Portrait

49,888

Bangladesh
Myanmar
Filipinas

(Migrant workers living in dormitories made up the vast majority).

Empilhados em quartos abafados.

E descobertos por um virus.

Enquanto eles perecem, nós, cercados, bebemos e cantamos. E até passamos a semana em hotel para fingir que é verão.

Os donos da terra seguem, ignorando, ignorantes.

Prejudiced, whistleblowers, fearfuel, cruel.
Small.

My third world wealth pays for your retirement.
It moves your economy.

I will keep it close.

Aquelarre or El gran cabrón (Francisco Goya)

Rich people’s problems

Uma semana a mais nessa enorme síndrome de Estocolmo.
A mão invisível não perde oportunidade de cobrar a conta…
Quem sai, não entra.
A moda é passar uns dias num hotel, distante, 7, 8 km da sua própria casa e marcando hora para frequentar piscina.
Crianças, mimadas, deixam um rastro de garrafas de aço inoxidável 18/8 pro-grade – antes eram pedras pintadas.

O calor não ajuda…

Sigamos.

Gaiola

Cronica da pandemia

My business

Check up, exame de sangue. Hospital.
Na porta, fila, formulário, viajou? (com aeroporto lacrado desde março, colega?), febre?, esteve com alguém contaminado…
Tirei uma foto da aglomeração e já estou no terceiro email recebido do Hospital para entender por que fila, por que caneta e papel e prometendo melhorar.
Ultimamente tenho repensado a velha discussão sobre o uso da máscara x democracia.
Em meu ponto de vista absolutamente particular, sacrificar seu direito de ir e vir e o de falar o que vier à telha não dói nem te deixa mais pobre.
Deixa deprê um par de vezes. Afinal, você sabe que fim levou Robin.
Mas ser “livre” para andar de carro blindado, para ter segurança debaixo da guarda-sol na porta do condomínio, livre para ser assaltado 24×7 e para tomar vermífugo e cloroquina… Livre.

Ando querendo é sombra e uma água que passarinho não bebe.
Se tiver que dizer amém, não serei a última…

Mudando de assunto, agora rola uma revoada.
O país é caro e não é para todo mundo.
A economia está devagar e, seja por decisão própria ou um empurrãozinho da empresa, tem gente vendendo tudo e se mandando…

Depois de 45 anos de praia, não chegou minha vez.
Chegou a volta do trabalho, a ralação com desejo de vinho à noite.

E o saber que até 2021 estaremos nesta gaiola de ouro, curtindo um bico bem calado.

Brilha muito

Catálogo e quermesse

Sim, atravessamos oceanos, guerreamos batalhas inglórias, deixamos um rastro de suor e lágrimas para acabar tudo em publicidade de esmalte.

Mas, sim, poderia ter se acabado tudo numa bicada de ema.

Sou grata, gratiluz por todo e qualquer mergulho que me traga um flash.

Amém.

Fim de mundo

 

Rota

Com a pandemia, certos desejos foram despertados.

Em se podendo viajar, para onde você iria?
Quanto tempo ficaria?

Eu sei para onde quero ir assim que abrirem as porteiras do matadouro.

Para o Benesse, em Naoshima – de novo.

Quero rodar a ilha sem rumo.
Usar aquele pijama.
Banheira no meio do nada, frio.
Romper os corredores de concreto como lantejoulas.

Quero ver o sol se pôr vermelho.
Nascer amarelo.

Vento.
Mirar os gatos.
Encontrar onde menos se espera.
Confundir, arquiteturas.

Fazer – de novo – proibidas.
E pegar – outra vez – o trem para Osaka.

Desejar a morte

De tempos em tempos, nossa consciência coletiva imaculada vem gritar loucamente, avisando que não pode.
Eu, do alto de minhas redes sociais abertas, blog sem pernas cruzadas, balança escondida no quartinho, fico pasma.

O texto, baseado inteiramente na teoria/ética do consequencialismo, é curto e direto.
E até meio bobo.
O jornal, apesar de todas as mazelas e fraquezas, fez o que deveria fazer: publicar.
Mas não deve, não pega bem.
O que você deseja para o outro pode vir para você (e o artigo é aberto versando exatamente sobre essa linha torta de pensamento).
No caso, não é um desejo real do autor, mas fica sendo para quem não passou do título – obra de arte do marketing de chamada de impresso.
A MORTE,  amora da minha vida, vai chegar para você.
Você a desejando ou não.
Portanto, o anúncio quase evangélico do pecado, do eterno retorno, da culpa não cola.

(Se você conseguir passar do título).

Para mim, o próprio momento é um clássico do consequencialismo.
De Fernando a molusco, de molusco à dentifrício, de cachorro atrás do menino a milico.
É a tal da linha reta.
Fui fondo, fui fondo, gol!

Para mim, foi a partir da mulher sapiens que alguma coisa não desceu.
E eu fui sentindo uma angústia danada, um sentimento de ser forasteira em terra santa.
A língua ganhou x, o empoderamento praticamente criou um Houaiss do novo mundo, o lugar da fala (que sempre evoca uma carteira de escola e a palmatória)…
Na segunda coroação da mandioca brava, eu celebrei.

À fuga, ao balde chutado, ao mato aberto a golpes de facão, às facas e garfos na bota.
E como tende a acontecer com quem não espera muito da vida, abri minha clareira.  Sim, senhores, quando cheguei, eu era mato.

Mas não politizemos (demais) o tema.
Eu costumo querer a (dos outros) com grande frequência.
Algumas vezes gostaria de eu mesma dar cabo da empreitada.
Pode ser um desejo a um reles desconhecido na fila do caixa.
A um parente que resolve sair sem máscara.
A um ex amigo ou amante.
Se tenho essa facilidade em querer o fim de gente de carne e osso, o que não dizer sobre esse povo feito de plasma e LCD?”
Quando o avião com o candidato, com o ministro do STF, quando o helicóptero com o Ulysses Guimarães, o com a mulher do empresário…
Ah, tanta gente que poderia ter embarcado no lugar deles.
Peixes graúdos, graduados, gente com poder para atravancar a vida de tantos…

Eu não sei direito, mas faz um tempo que a hipocrisia venceu o medo.

Então brindemos ao medo.

mato
retrato

Eleições

Salve a democracia.
Onde homens de bem se apresentam para representar homens de bem.
Altruísmo puro, comunidade acima de todos. Deus descansando.

Em 10 dias, banners foram organizados como que num jardim japonês.
Um com o raio da Zoomp, outro com um solzinho, um martelo, uma nave espacial, coraçãozinho, bambolês da Audi, mãos se cumprimentando.
Logo se vê que aqui não é lugar para designer gráfico.

Vez ou outra o caminhão cheio de cartazes passa com o som ligado e a carroceria vazia.
“-Pamonha, pamonha, cocaaaaaaada” – em 4 línguas.

Em toda a Ilha o PAP(i) já venceu.
Mesmo que pesquisa de intenção de voto seja proibida por lei.
É que o ser humano é acomodado.
É preciso cortá-lo a golpes de machado para que ele saia da frente do celular.
Nem precisa de missão da OEA corrompida para colocar em xeque a urna.
Deixemos de lado as latinidades.

Falando nela, boca de urna?
Esqueça.
Em boca calada não entra mosca.

Para a oposição fazer ventinho, tem que derrubar coronéis sentados em 3 mandatos.
Não que o novo coronelato queira fazer a revolução.
Todos têm casa.
Comida.
Emprego e cheque-auxílio em caso de pandemia.
Carro, não.

Quando o líder fala, a multidão aplaude animada.
Críticas só à meia luz, na encruzilhada.
Dizem que posts de Facebook ventilam denúncias.
Sobre uma idosa que morreu em casa e só os ossos foram descobertos – o tempo, ah, e o calor de 32oC.
Sobre o filho do figurão que usa drogas (pena capital, o cara é faca na bota) e adora menores de idade.
Sobre a antiga disputa em torno da casa do fundador.

Eu, forasteira, sou alvo primário em caso de desastre.
Ajoelho em prece todos os dias pedindo para não me mandarem de volta.
Enquanto morrerem velhinhas e uma casa em ruínas seja alvo de confusão, vou ficando por aqui mesmo.

Para a tal democracia não retornarei jamais.

Eu achei a nave espacial sugestiva

Desaprendendo a jogar

Quando passares pelo portal, tudo o que já viveu será mera ficção.

Demora um tempo para você andar sem ter olhos nas costas.
Para não desconfiar de coisas mínimas.

O velho hábito de sair só com um cartão de crédito e o celular – um documento em cópia xerox.
O pagamento de tudo, até do pão, em prestações.

O contar moedas.
O ajudar empregada – e muitas vezes ser considerada A culpada.

Num ato kamikaze você decreta o basta.
Foge.

Passa a deixar a porta da sala aberta, algumas vezes, a da garagem, a da sala, e as bicicletas ali, sem cadeado.
Vai mergulhar e nem olha para canga, celular, livro.
Mala aberta em quarto de hotel.

Resolve comprar algo e não levou a carteira.
Aplicativo, QR code…
Envelope com dinheiro para emergência.

Havaiana.
Barriga.
Toda aquela tensão, aquele viver, evapora.

Você lê menos.
Perde a vontade de saber das últimas…
Não discute.

Aprende a pedir a pizza no mesmo lugar.
Não reclama que cada disquinho custe quase 70 reais.
No seu dinheiro, agora, é 20.
20 parece justo.

Não existe inflação.
Mas promoção para quem comprar mais unidades.
Indução de fidelidade.

Existe o flanar.

E a pandemia.

Você continua de portas abertas.
Faz pão.
Bebe para matar a ressaca.
Costura máscaras.
Doa.
Volta a escrever – desta vez, joga tudo no vácuo.
Ouve jazz.

E eis que o Brasil aparece com o pacote completo.
Fraude, subterfúgio, tergiversação.
Ameaça vaga.
Cano.
Mandrake.
Prejuízo.
Cumpadrio.
Toma lá, dá cá.

Mais uma contrato de aluguel.

Numa relax

Mago Tim, que eu tive o privilégio de ver ao vivo, com suas pérolas de sabedoria torta.
Dinheiro é a causa, mas que não me falte até que ele seja tirado de circulação – bien sur.

Abriram-se as portas da esperança, e ando dando umas saracoteadas, um café, um restaurante – máscara, álcool-gel e outros acessórios incluídos.
Não sei se é vontade de ver gente (nope) ou necessidade de me distanciar socialmente da minha cozinha (please).
Em terra de rico e com democracia de mentirinha, um bando de estrangeiro está picando a mula.
O que tem de coisa boa sendo vendida a preço de banana… Ryca que sou, vejo tudo, acho uma beleza e não compro nada – tenho quase tudo o que preciso nesta vida.
O que tem de gente cansada de ser teleguiada por um governo que nos têm em rédeas curtas…
Aqui, o sistema é de delação gratuita: você fotografa, denuncia e o meliante (tomando um chopinho na rua, fazendo ginástica em grupo com mais de cinco pessoas) vai para o tribunal.

Importante notar que o vírus está controlado. 26 mortos.

Eu, depois de me mandar do Brasil, tenho me questionado muito se democracia é uma forma realista de governo.
Porque pobre não quer ou pode pensar em liberdade, mas no básico: comida, moradia, saúde.
Rico é que fica com digressões filosóficas sobre ir e vir.
Eu, sinceramente, era livre e massacrada.
Trabalhando por pouco, pagando sempre muito, equilibrando os pratos.
Hoje estou sequestrada com crise de Estocolmo (quem sair, não volta) e engolindo minhas observações políticas em troca de uma vida mais tranquila no quesito ir e vir dentro do cercadinho.
Podendo, a gente pula umas cercas só para exercitar os músculos.
(Ano de eleição por aqui e espalharam uns banners bem mequetrefes de candidatos – eu adoraria desenhar dente preto, bigode e chifrinho nas fotos).
Detalhe: candidatos anunciados dia 01/07 e eleição dia 10.
Se fosse no Brasil, a gente ia chamar esse processo de palhaçada.

Cada palhaço no seu circo e qual é a música, Maestro Zezinho!?

O Império

será sempre da hipocrisia.

Quando Machado pariu Capitu, feministas já raspavam cabeça – tenho certeza. E a Esquerda Caviar nadava em Nutella. Direitistas trocavam as armas assim como o fazem com iPhones. Instagram bombava de senhorinhas exibindo as canelas.

Rappers pretos pobres se casavam com herdeiras brancas.

A turba, revoltada, transferia os investimentos do Itaú para a XP.

Advogados lobistas em Brasilia desfilavam o ante-braço tatuado com símbolos indígenas.

Modernas em apartamento alugado exibindo live da decoração e da vida que não acontece lá fora clamavam por justiça.

Sapatos prateados.

Muita cartela de cor e preto básico.

Consultoria.

Esse Brasil lindo e fagueiro, de um eterno show off cujas realidades são sempre escusas.

Lugar da fala.

“Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

Em priscas eras de followers, quero apenas o vácuo.