Numa relax

Mago Tim, que eu tive o privilégio de ver ao vivo, com suas pérolas de sabedoria torta.
Dinheiro é a causa, mas que não me falte até que ele seja tirado de circulação – bien sur.

Abriram-se as portas da esperança, e ando dando umas saracoteadas, um café, um restaurante – máscara, álcool-gel e outros acessórios incluídos.
Não sei se é vontade de ver gente (nope) ou necessidade de me distanciar socialmente da minha cozinha (please).
Em terra de rico e com democracia de mentirinha, um bando de estrangeiro está picando a mula.
O que tem de coisa boa sendo vendida a preço de banana… Ryca que sou, vejo tudo, acho uma beleza e não compro nada – tenho quase tudo o que preciso nesta vida.
O que tem de gente cansada de ser teleguiada por um governo que nos têm em rédeas curtas…
Aqui, o sistema é de delação gratuita: você fotografa, denuncia e o meliante (tomando um chopinho na rua, fazendo ginástica em grupo com mais de cinco pessoas) vai para o tribunal.

Importante notar que o vírus está controlado. 26 mortos.

Eu, depois de me mandar do Brasil, tenho me questionado muito se democracia é uma forma realista de governo.
Porque pobre não quer ou pode pensar em liberdade, mas no básico: comida, moradia, saúde.
Rico é que fica com digressões filosóficas sobre ir e vir.
Eu, sinceramente, era livre e massacrada.
Trabalhando por pouco, pagando sempre muito, equilibrando os pratos.
Hoje estou sequestrada com crise de Estocolmo (quem sair, não volta) e engolindo minhas observações políticas em troca de uma vida mais tranquila no quesito ir e vir dentro do cercadinho.
Podendo, a gente pula umas cercas só para exercitar os músculos.
(Ano de eleição por aqui e espalharam uns banners bem mequetrefes de candidatos – eu adoraria desenhar dente preto, bigode e chifrinho nas fotos).
Detalhe: candidatos anunciados dia 01/07 e eleição dia 10.
Se fosse no Brasil, a gente ia chamar esse processo de palhaçada.

Cada palhaço no seu circo e qual é a música, Maestro Zezinho!?

O Império

será sempre da hipocrisia.

Quando Machado pariu Capitu, feministas já raspavam cabeça – tenho certeza. E a Esquerda Caviar nadava em Nutella. Direitistas trocavam as armas assim como o fazem com iPhones. Instagram bombava de senhorinhas exibindo as canelas.

Rappers pretos pobres se casavam com herdeiras brancas.

A turba, revoltada, transferia os investimentos do Itaú para a XP.

Advogados lobistas em Brasilia desfilavam o ante-braço tatuado com símbolos indígenas.

Modernas em apartamento alugado exibindo live da decoração e da vida que não acontece lá fora clamavam por justiça.

Sapatos prateados.

Muita cartela de cor e preto básico.

Consultoria.

Esse Brasil lindo e fagueiro, de um eterno show off cujas realidades são sempre escusas.

Lugar da fala.

“Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

Em priscas eras de followers, quero apenas o vácuo.

Andar com fé…

Quarentena, modo de descompressão e a gente reaprendendo a andar.Os barulhos têm me incomodado. Foram 90 dias de profundos silêncios, disquinhos na vitrola, interação com passarinhos e seus hábitos, entreveros com macacos, enterros de sapos.

E Gil fez anos. Elza, 90. Para o príncipe negro mais branco do Brasil, a panelinha de sempre prestou homenagem-canção exibindo uma coletânea de tipos que mostra nossa sociedade de cumpadrio firme e forte no riscado. Ali não se vê o receptor da música, o público – sempre pagante, mas apenas quem roda a roda do negócio cultural – até atriz bissexta ganhou seu mergulho e um flash. Pergunta respeitosa: não seria um video para circular apenas entre os dele? Publicar, pareceu-me, veio para certificar a máfia a de “quem pode”?

O problema da gente deixar rastros na rede é que temos que prestar continência aos nossos atos passados no futuro. Eu bem sei…

Vendo de longe, no Brasil, quem pode acha-se acima de tudo, mas acaba pegando vírus…  Não que isso vá provocar uma mudança radical entre os sobreviventes. Mas tem uma graça, uma ironia embutida. O mundo enfrentando a batalha do milênio e Queiroz aparece em sítio de advogado ligadíssimo à suspeita família do Chefe de Estado; presidente da Embratur tem seu dia de clipe do Gil, ministro novo com Currículo falsificado velho, artista numa eterna live-minha-vida-não-difere-da-do-Adriano-Imperador, executiva da Avon com menos de 30 mantém a tradição da velhinha-escrava, banqueiro defende que funcionário em home office receba menos, pilota roda na pista e em dinheiro desviado da Saúde, jornalista que usou meio para aclamar extrema direita explica que isso é entretenimento (e perde a boca), juiz dispara nas pesquisas… Nem vou citar nuvem de gafanhotos e meteoro porque não precisa. O Brasil é auto-suficiente em desastre.

Enfim, a gente sai, demora um tempo para se reencontrar, e, de repente, o foco, o ponto de vista vão para outros mundos. E os gostos.

Antes, o Brasil era uma grande dor. Depois, uma conexão, hoje, posso passar dias sem procurar saber.

Tirando a beleza da língua, essa, sim, uma raiz, o resto, desnecessário.

Notícia mesmo foi a morte de Maurice. Muito antes de pandemia, e na França, onde mais, ele virou notícia por ser… ele mesmo. A turma da modernidade, incomodada. A turma da tradição, em guarda. Maurice venceu. Mas, como é costume entre novas celebridades, sucumbiu.

Sua dona fez um magnífico epitáfio: “Não sou um herói. Esta é uma palavra usada em demasia. Eu falei minha verdade. Fiz o que me minha natureza ditava. Muito muda, mas o essencial fica. (…)”

Salve Maurice.

Sem clipe, sem palminha, sem alarde.

Morto por uma gripe.

Dizem que cantou, não ciscou e partiu.

Do original em inglês (e não foi Corinne que escreveu):

I am not a hero. That’s an overused word. I spoke my own truth. I did what came naturally to me. Many things change but the essential things do not.

The sun sets. The sun rises. Shaking my wattles, raising my head, I had to greet the morning. I could never resist, and why should I have? I had to crow. This was my particular joy, my particular thing. Each of us has one. Honor it.

I am sorry to have caused a fuss. I never wanted to annoy anyone. Those neighbors from Limoges, with their busy city lives, I know they wanted their peace. They had been saving for their summer vacation. Perhaps what they missed is that a sound, like my crowing or a ship’s foghorn or a train whistle, may form part of the peace of a place.

A little more patience, a little less agitation, never did any harm. I never went anywhere, and I was happy. There’s more to a coop than meets the eye. There’s more to any place if you look long enough.

I was content to have three hens as companions. They kept me busy. Contentment, for me, was being attuned to the rhythms and cycles of life. The chicken and the egg.

This is a strange season to be ending my days on this small planet. Human beings, so restless, seem fearful. I hear there is a virus. I am not sure exactly what the virus is. I think the virus is many things. It always lurks, and it will pass, and some other scourge will appear. Keep your eye on the sunrise.

My countrymen are angry. What else is new? It’s always too much or too little in France but, my God, what a country of boundless pleasures! Bastille Day is coming along. Off with their heads, out with the old, in with the new! We French are revolution specialists. The world needs a good revolution now and then.

Even if everything changes so that everything can stay the same. Cultivate your garden. That never disappoints.

I will miss Corinne. I will miss strutting about. I will miss puffing out my plumage and making heads turn (yes, I admit it, I noticed that). I will miss emptying my lungs in the dawn, such a perfect feeling. I will miss the little familiar sounds that offer comfort.

I bequeath the 1,000 euros the judge awarded me to the establishment of an online (yes!) audio museum of rural sounds. Lest this hectic world forget.

May peace spread across the earth, but please do not confuse peace with silence.

Maurice the Rooster

Maurice, o galo
Corinne Fesseau com Maurice na ilha de Oléron. Credito: Kasia Strek / The New York Times

Planejamento que nasce torto…

Se você não ouviu, está perdendo: podcast Trabuco. Esse texto é inspirado numa elucubração desses caras.

Em épocas de pandemia,  praia fica lotada  (até na Inglaterra onde se estica a canga sobre o cascalho), e também há passeata de alemães todos brancos pelos irmãos americanos pretos que não conseguem respirar. Tudo regado à  álcool (gel) para dar ares de responsabilidade. Vacina não existe e organização internacional dorme no ponto para só acordar quando o leite derramou.

Seria o fim do planejamento e estaria inaugurada a era do bundalelê sem carnaval?

Eu  venho de Belo Horizonte, uma cidade planejada. Inicialmente, prédios públicos, repartições, negócios seriam abrigados no perímetro da Avenida do Contorno.  As ruas com os nomes dos Estados são cruzadas pelas de nomes indígenas. Tupis, Guajajaras, Amazonas, Guaicurus, Rio de Janeiro, Bahia… Gringo que desce de paraquedas na capital mineira trava a língua.

Saindo do antigo palácio do governo, dando as costas para os edifícios das secretarias – hoje museus -, chega-se à Savassi, parte do bairro (dos) Funcionários, onde um dia houve um brejo (em tempos em que não se pode mexer nos proventos de servidores públicos isso vira até poesia se misturada ao lépido Aedes).  Savassi, curiosamente não é nome local. Os irmãos Achille, Arturo e Angelo Savazzi, imigrantes de Mântua, proprietários da padaria mais famosa dos anos 30 foram os homenageados.

Nos atuais anos 20 do novo milênio, chegar a qualquer padoca é complicado: os ônibus saem lotados das cidades do entorno e despejam trabalhador de baixa renda de dia para recolher à noite. Já peguei muita van pirata – truque esperto para contornar um sistema público de transporte ineficiente. A Serra do Curral – cartão postal – é uma casquinha fina  de montanhas comidas pelas mineradoras. Alguns bairros que deveriam só receber casas para evitar que a paisagem fosse tampada pelos arranha-céus tiveram documentação mudada no apagar das luzes de mandatos de certos prefeitos e, como resultado, sofreram enorme especulação imobiliária. E, ironia, os rycos foram morar fora, em Nova Lima e adjacências. A cidade não é mais Jardim e todo mundo se encontra (eu não entendo muito) para comer pizza em supermercado que fica na beira da favela.

Fato também é que este solo, apesar de toda a dor, tem um poder transcendental.

Já citei por aqui e repito: pesquisas apontam que a força dos minérios adentra as entranhas e quem deixa Belo Horizonte sofre profundas alterações químicas e de metabolismo. Abstinência.

Quem fica, bebe sem cerimônia. E tem o estranho hábito de se alimentar da vida alheia.  Mineiro, 95% das vezes sabe tudo dos outros e torce para dar errado.  Mas a torcida para a cidade, naquela época era real, e a nova capital foi inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas na periferia da cidade, juntamente com os antigos moradores do Curral del Rei – que foram realojados na lonjura da Cidade ‘Nova’.

Bem… se lá o planejamento deu em novos brejos, aqui, a história foi outra: porto, terra de ninguém, habitada por estivadores, putas, fantasmas de ópio, Chineses em busca de riqueza, javaneses, colonizadores ingleses, malaios… Por não ser de ninguém mesmo, por não vir com um ranço histórico, e por ter sido rejeitada, foi planejada sem aventura Niemeyristica, com disciplina estilo rédea (e orçamento) curta e, ao que tudo indica, deu certo.

Isso se você considerar “certo” ter muito dinheiro, morar cercado de jardins, enfrentar baixos índices de violência, contar com um porto moderníssimo, um aeroporto Disneylandia, e, também, topar achar normal dar porrada em doméstica, meter reguada em perna de estudante.

A diferença em números grita: por aqui, com cerca de 6 milhões de habitantes, 6,298 casos ativos – mais de 36 mil tratados e liberados. 188 hospitalizados, 1 em estado grave. 26 mortos. Em Belo Horizonte, com 2,5 milhões de habitantes,, segundo a SES, 4.668 casos ativos,  104 mortos.

Se Drummond vivo estivesse, certamente, teria material para uma nova Quadrilha.

PS: O Marku Ribas – tocando bateria no clip do Mick Jagger acima – ilustra bem esse ‘meu’ mundo. Ele simplesmente tocou com Bob Marley, James Brown e Clara Nunes.  Se tivesse seguido a maré, não seria explosão. Mas explosão no Brasil é só uma manchete e amanhã é outro dia.

 

 

 

Veneno eu bebo quente

McGrath
Pat para Dior (foto: Roxanne Lowit)
A voz sussurrada e a melodia precisa do trompete de Chet Baker – o que seriam delas não fosse o divino ser desdentado?
Heroína por heroína, Miles, Coltrane e metade turma da cadeira-cativa do Flamengo do jazz se lambuzou de ópio.
E tocou melhor que ele.
Mas sem dente e bonito de doer, só Chet.

Num mundo em que abundam termos como gordofobia, lugar da fala, feminazismos…
Ah, é preciso tanto músculo para continuar remando contra essa maré.
O que não dá é usar neologismo para esconder o que desperta o desejo: a beleza.
Buço, cueca por cima da calça, andar fantasiado por alguma ruela européia, postar seu último bolo no instagram – pode até ser cult, bonito não é.
Estética vem do grego e significa compreensão pelos sentidos.
Vai além do seu protesto cafona.

Patti, a Smith, tem uma biografia sensacional.
Eu, particularmente, devorei as páginas sobre o Sam Shepard.
E fiquei chapada com a descrição de como um corte de cabelo inspirado no Keith Richards a catapultou para a ‘fama’.

As belas rodam eras, mutantes, hora encaracoladas, hora tábuas.
Nem menina nem menino.
Seguem sempre presentes e geniais.
Para além da figura, elas têm um élan.

Não vale o borogodó que veio de graça, e pulou na platéia aos 20 anos, mas o que se fez dele.
Porque ser fugaz é para quase todos.
Ser bonito é para mitos.
Para sabedores de si que cuidaram do rico patrimônio.

No final, em era bichada, tudo sempre se harmoniza numa paleta meiga ou numa vanguarda da Pat McGrath. Uma Divine Rose original.
Aliás, Pat que é preta e gorda, é a maior entendedora de beleza feminina desse século torto e desembestado.
Quem nasceu para Michelangelo, querido, não se preocupa muito com o destino de David.

Tudo isso só para dizer que não existe conceito torto de beleza.
Não existe padrão.
Existe bonito.
Quem não gosta do bonito anda às turras com o espelho.

A dona da padaria não ficou para a historia
Patti Smith e Sam Shepard – circa 1971. (by Judy Linn)

Garrinhas

Ah! Abriram-se as portas, a rua do comércio encheu-se de mascarados.
Hoje, depois de um mais longo e úmido verão, a vida acordou lá fora.
Logo cedo, a turma da dedetização bateu à porta para – achei tão delicado – “colocar para dormir” as formigas.
E tentar dar um jeito na mosquitada que se reproduz nas minhas helicônias.
Verdade seja dita: não fosse o oportunismo da dengue e uma riqueza fugaz, eu conviveria feliz com os insetos.
Mas nem terminaram e eu já estava pronta para desenferrujar.
Foi manutenção preventiva – polimento de garras -, rua, celular, carro, estacionamento.
Pulei o almoço, trabalhei – ao ar livre -, arrematei a sexta com reunião happy-hour para discutir a sorte nesse futuro incerto.

Heliconias
Se não for tropical nem me convida

Em alguns momentos, perdida no caminho.
O cérebro limpa tudo o que é supérfluo.
Em outros, incomodada com os barulhos da coletividade.
As duas australianas, aos berros, saíram com menos unhas numa nuvem de mau querer.
O estacionamento, lotado, nunca antes neste país.
O barzinho, zero copos para lavar

Ah. Eu sei – a vida que eu reneguei é forjada na bigorna.
Nada dessa placidez burguesa.
Eu aqui, enrolando a prosa, para dizer que tudo vai ficar bem.

Ainda não me decidi.
Essa coisa de viver a casa – e fechar a porta para a rua.
Isso é que é.
Já dizia o poeta – perto do osso é mais gostoso.
E ainda assim, doloroso.

Fabrício

Fiat Lux é o desejo, mas, de Pinheirinho para baixo, Olho no Queiroz.

Oremos por Atibaia, ou a grande Tocaia, onde pedalinhos personalizados não são seus nem de ninguém.

Onde cozinha completa sai bancada por empreiteira.

Onde casa de advogado abriga fugitivo.

Bom mesmo são os fósforos Queiroz – para a palha que arde em seu palpite político.

(Nada de novo no front e o barquinho navega no brejo)

Fósforos Queiroz, pelo menos queima oQ filme

A inveja

Ter sido criada no catolicismo é um incentivo.

Cada pecado capital alcançado

É júbilo de quem jamais deveria ter sido.

Por exemplo, a inveja.

Raiva perante o que o outro tem.

Pardon mon français, mas o outro tem mais mesmo.

Minhas invejas são menos materiais.

De um corpo.

De um estilo.

De um livro escrito ou traduzido.

De um gozo.

De viagens.

De comer pouco.

De cabelo liso, fino e pouco.

O que me salva é a rebeldia.

A imaginação.

A selvageria.

E o fracasso.

Elegia ao bife

Parece que aqui, no sudeste excêntrico da Asia, a receita de bife rendang é sacra como a do nosso picadinho.

Rendang é um curry da Malásia. 

Um prato extravagantemente rico, fácil de preparar, mas que leva tempo e muita paciência para cozinhar. 

Na vida, faltou-me.

Ao contrário de muitos, este é um curry seco, a carne não nada em molho, muito menos, berço esplêndido. 

Ruínas fumegantes, // o molho confunde-se com a sorte, salve! De Sumatra// Desmorona bem-vinda a carne. Curry grosso e escuro // aos olhos que turva de pranto picante,// mas formosíssimo exala
vapor // num arroz simples e branco que o envolve 
de indômita virtude// feitos e d’alta resignação. 

(Nolasco revira-se na tumba e eu nem pisco)

Fato é que a vida tem dessas e eu fui me associar a um bando de donas de casa com pouca ou nenhuma ocupação.

Da fauna toda, um pedaço: a indonésia em segundas núpcias com um australiano solteirão.

O primeiro filho foi deixado para o pai. 

Junto com ele, histórias fantásticas de vilas e de dinheiro imaginário.

A vida de hoje é simulacro do que seria uma novela bem ao gosto do povo.

Riqueza temperada com pequenos dramas, senhorio a ser servido de rosé gelado.

Tudo à beira da piscina cujo deck necessita de um reparo.

A nossa personagem dizia-se estilista de noivas.

Contratando costureiras baratas na terra natal, ela produzia, na verdade, um sem número de saias e vestidos mal acabados, arrematados a preços nada camaradas por conhecidas do círculo social da escola dos dois novos filhos.

Não posso negar que alguns me caiam muito bem.

Numa dessas, uma madame polida em Londres e Nova York, mas completamente desacreditada por ser filipina, levou e não pagou.

Ah! Os pontos de virada das novelas populares.

Para ajudar a colega, e sempre me expondo aos riscos da selva do segundo escalão da sociedade, aquele que joga dados, cartas ou tarô para arriscar tudo por um degrau perto do topo, fui desenrolar a pendência.

O uso de palavras é sempre arma cruel.

Não importa a cultura.

As peças, depois de dois meses sequestradas, voltaram para a dona como resultado de um jogo de xadrez jogado em whatsApp.

Como recompensa, prometeu-me um bife.

Passados dez dias e nada do bife, recebo uma foto.

A carne num barro marrom, como que atolada numa poça da chuva dessa manhã.

Acompanhada de legumes verde-escuro – provavelmente pimentão que dá azia.

Já ia eu levantando as mãos para o céu a agradecer mais um almoço de segunda-feira solucionado quando ela soltou:

“- Fiz o bife, mas algumas amigas (as ricas) quiseram comprá-lo.

É wagiu (20 dólares 300 gramas).

Se você encomendar agora, consigo entregar amanhã”.

Recusei elegante alegando ter feito uma feijoada imaginária que seria degustada ao longo dos três próximos dias.

Fazer o quê?

O hexâmetro nunca gozou de grande popularidade em línguas Latinas.

Roteiro

Interior dia.

Chuva de verão.

Cena 1 – Eu corro histérica para recolher as toalhas no varal.

O pezinho de limão fica para trás em festa.

Cena 2 – Na tela, as compras não entregues de ontem.

Os queijos, elemento essencial de um bom amanhecer.

Interior. Camisola. Passa das 10 horas. Sem café.

Navegando pelo Facebook, a amiga faz poesia de perna quebrada com pandemia. Eu devolvo com pão de miga – uma contra-rima fraca com certo afeto para uma que não deu certo.

Noto que aquela artista que nasceu decadente, punk de boutique, com um senhor retrovisor na juventude, não me segue mais.

Engraçadas as redes, nunca nos seguimos, no máximo andamos em paralelo, encostando aqui ou ali quando as retas saíam tortas.

Ela, morando de favor na casa daquela cuja mãe era esquizofrênica. (…)

Sem muitas curvas e a pele branca. 

Um saber muito bem que era preciso aproveitar enquanto (não) houvesse.

Histórias de composição da persona.

A briga com o pianista que acabou na delegacia – hoje já muito amigos de novo porque o mito, como sempre, pode render alguns cobres.

O canto lírico.

O filme.

A fama (vã).

O tempo.

A voz, perdida.

As curvas arrendondadas a modo de denunciar a raiz.

De serva de Baco, de Eros à matrona.

Modinha do Vale do Rio Doce.

Os traços, o buço, o queixo duplo.

O depender de marido.

O útero estéril.

A idade, quando nos atropela, é como vírus de cepa 2019, sai arrastando pela avenida, seja tanto para vidas que importam quanto para as que não. Ela é da maior democracia.

Chamar-se de fada com mais de 50 – a arte também tem prazo de validade.

Com os anos, migalhas de aplauso.

Enfim, termina assim, seco, como pão caseiro feito com levain, este conto do poema “pãodemia”.

Quem quiser um naco, saia da fila.

William Hogarth
Pintura del cicle Marriage à-la-mode, Escena: Shortly after the marriage (William Hogarth)