussão e menos pela letra da lei, foi julgado e absolvido. Legítima defesa da honra.

Pai e tio não pouparam recursos. Foi necessário, inclusive, vender o sobrado do Cosme Velho. Mas, para protesto geral, ela também foi absolvida. Amnésia temporada provocada por doença dos nervos.

A casa de fundos no Méier tinha os paninhos bordados de organdi sempre engomados. Uma dona de casa de primeira. Nos últimos 20 anos, fizera a escolha missionária. Comandou grupos de oração na Igrejada Ressurreição e também na Igreja Nossa Senhora de Copacabana – para onde ia de lotação, jogando os cabelos sobre a cicatriz que substituíra o olho extraído. Passou a visitar os doentes, os pobres, rezando por todos e fazendo a “imposição das mãos”.
Cuidou do pai e do tio até o fim.
Morreu solteira.
Uma santa.

***

(inspirado no conto “O Gato Cego” de Nelson Rodrigues)

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