Sobre a fé e o amor

Vapor barato - autor: desconhecido

Ontem fui ao show do U2.
Em minha tenra juventude, vesti a carapuça preta de couro cheia de alfinetes de rata de espetáculos. Teatro, rock, bossa nova, performance, dança – com ou sem dinheiro, era a minha praia.

Meu último show “de fato” foi um Free Jazz Festival… Quem nasceu nos anos 80 nem deve saber o que é.
Mas imagine que Chet Baker veio para uma edição e quase deu o bolo no show encenando e cantando um clássico de conteúdo dúbio de Cole Porter.

Depois do meu último e (por que não?) fatídico Free Jazz, onde fiz uma roleta russa de namorados, despedi-me de um saudoso amigo mineiro, eu me aposentei.
Passei a freqüentar lugares menores, cervejas geladas, esperas cujo tempo equivale a um pacote de pipoca , ingressos sempre disponíveis.
Para não dizer que não tive recaídas, seis anos atrás fui a um Personal Fest em Buenos Aires e vi Bebel Gilberto, Jorge Drexler e fugi dos Pet Shop Boys.
Para sobreviver, foram litros de energético com vodka, um amor louco pela vida porteña e uma desistência de uma festa do Goldie (ex caso de Björk)

Esse preâmbulo todo não é para descer a ripa em amantes de shows e grandes eventos, é só para explicar a minha pequena experiência muito particular de ontem.
Topa seguir comigo?

Comprado na terça passada um ingresso de segunda mão e sem ágio pela bagatela de R$216,00, resolvi melhorar minha aposta.
Foram R$250 reais para o motorista levar e buscar. Não, não vamos discutir preços quando o resultado é casa e cama em uma hora.
Cheguei às 19h porque não queria confusão.
Entrei com relativa facilidade – furei a fila com um bom argumento.
O ingresso era de pista, o que significa: não haveria lugar para sentar ou descansar.
Paciência.

Em uma hora, escolhi uma área que julguei calma e com boa visão do palco e comprei minhas fichas de água mineral.
Show sem álcool porque eu não pretendia explorar os banheiros químicos…
Você há de convir comigo que tenho uma certa experiência neste metier.

A banda de abertura começou a apresentação por volta de 20h.
Ato contínuo, as pessoas começaram a sacar celulares e câmeras.
O show acabou, logo veio o do U2 e o que era ato contínuo virou moto-contínuo.

Ohos de plasma

As engenhocas eletrônicas não só fabricavam indícios do crime – sim, “eu fui ao show” – como aproximavam os ídolos de cada um dos fãs. O Adam Clayton que eu via pequenininho, como o gesto que representa o meu salário, preenchia a tela de cristal líquido da minha vizinha da frente.
O aparelhinho dela não só tinha um belo zoom como corrigia problemas de foco e imperfeições de luz.
Nas telas, filtrados e aprisionados, destituídos de espinhas e rugas, isolados da chuva que veio e voltou, os músicos dividiam a performance em pequenos atos (ou seriam curta-metragens?) dirigidos por Marias, Josés e Pafúncios.
O show não acontecia no palco, ele aconteceria mais tarde em conversas de bar, em edições caseiras para o YouTube.
O show seria como um bicho de estimação: seria levado para passear, colocado para dormir e até ganharia roupinhas com cores iguais às do dono.

Não, a média do público pagante não era de garotos – mas de gente que, como eu, tem mais de 30.
Essas pessoas vez ou outra passavam afoitas distribuindo uma cotovelada aqui, outra ali. Derrubavam gotas gordas de cerveja (gelada pelo que pude constatar) e desferiam alguns pisões em unhas encravadas.
As câmeras, celulares – estes eram prioridade.
Não havia abraços de namorados, não havia beijos apaixonados em rápidos momentos mágicos provocados por músicas que vão ao passado e evocam momentos que não voltarão jamais.
O que havia era uma multidão hipnotizada, operadores de câmeras que buscavam disfarçar a câimbra nos braços e que acreditavam estar numa missão para desbravadores.
Registrar o primeiro show da U2 360° Tour no Brasil.

Não sei se, ao fim da história, os milhares de técnicos de som, luz e imagem postaram seus vídeos, fotos e criações.
Sei que pedi a separação de corpos por diferenças irreconciliáveis.

8 respostas para “Sobre a fé e o amor”

  1. Fui e vi com meus próprios olhos: é espantoso! Milhares de pessoas deixam de ver o show para se concentrar na operação de câmeras de celulares. Não é uma foto ou uma filmadinha aqui ou acolá, não. São registros demorados, com o sujeito ali, braços estendidos, procurando focalizar o palco ou algum dos integrantes do grupo. Fiquei me lembrando de um filme que vi há muitos e muitos anos, do Jim Jarmusch, no qual um dos persongens, viajante contumaz, fica fotografando os quartos de hotel onde se hospeda. Perguntado por que fazia isso, disse simplesmente que de tudo o mais das viagens conseguia se lembrar bem, eram imagens quase sempre marcantes para ele. Dos quartos, no entanto, não conseguia se lembrar. Daí a necessidade de registrá-los…
    Ou seja: será que esse pessoal todo é incapaz de reter uma memória afetiva? Aquele show é mais um quarto de hotel????

  2. Pois é – acabou-se a realidade e o romantismo.
    O que vale é a exibição, é a prova do crime.
    É tudo muito estranho… Parece que precisamos dar satisfações com imagens.
    Vai chegar o dia em que o primeiro beijo será filmado e transmitido ao vivo para pais, cachorros, gatos e vizinhos.

  3. como solicitado, a tese!

    acho muito curioso a estranheza que causa associar muitas das palavras que você escreve à imagem de você mesma em momentos cuja dureza é menor do que a dureza geral da maioria dos seus posts. explico. vejo sua postagem de cima, depois a da nhá benta, a da aula de teatro; em comum, uma linguagem às vezes dura, ácida, mordaz (principalmente mordaz). e então, essa mesma linguagem (no mesmo tom) muitas vezes indica conteúdos diametralmente opostos, afetivos, dolorosos. como uma mesma linguagem pode servir a tanta coisa, não é? acho que é em horas assim que percebe-se que palavras na tela não tornam a comunicação tão eficiente quanto a realidade. só quem te conhece deve conseguir não ficar perplexo ao ver as tais palavras mordazes e duras sendo usadas tanto na mordacidade quanto no afeto.

  4. Mas alguém conhece o outro de verdade?
    Mesmo privando da maior intimidade – mãe, companheiro, filho?
    O humor negro é gênero em desuso. Hoje a comédia pastelão alivia as dores e facilita o entendimento.
    O que eu posso fazer se nasci com essa “maldade”?
    Não acho inteligente matar crianças em escolas, então eu escrevo.
    E quem está perto (de verdade) não gosta do que lê.

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