Eleições

Salve a democracia.
Onde homens de bem se apresentam para representar homens de bem.
Altruísmo puro, comunidade acima de todos. Deus descansando.

Em 10 dias, banners foram organizados como que num jardim japonês.
Um com o raio da Zoomp, outro com um solzinho, um martelo, uma nave espacial, coraçãozinho, bambolês da Audi, mãos se cumprimentando.
Logo se vê que aqui não é lugar para designer gráfico.

Vez ou outra o caminhão cheio de cartazes passa com o som ligado e a carroceria vazia.
“-Pamonha, pamonha, cocaaaaaaada” – em 4 línguas.

Em toda a Ilha o PAP(i) já venceu.
Mesmo que pesquisa de intenção de voto seja proibida por lei.
É que o ser humano é acomodado.
É preciso cortá-lo a golpes de machado para que ele saia da frente do celular.
Nem precisa de missão da OEA corrompida para colocar em xeque a urna.
Deixemos de lado as latinidades.

Falando nela, boca de urna?
Esqueça.
Em boca calada não entra mosca.

Para a oposição fazer ventinho, tem que derrubar coronéis sentados em 3 mandatos.
Não que o novo coronelato queira fazer a revolução.
Todos têm casa.
Comida.
Emprego e cheque-auxílio em caso de pandemia.
Carro, não.

Quando o líder fala, a multidão aplaude animada.
Críticas só à meia luz, na encruzilhada.
Dizem que posts de Facebook ventilam denúncias.
Sobre uma idosa que morreu em casa e só os ossos foram descobertos – o tempo, ah, e o calor de 32oC.
Sobre o filho do figurão que usa drogas (pena capital, o cara é faca na bota) e adora menores de idade.
Sobre a antiga disputa em torno da casa do fundador.

Eu, forasteira, sou alvo primário em caso de desastre.
Ajoelho em prece todos os dias pedindo para não me mandarem de volta.
Enquanto morrerem velhinhas e uma casa em ruínas seja alvo de confusão, vou ficando por aqui mesmo.

Para a tal democracia não retornarei jamais.

Eu achei a nave espacial sugestiva

Planejamento que nasce torto…

Se você não ouviu, está perdendo: podcast Trabuco. Esse texto é inspirado numa elucubração desses caras.

Em épocas de pandemia,  praia fica lotada  (até na Inglaterra onde se estica a canga sobre o cascalho), e também há passeata de alemães todos brancos pelos irmãos americanos pretos que não conseguem respirar. Tudo regado à  álcool (gel) para dar ares de responsabilidade. Vacina não existe e organização internacional dorme no ponto para só acordar quando o leite derramou.

Seria o fim do planejamento e estaria inaugurada a era do bundalelê sem carnaval?

Eu  venho de Belo Horizonte, uma cidade planejada. Inicialmente, prédios públicos, repartições, negócios seriam abrigados no perímetro da Avenida do Contorno.  As ruas com os nomes dos Estados são cruzadas pelas de nomes indígenas. Tupis, Guajajaras, Amazonas, Guaicurus, Rio de Janeiro, Bahia… Gringo que desce de paraquedas na capital mineira trava a língua.

Saindo do antigo palácio do governo, dando as costas para os edifícios das secretarias – hoje museus -, chega-se à Savassi, parte do bairro (dos) Funcionários, onde um dia houve um brejo (em tempos em que não se pode mexer nos proventos de servidores públicos isso vira até poesia se misturada ao lépido Aedes).  Savassi, curiosamente não é nome local. Os irmãos Achille, Arturo e Angelo Savazzi, imigrantes de Mântua, proprietários da padaria mais famosa dos anos 30 foram os homenageados.

Nos atuais anos 20 do novo milênio, chegar a qualquer padoca é complicado: os ônibus saem lotados das cidades do entorno e despejam trabalhador de baixa renda de dia para recolher à noite. Já peguei muita van pirata – truque esperto para contornar um sistema público de transporte ineficiente. A Serra do Curral – cartão postal – é uma casquinha fina  de montanhas comidas pelas mineradoras. Alguns bairros que deveriam só receber casas para evitar que a paisagem fosse tampada pelos arranha-céus tiveram documentação mudada no apagar das luzes de mandatos de certos prefeitos e, como resultado, sofreram enorme especulação imobiliária. E, ironia, os rycos foram morar fora, em Nova Lima e adjacências. A cidade não é mais Jardim e todo mundo se encontra (eu não entendo muito) para comer pizza em supermercado que fica na beira da favela.

Fato também é que este solo, apesar de toda a dor, tem um poder transcendental.

Já citei por aqui e repito: pesquisas apontam que a força dos minérios adentra as entranhas e quem deixa Belo Horizonte sofre profundas alterações químicas e de metabolismo. Abstinência.

Quem fica, bebe sem cerimônia. E tem o estranho hábito de se alimentar da vida alheia.  Mineiro, 95% das vezes sabe tudo dos outros e torce para dar errado.  Mas a torcida para a cidade, naquela época era real, e a nova capital foi inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas na periferia da cidade, juntamente com os antigos moradores do Curral del Rei – que foram realojados na lonjura da Cidade ‘Nova’.

Bem… se lá o planejamento deu em novos brejos, aqui, a história foi outra: porto, terra de ninguém, habitada por estivadores, putas, fantasmas de ópio, Chineses em busca de riqueza, javaneses, colonizadores ingleses, malaios… Por não ser de ninguém mesmo, por não vir com um ranço histórico, e por ter sido rejeitada, foi planejada sem aventura Niemeyristica, com disciplina estilo rédea (e orçamento) curta e, ao que tudo indica, deu certo.

Isso se você considerar “certo” ter muito dinheiro, morar cercado de jardins, enfrentar baixos índices de violência, contar com um porto moderníssimo, um aeroporto Disneylandia, e, também, topar achar normal dar porrada em doméstica, meter reguada em perna de estudante.

A diferença em números grita: por aqui, com cerca de 6 milhões de habitantes, 6,298 casos ativos – mais de 36 mil tratados e liberados. 188 hospitalizados, 1 em estado grave. 26 mortos. Em Belo Horizonte, com 2,5 milhões de habitantes,, segundo a SES, 4.668 casos ativos,  104 mortos.

Se Drummond vivo estivesse, certamente, teria material para uma nova Quadrilha.

PS: O Marku Ribas – tocando bateria no clip do Mick Jagger acima – ilustra bem esse ‘meu’ mundo. Ele simplesmente tocou com Bob Marley, James Brown e Clara Nunes.  Se tivesse seguido a maré, não seria explosão. Mas explosão no Brasil é só uma manchete e amanhã é outro dia.

 

 

 

Fabrício

Fiat Lux é o desejo, mas, de Pinheirinho para baixo, Olho no Queiroz.

Oremos por Atibaia, ou a grande Tocaia, onde pedalinhos personalizados não são seus nem de ninguém.

Onde cozinha completa sai bancada por empreiteira.

Onde casa de advogado abriga fugitivo.

Bom mesmo são os fósforos Queiroz – para a palha que arde em seu palpite político.

(Nada de novo no front e o barquinho navega no brejo)

Fósforos Queiroz, pelo menos queima oQ filme

Moral e bons costumes

Durante uma pá de anos, eu usei esse espaço para falar tudo e qualquer coisa.

O mundo mudou, o menino Mark (que, por ofício, conheci pessoalmente) parecia besta (e é)… Enfim, foram-se os anos. Mas continuo falando de tudo e qualquer coisa. Em frases, em posts cifrados, para poucos – onde fica meu conforto e meu prazer. Não que não haja efeitos colaterais e uns bloqueados pelo caminho…

Aqui, pelo menos (e com um visual demodê), quem manda nessa bagaça sou eu (e o Word Press, e o desenvolvedor e o designer – alô, designers, estou procurando um para renovar essa casa velha)…

Chega de preâmbulo.

“Eu não tenho escrúpulos. O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde

Nunca antes, nesse país, uma conversa de bastidor definiu tanto. Ainda hoje, meus amigos economistas citam Ricupero como um grande pensador, elogiam a crítica do Henrique Meirelles à reforma da previdência, alguns, mais old school, se emocionam e tiram selfie com o Delfim.

Eu, que não tenho nada com isso (É a economia, sua boçal), não consigo, de verdade, separar o homem da obra. Tá certo: Woody Allen, Michael Jackson, Chico Buarque… Com esses sou mal resolvida. Decidi que não assistirei a nenhum filme novo do primeiro. Ainda vibro com as músicas do segundo – mas tenho sentimentos dúbios e penso no meu filho. O terceiro pagou em vida pelas escolhas políticas. Vou continuar ouvindo e vou continuar ignorando o que quer que ele tenha a dizer sobre o partido de estimação. Nossa “relação” está zerada, até por que

Seus filhos, erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais

Mas em se falando de economistas, não consigo processar. Não consigo passar um pano no passado do trio duralex e simplesmente me ater aos seus brilhantes pensamentos. Quando o sujo fala do mal lavado, em fevereiro é carnaval.

(EM – eternas – OBRAS)

O Brasil pelos brasileiros gaiatos. E a França… deixa para lá.

Aqui são umas das minhas observações, as vezes um pouco exageradas, sobre os franceses e outros estrangeiros no Brasil.
Nada sério.
E um adendo: todo o meu amor e respeito aos gays do mundo.

1 – Aqui no Brasil, tudo se organiza em fila: fila para pagar, fila para pedir, fila para entrar, fila para sair e fila para esperar a próxima fila. E duas pessoas ja bastam para constituir uma fila.
Na França a fila também não falha: é a juventude desesperada para tomar café gelado no Starbucks (americano sempre fatura com francês) ou então fila de gente no último trem do metrô. Porque taxi, fio, ninguém está podendo. Já vi até fila de rato na entrada do metrô Sèvres-Babylone, aquele que sai na porta do Le Bon Marché.

2 – Aqui no Brasil, o ano começa “depois do Carnaval”.
Lá na França começa sempre depois dos protestos dos jovens que não querem trabalhar mais do que 4 horas por semana. Imagina o absurdo.

3 – Aqui no Brasil, não se pode tocar a comida com as mãos. No MacDonalds, hamburger se come dentro de um guardanapo. Toda mesa de bar, restaurante ou lanchonete tem um distribuidor de guardanapos e de palitos. Mas esses guardanapos são quase de plastico, nada de suave ou agradável. O objetivo não é de limpar suas mãos ou sua boca mas é de pegar a comida com as mãos sem deixar papel nem na comida nem nas mãos.
Lá na França, confirmando a lenda, o povo acha uma loucura lavar qualquer coisa. Prato, bumbum, pé. Experimente dar uma volta pelo Bassin de la Villete numa noite quente e você verá a maior concentração por metro quadrado de sandálias finérrimas tipo Roger Vivier em pés absolutamente imundos. É uma coisa tão impressionante que, só de lembrar, perco o sono e corro para um dos meus 5 banheiros para lavar os minhas patinhas de tupi-guarany.

4 – Aqui no Brasil todo é gay (ou ‘viado’). Beber chá: e gay. Pedir um coca zero: é gay. Jogar vólei: é gay. Beber vinho: é gay. Não gostar de futebol: é gay. Ser francês: é gay, ser gaúcho: gay, ser mineiro: gay. Prestar atenção em como se vestir: é gay. Não falar que algo e gay : também é gay.
Na França, todo mundo é gay mesmo. Gay de pé sujo.
Fazer o que? O mundo é dos gays e adoro todos eles.

5- Aqui no Brasil, os homens não sabem fazer nada das tarefas do dia a dia: não sabem faxinar, nem usar uma maquina de lavar. Não sabem cozinhar, nem a nível de sobrevivência: fazer arroz ou massa. Não podem concertar um botão de camisa. Também não sabem coisas que estão consideradas fora como extremamente masculinas como trocar uma roda de carro. Fui realmente criado em outro mundo…
Eu também, talvez tenha sido criada em Marte.
Aí a francesada chega no Brasil, contrata uma babá e empregada e esquece rapidinho tudo o que aprendeu.

6 – Aqui no Brasil, sinais exterior de riqueza são muito comuns: carros importados, restaurantes caríssimos em bairros chiques, clubes seletivos cujos cotas atingem valores estratosféricas.
Ué, minha gente, lá é até mais fácil de achar a riqueza. Pegue o mapa dos bairros e siga a renda média anual das famílias abastadas.
75007 – 380.959 euros
75006 – 341.639 euros
75008 – 307.710 euros
75004 – 280.526 euros
Em primeiro lugar no 7ème arrondissement, o bairro da Torre Eiffel. Morar em apartamentos situados ao longo dos jardins da Torre Eiffel, ao longo da Esplanada des Invalides, ou nas belas avenidas no interior deste bairro é um privilégio. Ele é considerado como o bairro mais elitista da capital.
Em seguida vem o 6ème, cortado pelo boulevard Saint Germain, região onde se encontra o Jardin du Luxembourg, o boulevard Raspail e o Hotel des Monnaies.
O 8ème arrondissement é a região da Avenue Champs Elysées, do Parc Monceau, da avenue Montaigne e da Place de la Madeleine.
Para ser bandido em Paris nem precisa conhecer o mapa da cidade. É só seguir a pé pelo caracol parisiense.
Mas, é claro, pobre de lá anda de metrô, mas não esquece sua bolsinha Céline made in China.

7 – Aqui no Brasil, os casais sentam um do lado do outro nos bares e restaurantes como se eles estivessem dentro de um carro.
Em Paris, nego entra num copo sujo e pede um “Cosmo”. Bicha fina é outra coisa. Opa: gay fina francesa.

8 – Aqui no Brasil, os homens se vestem mal em geral ou seja não ligam. Sapatos para correr se usam no dia a dia, sair de short, chinelos e camiseta qualquer e comum. Comum também é sair de roupas de esportes mas sem a intenção de praticar esporte. Se vestir bem também é meio gay.
Na França, a juventude dourada faz fila nas Galeries Lafayette para comprar Havaianas.
Vai entender o conceito de vestir bem.

9 – Aqui no Brasil, o cliente não pede cerveja pro garção, o garção traz a cerveja de qualquer jeito.
Na França você pede e o garçon não traz. Você gasta horrores o o garçon continua fazendo carão.
Penso que deve ser bacana entrar num bar e já ser servido logo de cara. Ah, os trópicos!

10 – Aqui no Brasil, todo mundo torce para um time, de perto ou de longe.
Lá na França todo mundo torce o nariz. Pas Mal é o que mais se ouve. No lugar de: bacana, genial, fantástico – pas mal.

11 – Aqui no Brasil, sempre tem um padre falando na televisão ou na radio.
Em Paris, vejam só: programa de TV de sucesso tem bingo e jogatina no ar.
Cada qual com seu cada qual – gay ou não.

12 – Aqui no Brasil, a vida vai devagar. E normal estar preso no transito o dia todo. Mas não durma no semáforo não. Ai tem que ser rápido e sair ate antes do semáforo passar no verde. Não depende se tiver muitas pessoas atrás, nem se estiverem atrasados. Também é normal ficar 10 minutos na fila do supermercado embora que tenha só uma pessoa na sua frente. Ai demora para passar os artigos, e muitas vezes a pessoa da caixa tem que digitar os códigos de barra na mão ou pedir ajuda para outro funcionário para achar o preço de um artigo. Mas, na hora de retirar o cartão de credito, ai tem que ser rápido. Não é brincadeira, se não retirar o cartão na hora, a mesma moça da caixa que tomou 10 minutos para 10 artigos vai falar agressivamente para você agilizar: “pode retirar o cartão!”.
Quanto a isto, tenho minhas dúvidas. Penso que na França é igualzinho e um pouco mais mal educado. Nunca se viu num país tantos caixas relaxados e confusos. Nas tenebrosas liquidações de verão – soldes d’ete – as fia do caixa ficam loucas. Fora que têm que trabalhar mais de 4 horas por semana. Aí já sentiu o humor francês das bichas. Oooops – dos gays e atendentes em geral.

13 – Aqui no Brasil, os chineses são japoneses.
Bom, aqui no Brasil a gente têm um curso muito bom de história geral – e em qualquer escola pública de fundo de quintal. E rapidamente descobrimos que, no Brasil, está situada a maior colônia japonesa do mundo.
Talvez por isto, os chineses de lá – maltratados feito o cão e morando longe, nos banlieues, junto com os africanos, turcos e muçulmanos que são franceses de pai e mãe, mas continuam sendo chamados de estrangeiros – talvez por isto a gente não confunda chinês com japonês. E viado, bicha, gay e outros tipos comuns e bem aceitos em nossa fauna tropical.

14 – Aqui no Brasil, a música faz parte da vida. Qualquer lugar tem musica ao vivo. Muitos brasileiros sabem tocar violão embora “que” (sic) não consideram que toquem se perguntar pra eles. Tem músicos talentosos, mas não tantos tocam as musicas deles. Bares estão cheios de bandas de cover.
Sorte a nossa que, no Brasil, não tem ninguém fazendo cover de Non, je ne regrette rien da Edith Piaf, ou Douce France do Charles Trenet nos ônibus ou estações de metrô. No primeiro acorde de Le moribond do Jacques Brel iria ter gay e neguinho rindo alto…

15 – Aqui no Brasil, a política não funciona só na dimensão esquerda – direita. Brasil é um pais de esquerda em vários aspectos e de direita em outros. Por exemplo, se pode perder seu emprego de um dia pra outro quase sem aviso. Tem uma diferencia enorme entre os pobres e os ricos. Ganhar vinte vezes o salario minimo é bastante comum, e ganhar o salario minimo ainda mais. As crianças de classe media ou alta estudam quase todos em escolas particulares, as igrejas tem um impacto muito importante sobre decisões politicas. E de outro lado, existe um sistema de saúde publico, o estado tem muitas empresas, tem muitos funcionários públicos, tem bastante ajuda para erradicar a pobreza em regiões menos desenvolvidas do país. O mesmo governo é uma mistura de política conservadora, liberal e socialista.
Lá na França a coisa é bem mais simples: tem a Liliane Bettencourt e os políticos que ela compra para ter isenção fiscal. O Gérard Depardieu, que deixou seu país natal para escapar do aumento de impostos para os ricos, tem todo o nosso apoio – sendo ele gay ou não. Viado também.

16 – Aqui no Brasil, é comum de conhecer alguem, bater um papo, falar “a gente se vê, vamos combinar, ta?”, e nem trocar telefone.
Em Paris, se alguém falar com você, pode saber que não é francês.

17 – Aqui no Brasil, a palavra “aparecer” em geral significa, “não aparecer”. Exemplo: “Vou aparecer mais tarde” significa na pratica “não vou não”.
Lá na França quem aparece mesmo é o Karl Lagerfeld que é alemão. O resto tenta.

18 – Aqui no Brasil, o clima é muito bom. Tem bastante sol, não esta frio, todas as condicões estão reunidas para poder curtir atividades fora. Porem, os domingos, se quiser encontrar uma alma viva no meio da tarde, tem que ir pro shopping. As ruas estão as moscas, mas os shopping estão lotados. Shopping é a coisa mais sem graça do Brasil.
Lá em Paris, o povo também enlouquece no shopping. Adora um tricó no Le Bon Marché, ou nas Galleries Lafayette.
Agora, calor humano mesmo é no metrô em julho. O povo francês adora um bodum coladinho no cavaco.

19 – Aqui no Brasil, novela é mais importante do que cinema. Mas o cinema nacional é bom.
Em Paris, cinema americano arrasa. Filme francês, como eles dizem, é coisa de viado.

20 – Aqui no Brasil, não falta espaço. Falam que o pais tem dimensões continentais. E é verdade, daria para caber a humanidade inteira no Brasil. Mas então se tiver tanto espaço, por que é que as garagens dos prédios são tão estreitos? Porque existe até o conceito de vaga presa?
Em Paris não tem garagem. Ficam aqueles carros parados, todos batidos e amassados enfeiando o Quartier Latin. Não dava para fazer um estacionamento no Jardin du Luxembourg e jogar um tapete do século XV por cima?

21 – Aqui no Brasil, comida salgada é muito salgada e comida dolce é muito doce. Ate comida é muita comida.
Na França come-se pouco porque toda refeição é para levantar bandeira. O povo não tem pena nem do ganso. O coitado vive doente e entalado para garantir o foie gras da população.

22 – Aqui no Brasil, se produz o melhor café do mundo e em grandes quantidades. Uma pena que em geral se prepare muito mal e cheio de açúcar.
Você veja bem que gosto é algo que não se discute. Fazer fila no Starbucks é para os ousados.

23 – Aqui no Brasil, praias bonitas não faltam. Porem, a maioria dos brasileiros viajam todos para as mesmas praias, Búzios, Porto de Galinhas, Jericoacoara, etc.
Engraçado é ver que Saint Tropez, Marseille estão sempre lotadas – deve ser a brasileirada que enricou e adora fazer farofa na praia com seus amigos gays.
Agora, meu amigo gay ou não, praia na beira do Sena, é que é churrasco na laje. O resto é brincadeira de pagodeiro.

24 – Aqui no Brasil, futebol é quase religião e cada time uma capela.
Tem que fazer doutorado em Antropologia para explicar esta frase. Como parei no mestrado, não ouso questionar tanta sabedoria estrangeira.

25 – Aqui no Brasil, as pessoas acham que dirigir mal, ter transito, obras com atraso, corrupção, burocracia, falta de educação, são conceitos especificamente brasileiros. Mas nunca fui num pais onde as pessoas dirigem bem, onde nunca tem transito, onde as obras terminam na data prevista, onde corrupção é só uma teoria, onde não tem papelada para tudo e onde tudo mundo é bem educado!
Você é gay ou francês?! Ou todas as anteriores?

26 – Aqui no Brasil, esporte é ou academia ou futebol. Uma pena que só o futebol seja olímpico.
Na França esporte é fazer xixi na piscina pública.

27 – Aqui no Brasil, existe (sic) três padrões de tomadas. Vai entender porque…
Um provérbio francês diz que há um tipo diferente de queijo francês para cada um dos dias do ano, e Charles de Gaulle uma vez perguntou: “como você pode governar um país no qual existem 246 tipos de queijo?” Vai entender…

28 – Aqui no Brasil, não se assuste se estiver convidado para uma festa de aniversário de dois anos de uma criança. Vai ter mais adultos do que crianças, e mais cerveja do que suco de laranja. Também não se assuste se parece mais com a coroação de um imperador romano do que como o aniversário de dois anos. E ‘normal’.
A festa de debutantes, uma tradição que parece tão ultrapassada, ainda faz muitas meninas sonharem na França. As garotas bem nascidas, entre 16 e 20 anos, participam do tradicional baile de debutantes do Hotel Crillon, em Paris.
Festa de criança no Brasil perde para tanta bobagem.

29 – Aqui no Brasil, não tem o conceito de refeição com entrada, prato principal, queijo, e sobremesa separados. Em geral se faz um prato com tudo: verdura, carne, queijo, arroz e feijão. Dai sempre acaba comer uma mistura de todo.
E desde quando o conceito de entrada, prato principal, queijo e sobremesa é um conceito?
Oiê?

30 – Aqui no Brasil, o Deus esta muito presente… pelo menos na linguagem: ‘vai com o Deus’, ‘se Deus quiser’, ‘Deus me livre’, ‘ai meu Deus’, ‘graças a Deus’, ‘pelo amor de Deus’. Ainda bem que ele é Brasileiro.
Je suis désolée, les affaires sont les affaires. E um francês sabe bem o que isto significa.

31 – Aqui no Brasil, cada vez que ouço a palavra ‘Blitz’, tenho a impressão que a Alemanha vai invadir de novo. Reminiscência da consciência coletiva francesa…
Fique tranquilo, a Alemanha, com sua economia em velocidade de cruzeiro, não iria jamais invadir um endividado e na rabeira. Dá azar… No máximo, os alemães podem comprar umas vinícolas e trocar La Grande Dame por  “Glückliche kaiser”!

32 – Aqui no Brasil, pais com muita ascendência italiana, tem uma lei que se chama ‘lei do silencio’. Que mau gosto! Parece que esqueceram que la na Itália, a lei do silencio (também chamada de “omerta”) se refere a uma pratica da mafia que se vinga das pessoas que denunciam suas atividades criminais.
Fica um ditado francês: Plus le singe monte haut, plus on voit son derrière. (Lit. Quanto mais o macaco sobe, mais enxergamos sua bunda.)

33 – Aqui no Brasil, se acha tudo (sic) tipo de nomes, e muitos nomes americanos abrasileirados: Gilson, Rickson, Denilson, Maicon, etc.
Frontin, Garret, Haydée, Aimée, Arkell. Oiê?

34 – Aqui no Brasil, quando comprar tem que negociar.
Na França, você paga caro logo de cara. Vai entender a lógica…

35 – Aqui no Brasil, os homens se abraçam muito. Mas não é só um abraço: se abraça, se toca os ombros, a barriga ou as costas. Mas nunca se beija. Isso também é gay.
36 – Aqui no Brasil, o polegar erguido é sinal pra tudo : “Ta bom?”, “obrigado”, “desculpa”.
Sem noção, sem comentários.

37 – Aqui no Brasil, quando um filme passa na televisão, não passa uma vez só. Se perder pode ficar tranquilo que vai passar mais umas dez outras vezes nos próximos dias. Assim já vi “Hitch” umas quatro vezes sem querer assistir nenhuma.
Você deve ser francês ou americano para ficar tanto tempo na frente da TV. Tanta coisa para fazer lá fora…

38 – Aqui no Brasil, tem um jeito estranho de falar coisas muito comuns. Por exemplo, quando encontrar uma pessoa, pode falar “bom dia”, mas também se fala “e ai?”. E ai o que? Parece uma frase abortada. Uma resposta correta e comum a “obrigado” e “imagina”. Imagina o que? Talvez eu quem falte de imaginação.
A expressão mor francesa e nenhum comentário:
“Pas Mal.”
E, claro, salve simpatia.

39 – Aqui no Brasil, todo mundo gosta de pipoca e de cachorro quente. Não entendo.
Oiê? Queria que todo mundo gostasse de cassoulé e ratatouille?

40 – Aqui no Brasil, quando você tem algo pra falar, é bom avisar que vai falar antes de falar. Assim, se ouvi muito: “vou te falar uma coisa”, “deixa te falar uma coisa”, “é o seguinte”, e até o meu preferido: “olha só pra você ver”. Obrigado por me avisar, já tinha esquecido para que tinha olhos.
Sem comentários. A educação não me permite nem fazer graça com isto.

41 – Aqui no Brasil, as lojas, o negócios e os lugares sempre acham um jeito de se vender como o melhor. Já comi em em vários ‘melhor bufe da cidade’ na mesma cidade. Outro superativo de cara de pau é ‘o maior da América latina’. Não costa nada e ninguém vai ir conferir.
Queria que o povo desse um tiro na cabeça por que perdeu uma estrela do Guia Michelin? A gente tem chopp para beber…

42 – Aqui no Brasil, tem uma relação ambígua e assimétrica com a América latina. A cultura do resto da América latina não entra no Brasil, mas a cultura brasileira se exporta la. Poucos são os brasileiros que conhecem artistas argentinos ou colombianos, poucos são os brasileiros que vão de ferias na América latina (a não ser Buenos Aires ou o Machu Pichu), mas eles em geral visitaram mais países europeus do que eu. O Brasil as vezes parece uma ilha gigante na América latina, embora que tenha uma fronteira com quase todos os outros países do continente.
Será que é porque falamos português e eles espanhol?
Ou será que é porque temos geografia e história em todas as escolas – mesmo as piores do Enem?

43 – Aqui no Brasil, relacionamentos são codificados e cada etapa tem um rótulo: peguete, ficante, namorada, noiva, esposa, (ex-mulher…). Amor com rótulos.
Já leu Jorge Amado ou quer que a gente desenhe? Pede ajuda ao Caribé…

44 – Aqui no Brasil, a comida é: arroz, feijão e mais alguma coisa.
Na Franças, comida é boa e a gente gosta. Aqui, especialmente em Minas, também.

45 – Aqui no Brasil, o povo é muito receptivo. E natural acolher alguem novo no seu grupo de amigos. Isso faz a maior diferencia do mundo. Obrigado brasileiros.
E o Francês ainda cospe no prato…

46 – Aqui no Brasil, o brasileiros acreditam pouco no Brasil. As coisas não podem funcionar totalmente ou dar certo, porque aqui, é assim, é Brasil. Tem um sentimento geral de inferioridade que é gritante. Principalmente a respeito dos Estados Unidos. To esperando o dia quando o Brasil vai abrir seus olhos.
Neste dia vocês estará na fila do Starbucks num calor de 40oC. E usando óculos escuros chineses.

47 – Aqui no Brasil, de vez em quando no vocabulário aparece uma palavra francesa. Por exemplo ‘petit gâteau’. Mas para ser entendido, tem que falar essas palavras com o sotaque local. Faz sentido mas não deixa de ser esquisito.
Releia seu próprio texto que você vai entender melhor de sotaque esquisito. Você bateu a cabeça no bidê quando era pequeno?

48 – Aqui no Brasil, tem um organismo chamado o DETRAN. Nem quero falar disso não, não saberia por onde começar…
Mal chegou e já foi comprar um carro. Louco para largar o metrô e le vélo!

49 – Aqui no Brasil, dentro dos carros, sempre tem uma sacola de tecido no alavanca de mudança pra colocar o lixo.
E os franceses fazem o quê? Jogam o lixo no chão do veículo? Oh! Ah! Que horror!

50 – Aqui no Brasil, os brasileiros se escovam os dentes no escritório depois do almoço.
Na França não?
Désolée. E compra um chiclé, pelo menos.

51 – Aqui no Brasil, se limpa o chão com esse tipo de álcool que parece uma geleia.
Na França não se limpa, e disto sou prova. Nem com gel nem com líquido.

52 – Aqui no Brasil, a versão digital de ‘fazer fila’ e ‘digitar codigos’. No banco, pra tirar dinheiro tem dois códigos. No supermercado, o leitor de código de barra estando funcionando mal tem que digitar os códigos dos produtos. Mas os melhores são os boletos pra pagar na internet: uns 50 dígitos. Sempre tem que errar um pelo menos. Demora. Aqui no Brasil, o sistema sempre ta “fora do ar”. Qualquer sistema, principalmente os terminais de pagamento de cartão de credito.
O TI é francês – é por isto.

53- Aqui no Brasil, tem um lugar chamado cartório. Grande invenção para ser roubado direito e perder seu tempo durante horas para tarefas como certificar uma copia (que o funcionário nem vai olhar), o conferir que sua firma é sua firma.
Casar na prefeitura do bairro é que é ser fino.
Experimenta ir aos correios na França…

54 – Aqui no Brasil, parece que a profissão onde as pessoas são mais felizes é coletor de lixo. Eles estão sempre empolgados, correndo atrás do caminhão como se fosse um trilho do carnaval. Eles também são atletas. Tens a energia de correr, jogar as sacolas, gritar, e ainda falar com as mulheres passando na rua.
55 – Aqui no Brasil, pode pedir a metade da pizza de um sabor e a metade de outro. Ideia simples e genial.
Que observações de gênio. Realmente, não vale o comentário. Chama o Pierre Verger!

56 – Aqui no Brasil, nao tem agua quente nas casas. Dai tem aquele sistema muito esperto que é o chuveiro que aquece a agua. Só tem um porem. Ou tem agua quente ou tem um débito bom. Tem que escolher porque não da para ter os dois.
Lá vem desculpa para não tomar banho…

57 – Aqui no Brasil, as pessoas saem da casa dos pais quando casam. Assim tem bastante pessoas de 30 anos ou mais morando com os pais.
Três meses após a entrada em vigor da lei que autorizou o casamento homossexual na França, um primeiro balanço indicou que quase 600 casamentos entre pessoas do mesmo sexo foram celebrados nas 50 maiores cidades do país. O número corresponde a apenas 1% das cerimônias no período.O jornal Le Monde acha que os homossexuais franceses estão esperando passar a polêmica criada pelas grandes manifestações contra o casamento gay para poder realizar as cerimônias com simplicidade e discrição.
Protesto por casamento gay? Tsc tsc tsc.

58 – Aqui no Brasil, tem três palavras para mandioca: mandioca, aipim e macaxeira. La na franca nem existe mandioca.
Désolée.

59 – Aqui no Brasil, tem o numero de telefone tem um DDD e também um numero de operadora. Uma complicação a mais que pode virar a maior confusão.
Ah! Oh! Que confusão!

60 – Aqui no Brasil, quando encontrar com uma pessoa, se fala: “Beleza?” e a resposta pode ser “Jóia”. Traduzindo numa outra língua, parece que faz pouco sentido, ou parece um dialogo entre o Dalai-Lama e um discípulo dele. Por exemplo em inglês: “The beauty? – The joy”. Como se fosse um duelo filosófico de conceitos abstratos.
Aqui no Brasil, a torneira sempre pinga. Aqui no Brasil, no taxi, nunca se paga o que esta escrito. Ou se aproxima pra cima ou pra baixo. Aqui no Brasil, marcar um encontro as 20:00 significa as 21:00 ou depois. Principalmente se tiver muitas pessoas envolvidas.
Gente, o fofo veio trabalhar e até agora não se situou? Ele morava onde na França? Em Rennes? Manda o moço para o escritório do Google em Barão de Cocais.

61 – Aqui em Belo Horizonte, e a menor cidade grande do mundo. 5 milhões de habitantes, mas todo mundo conhece todo mundo. Por isso que se fala que BH é um ovo. Eu diria que é um ovo frito. Assim fica mais mineiro.
Frito ficou o francês que falou bobagem.
Frito e queimado.

 

(Este texto é uma resposta às bobagens que li em: sou francês e não fiz o dever de casa.)

Em dias de ressaca,

tome um café amargo e siga em frente.

Nas manchetes, além de mensalão, Sarney e outros quitutes, o cardápio é variado:
– Polícia conclui que mãe matou duas filhas;
– Mãe e filho são achados mortos em prédio;
– Casal é morto e crianças são abandonadas;
– Chacina deixa 6 mortos e 1 ferido em SP;
– Homem morre atropelado ao fugir de ladrões e o corpo antinge e mata outro motorista.

Acordei com gosto de cabo de guarda-chuva na boca.
Cabeça pesada como pedra no alto da montanha.
País de m.
Eleitores de m.
Tudo m. m. m.
Daí que pensei que meu humor irônico não pode morrer.
Pois já está tudo morrendo mesmo.
Ele há de se salvar.
Rir do bigode do Sarney, do saldo da minha conta bancária, rir dos fornecedores que, como ratos, tentam te levar uns nacos.
Rir da chuva, do sol, rir.
E continuar a chutar a cachorrada.
Hoje mesmo fiz uma croniqueta.
Segue:

Era uma vez uma viúva alegre.
Saltitava de peitos novos pelo bosque quando encontrou uma amiga.
A amiga, emburrada, não saltitava, urrava.
Tentava, desesperada, se fazer ouvir ao celular.
Do outro lado da linha, a atendente de telemarketing.
– Lalalalalá.
A viúva achou muita graça de tudo e foi celebrar no bar.
Lá encontrou um moço rico e ficaram muito amigos.
Ela ganhou carro novo, celular e computador.
E todo ano, caso não faça chuva, ela leva mantimentos para o Lar dos Meninos Pobres.

Moral da história: quem pula com peitos de silicone vai mais longe.
Patrocínio: Petrobrás.
Apoio: Lei Rouanet.

Fim.

Era uma vez um país.

Capítulo 25 – Táxi

Cada mergulho, um flash

Uma americana a serviço de empresas da Nova Zelândia.
Um encontro informal – marcado.
E um passado – quem diria? – em comum.
Enfrentaram a mesma empresa.
A garotada nervosa e sem talento.
Aquele CEO alemão conhecido pela grosseria.

As duas se olharam – disseram pouca coisa sobre o assunto.
Estava tudo muito claro.
Uma experiência e tanto.
Uma nos EUA, outra no Brasil.

Elas se cansaram de tanta gritaria.
Hoje ganham mais e vivem melhor.
Ainda viajam pelo mundo.
A americana recruta profissionais de ponta e que sejam preocupados com a sustentabilidade corporativa.
Gente do bem para crescer sem puxadas de tapete e ataques de ego.

Pegou o táxi pensando…
Mundo pequeno.

Assim, de repente

mineiridades

Pensei em me mudar para uma casa.
Não posso reclamar do momento em que o Brasil está vivendo.
Estamos em 6º lugar no ranking das cidades com bilionários…

Quem sabe?
No meu quarteirão… Quintal, edícula, uma praça em frente.
Eu posso ser uma pobre excêntrica no jardim dos bilhões.

Assim, sem pensar, os dias têm se agitado.
Não tenho mais horário para marcar almoço com amigos.
Um trabalho novo pinta.
Eu vou inventando modas e modos.

Assim, num sábado, suco e argentino (não combina, eu sei) e “pau” no ex-presidente do FMI.
Reunião com arquitetos.
Adoro gente maluca.

Cachorrada. Sorvete. Gataria.
Sábados frios com sol.
Repetitiva, sem imaginação.
Textinho vagabundo e reciclado.
É, como diz a anetoda, o que temos para hoje.
(e é uma delícia – por isso divido – afinal, disseram que o apocalipse seria hoje)

 

Sobre a fé e o amor

Vapor barato - autor: desconhecido

Ontem fui ao show do U2.
Em minha tenra juventude, vesti a carapuça preta de couro cheia de alfinetes de rata de espetáculos. Teatro, rock, bossa nova, performance, dança – com ou sem dinheiro, era a minha praia.

Meu último show “de fato” foi um Free Jazz Festival… Quem nasceu nos anos 80 nem deve saber o que é.
Mas imagine que Chet Baker veio para uma edição e quase deu o bolo no show encenando e cantando um clássico de conteúdo dúbio de Cole Porter.

Depois do meu último e (por que não?) fatídico Free Jazz, onde fiz uma roleta russa de namorados, despedi-me de um saudoso amigo mineiro, eu me aposentei.
Passei a freqüentar lugares menores, cervejas geladas, esperas cujo tempo equivale a um pacote de pipoca , ingressos sempre disponíveis.
Para não dizer que não tive recaídas, seis anos atrás fui a um Personal Fest em Buenos Aires e vi Bebel Gilberto, Jorge Drexler e fugi dos Pet Shop Boys.
Para sobreviver, foram litros de energético com vodka, um amor louco pela vida porteña e uma desistência de uma festa do Goldie (ex caso de Björk)

Esse preâmbulo todo não é para descer a ripa em amantes de shows e grandes eventos, é só para explicar a minha pequena experiência muito particular de ontem.
Topa seguir comigo?

Comprado na terça passada um ingresso de segunda mão e sem ágio pela bagatela de R$216,00, resolvi melhorar minha aposta.
Foram R$250 reais para o motorista levar e buscar. Não, não vamos discutir preços quando o resultado é casa e cama em uma hora.
Cheguei às 19h porque não queria confusão.
Entrei com relativa facilidade – furei a fila com um bom argumento.
O ingresso era de pista, o que significa: não haveria lugar para sentar ou descansar.
Paciência.

Em uma hora, escolhi uma área que julguei calma e com boa visão do palco e comprei minhas fichas de água mineral.
Show sem álcool porque eu não pretendia explorar os banheiros químicos…
Você há de convir comigo que tenho uma certa experiência neste metier.

A banda de abertura começou a apresentação por volta de 20h.
Ato contínuo, as pessoas começaram a sacar celulares e câmeras.
O show acabou, logo veio o do U2 e o que era ato contínuo virou moto-contínuo.

Ohos de plasma

As engenhocas eletrônicas não só fabricavam indícios do crime – sim, “eu fui ao show” – como aproximavam os ídolos de cada um dos fãs. O Adam Clayton que eu via pequenininho, como o gesto que representa o meu salário, preenchia a tela de cristal líquido da minha vizinha da frente.
O aparelhinho dela não só tinha um belo zoom como corrigia problemas de foco e imperfeições de luz.
Nas telas, filtrados e aprisionados, destituídos de espinhas e rugas, isolados da chuva que veio e voltou, os músicos dividiam a performance em pequenos atos (ou seriam curta-metragens?) dirigidos por Marias, Josés e Pafúncios.
O show não acontecia no palco, ele aconteceria mais tarde em conversas de bar, em edições caseiras para o YouTube.
O show seria como um bicho de estimação: seria levado para passear, colocado para dormir e até ganharia roupinhas com cores iguais às do dono.

Não, a média do público pagante não era de garotos – mas de gente que, como eu, tem mais de 30.
Essas pessoas vez ou outra passavam afoitas distribuindo uma cotovelada aqui, outra ali. Derrubavam gotas gordas de cerveja (gelada pelo que pude constatar) e desferiam alguns pisões em unhas encravadas.
As câmeras, celulares – estes eram prioridade.
Não havia abraços de namorados, não havia beijos apaixonados em rápidos momentos mágicos provocados por músicas que vão ao passado e evocam momentos que não voltarão jamais.
O que havia era uma multidão hipnotizada, operadores de câmeras que buscavam disfarçar a câimbra nos braços e que acreditavam estar numa missão para desbravadores.
Registrar o primeiro show da U2 360° Tour no Brasil.

Não sei se, ao fim da história, os milhares de técnicos de som, luz e imagem postaram seus vídeos, fotos e criações.
Sei que pedi a separação de corpos por diferenças irreconciliáveis.

O blog da Bethânia, Liz Taylor e o misto da padoca

O mundo é mesmo animado.
Atire a primeira pedra o motorista que, num sinal (farol se fores paulista) vermelho, olha para o lado e vê o vizinho limpando o salão na maior naturalidade.
E a naturista americana que, para facilitar, saiu logo pelada e esqueceu o GPS?
Ficou presa a 150 metros de altura numa montanha e o bombeiro ainda teve que levar uns panos para carregar a moça pendurada no helicóptero… Não, claro, sem antes tirar uma foto do mico que rodou os sites internacionais.
De americanos em americanos, vamos para a vovó com mais de 90 que mandou bala no vizinho porque exigiu e não levou um beijo na boca.
E o troglodita austríaco ex-governador da Califórnia que chamou os brasileiros de mexicanos?
Somos todos xicanos mesmo, pode esculhambar.
Sem se cansar, defendeu a energia nuclear.
Eu, sinceramente, penso que devem instalar usinas lá para os lados de Hollywood – iria dar mais dinheiro do que filme.
E, com certeza, seria um estouro de bilheteria!
Hoje sofri forte preconceito em minha aula de hidroginástica geriátrica.
A colega, incomodada por ficar para trás na corrida, falou que aquela turma era para a terceira idade e quem fosse rápido que procurasse uma pista de F1…
Fui rir da vovó e engoli água!
Ai, o povo fala de Elizabeth que será enterrada perto de Michael.
Feliz da doida que viveu metade do que a inglesa de olhos cor de violeta.
E as maravilhas da desigualdade de renda?
Em São Paulo, você come fora, recebe a conta de 300 reais e paga só 50.
É só esperar a quadrilha que anda fazendo a limpa nos restaurantes.
Pague 50 para o bandido e dê banana para o restaurante.
Afinal, já dizia o ditado: “ladrão que rouba de ladrão…”
Se você não tem 50, o misto da padoca é muito econômico.
Peço um para mim e vem tanto queijo e presunto que alimento a cachorra e o gato.
Se é saudável eu não sei…

E eu apoio totalmente o blog da Bethânia. Se entrar na lei Rouanet, vou doar meu IR todinho para ela fazer rimas ricas…