A mesma praça, o mesmo banco

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?

O Chile merece o presidente que tem, o Brasil, também!

Piñera, presidente do Chile, ao comprovar que os mineiros estavam vivos

Podem me detestar.
Mas eu não me interessei muito pelo resgate no Chile.
Se fôssemos acompanhar todos os casos semelhantes, em especial na China e na Rússia, dava até para fazer um programa de TV.
Algo entre um reality show e o programa do Sílvio Santos.
Com direito a ver os homens sucumbindo ao vivo ou escolhendo um novo eletrodoméstico na Porta da Esperança.

Apenas uma coisa me chamou a atenção.
Foram (estão sendo) muitas críticas ao presidente chileno – se você não sabe, grande parte da verba gasta no resgate saiu do governo federal do Chile.
Pelo que entendo, faz parte da liturgia do cargo de um líder de Estado dar apoio à nação em momentos como esse.
Ele vai faturar com isso?
Não importa. Ele tem que estar lá. É o papel de um presidente.

E em tempos de radicalismo político no Brasil, não quero fazer palanque para Serra ou Dilma.
Quero relembrar a brilhante participação de meu presidente em um caso muito mais triste e dramático do que o do Chile.

Na sexta-feira, dia 22 de agosto de 2003, às 13:26h, vinte e um engenheiros e técnicos do CTA (Centro de Tecnologia Aeroespacial), sediado em São José dos Campos, SP, morreram em um incêndio no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), localizado no Estado do Maranhão, quando preparavam o lançamento de um protótipo do foguete de fabricação nacional, o VLS (Veículo Lançador de Satélites).

Reproduzo matéria da BBC Brasil:

Lula disse que queria dar um “aviso ao povo brasileiro” em função do que aconteceu na base espacial de Alcântara.
“Estes homens morreram prestando um serviço inestimável à nossa pátria. Certamente vamos seguir com a política espacial e pretendemos continuar com a base de Alcântara, principalmente para lançamento de foguetes”, disse.
Lula disse que quer que os familiares da vítimas saibam “que o governo brasileiro estará solidário” e fará o que estiver ao seu alcance para “minorar o sofrimento dos entes queridos dos que se foram.”
Mas Lula não disse se o governo vai indenizar as famílias, nem se visitará Alcântara.

Até hoje as famílias dos engenheiros e técnicos que morreram na explosão não receberam a indenização que o presidente prometeu (ajuda de custo para os filhos em idade escolar, entre outras).
E o seguro das famílias (Bradesco Seguros) recusa-se a pagar o sinistro por acidente de trabalho. Pagou um seguro de vida comum.

Pouco depois do acidente, leiam o que saiu no Terra:

Lula e Putin no Itamaraty, foto de Ricardo Stuckert

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem uma frase infeliz ao comentar o acidente da Base de Lançamentos em Alcântara, no Maranhão, onde a explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS 01) matou 21 pessoas em 22 de agosto.
Lula disse que “há males que vêm para o bem”, conforme o relato de fotógrafos que cobriam o encontro do brasileiro com o presidente russo, Vladimir Putin.
“Há males que vêm para o bem. Ao invés de prejudicar, pode estimular os avanços do conhecimento tecnológico”, teria dito Lula, de acordo com os fotógrafos em Nova York.
Lula agradeceu Putin pelo apoio de seu país nas investigações do acidente.

Um curto-circuito provocou a explosão do VLS 01. Essa foi a terceira tentativa frustrada de lançar um foguete totalmente nacional ao espaço.

Eu gostaria de mantar uma lista para o Lula:
Os nomes dos 21 engenheiros e técnicos mortos na tragédia.
– Amintas Rocha Brito,
– Antonio Sérgio Cezarini,
– Carlos Alberto Pedrini,
– César Augusto Varejão,
– Daniel Faria Gonçalves,
– Eliseu Reinaldo Vieira,
– Gil César Marques,
– Gines Ananias Garcia,
– Jonas Barbosa Filho,
– José Aparecido Pinheiro,
– José Eduardo de Almeida,
– José Eduardo Pereira,
– José Pedro Peres da Silva,
– Luís Primon de Araújo,
– Mário César Levy,
– Massanobu Shimabukuro,
– Maurício Biella Valle,
– Roberto Tadashi Seguchi,
– Rodolfo Donizetti de Oliveira,
– Sidney Aparecido de Moraes,
– Walter Pereira Júnior.

No final de 2003 o governo federal pagou uma indenização de R$ 100 mil para cada uma das 21 famílias das vítimas do acidente. Também indenizou o tratamento médico e psicológico dos familiares e algumas despesas de educação dos filhos das vítimas.
Insatisfeitos, os familiares procuraram a Justiça, reivindicando, em média, uma indenização de R$ 2 milhões. (Lula chegou a falar em algo em torno de R$1milhão).
Algumas das ações propostas individualmente pelos familiares das vítimas já tiveram decisões favoráveis em primeira instância, mas que foram questionadas pela Advocacia Geral da União (AGU), com respeito ao valor pedido das indenizações.
Segundo a AGU, “não há legislação específica que fixe parâmetros de indenização por danos materiais e morais aos servidores públicos estatutários, vitimados em acidente, como no presente caso”.

Os familiares dos mortos no acidente fundaram a Associação dos Familiares das Vítimas do Acidente do VLS (ASFAVV).
Essa associação defende a continuidade do projeto do VLS, busca na Justiça o direito de saber quem foram de fato os verdadeiros responsáveis pela tragédia ocorrida, e luta para “manter acessa a chama de humanidade”, que os 21 engenheiros e técnicos falecidos deixaram a partir do seu trabalho interrompido no CLA.

Se você se comoveu com o caso no Chile, eu só te peço que pense no brasileiros que morreram em Alcântara

Sobre queijos e pombos

Cartaz da prefeitura

Alguém me explica por que o teclado europeu é completamente diferente do americano (vulgo nosso)?
Os poucos minutos que consigo ter acesso a um computador na Sorbonne, eu fico catando milho nesse teclado europeu…
O mundo conspira para eu me desconectar mais vezes…

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Hoje foi pancadão…
Depois de dormir cinco horas – gastei boa parte do meu domingo comendo verbos, advérbios, pronomes…
Essa manhã-tarde foi prova na veia.
A hora de ver se a grana que investi em mim mesma vai ter retorno.
Eu sei que alguns mais íntimos vão torcer o nariz, mas tenho que me elogiar.
Sexta-feira fiz prova de fonética. Não pense que é baba…
É difícil pacas…
Você sabia que existem sílabas orais, ligações consonantais, ligações obrigatórias… e por aí vai?
Pois tirei 8 em 10 com direito a elogio da professora.
Segundo ela, minha pronúncia é (quase) fluente e (algo) elegante.
Devo agradecer à champagne de champagne, bien sûr, e ao vinho de Cassis (fica entre Marseille e Toulon) – eu recomendo o rosé La Ferme Blanche geladinho. Somente o álcool destrava a língua com tanta eficiência e graça!

Viva o álcool francês engarrafado na própria vinícola. Viva o solo estrangeiro!

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Esta manhã, prova de gramática.
Não foi fácil… Confesso que ainda não estou à vontade, mas começo a entender o uso das danadas das flexões.
E fiz a prova com segurança de quem “deu de si”: sou o próprio jogador da segunda divisão rezando para alguém da primeira dar sopa do tipo quebrar a perna.

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Depois de tanta ralação, culinária francesa e causos.

Na estação, atrasada, com calor e aflita… Quase chuto uma pomba!
Detalhe: a estação Vavin tem dois andares de subsolo…
Manca como um palhaço de desenho animado.
Levando susto com os trens que chegavam e os que partiam, mas não deixando de procurar uma migalhinha de qualquer coisa.
Uma pomba.

Ao sair da estação, calculei: foram 3 minutos de túnel… como a pomba entrou?
Na certa ela tem Carte Navigo e pega o metrô sempre naquela hora.
Acabei me lembrando do cara que mora na estação Place Monge.

Todo dia, eu chego às 8h da matina e ele está lá, dormindo na mesma cadeira.
Tem uma mochilinha bem vazia e mais nada.
Algumas vezes, quando meu trem chega, ele sai do sono e sorri para os passantes.

Sorrir é um alimento tão poderoso quanto o pão.

Sorrir quebra muita gente.
E dizem que faz chorar.

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Compradas num estabelecimento de 1825

Queijo. Acabo de comer uma maravilha de outro planeta!
Anote, compre e viaje comigo.
Tomme Noire des Pyrénées. Que queijo incrível, que loucura!
Parece um queijo minas mais caprichado.
Com um pedaço de pão. E o banquete está pronto.
Ai, o chèvre do almoço…

E flores – cravos e flores do campo frescas para amigos que aqui moraram, moram e para o Brasil voltarão.
Um dia.
Esse mundo muito grande que faz a gente andar para lá e para cá como bois de Poty numa página de Guimarães Rosa.

Eu sou aquele da ponta esquerda. Mete a cara e esconde o corpo atrás da boiada.

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A outra pomba…
Estava morta no chão, ao lado de uma poça d’água.
Pobre pomba morta numa calçada.

o0o0o0o0o0o

E mais tarde… a pomba intelectual vou sobre os livros na Fnac…
Subsolo do shopping na Place Italie. Foram atrás dela.
Ela levantou a poeira – ou você acha que limpam o alto das prateleiras?
Voou pelos caixas e sumiu.
Espero que não tenham matado.
Uma pomba dessas merece respeito.

Um “time”

Desconstruindo Eiffel

Nicolas Anelka foi dispensado da Copa por insultar o treinador Raymond Domenech.
O zagueiro Willian Gallas fez gestos obscenos para os jornalistas.
O chefe da delegação e da CBF deles (FFF), Jean-Louis Valentin, pediu demissão. “Estou aborrecido. Os jogadores não querem treinar. É uma vergonha. Nestas circunstâncias, decidi voltar a Paris e me demitir“, disse Valentin
O lateral Evra e o preparador Duverne foram contidos antes de trocarem agressões.
Os jogadores fizeram uma reunião neste domingo e decidiram cancelar o treino da tarde.

Para nós brasileiros, que os bleus se ferrem. Certo?
Eu, como socióloga sem função, fico pensando, o que rola? ¿Que pasa?
Quando um jogador parte para cima do técnico, algo anda errado…
Quando o treinador quer se pegar com outro jogador…
Quando a galera decide que não vai trabalhar…

Mundo moderno. Muita estrela para pouca constelação.
Todo mundo sendo criado para ser chefe, ninguém quer ser soldado.
Egos flamejantes.

Eu, sinceramente, quero zuzum de abelha.
Passarinho na grama.
Sol da tarde.
Não quero chefe, soldado, nada.
Eu gosto de trabalhar – não tenho saco para gente que acha que deveria ser chefe. Deveria estar em algum pódio porque acha que é o cara.
Eu entendo que o cara que se autoproclama “o” cara, desculpe a palavra, tem que usar microscópio para se achar.
Quero um canto sem tanto ego e sem tanta chatice.

Adoro futebol. Mas essa Copa está de lascar.
Vá ver o jogo do Brasil que eu tenho mais o que ler.

Roda mundo…

Virei a minha ampulheta hoje. Essa história de dar a volta ao mundo mexe com a gente.
São tantas informações e um sentimento de ser pequeno que é preciso descarregar a bateria toda para voltar.
E, como de costume, a volta foi violenta. Trabalho no feriado, fechamento de mais uma revista, redação cansada e um ou outro nervosinho – para deixar o time eclético.
Hoje dormi sete horas. Penso que não faço isso há mais de dez dias.
Não estou descansada. Mas satisfeita com o resultado. O olho ainda arde, mas lutei contra minha rotina.

...

Eu fico bem chateada quando não tenho tempo de escrever.

É que as idéias vem e vão embora. É preciso agarrá-las enquanto é possível.
Não me pergunte muito sobre a Austrália. Na “cidade mais distante do mundo”, você não vai ao restaurante, vai ao posto de gasolina trocar óleo pois tudo é frito, gordo, insosso. Vale pela cerveja – tomada na hora imprópria e bem gelada.
Para chegar a Sidney, cinco horas de avião. O Brasil fica pequenino.
O que me deixou louca foi a Nova Zelândia. Só pisei no aeroporto mas, do alto, vi verde claro, verde escuro, verde musgo.

A tal da energia faz o mundo girar.
Trouxe um queijo de lá. Mineiro é assim.

Nesses dias de cão, fico pensando nos egos.

Quando a gente perde o senso, o que acontece? Querer mais sem estar pronto para compartilhar. Poder é um negócio complicado. A briga é grande, mas poucos são os escolhidos.

Nesse blog que hoje nasceu enferrujado, lugar comum, penso, penso mas não coloco as idéias no lugar fora de casa.
Ultimamente ando rebelde.
Abandonei as vitaminas.
Segunda volto a minha ginástica. Ando procurando sem pressa uma yoga para voltar.
Fico pensando como Alice: “será que perdi o caminho?”

Em Pinnacles desert

O nome dela é Caster Semenya

Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?
Responda rápido: qual das moçoilas parece homem?

A sul-africana arrebentou nos 800m. Chegou 2s45 à frente da segunda colocada nesta corrida.
E tem só 18 anos.
Diferente, foi acusada de ser… Homem.
Nenhuma adversária foi cumprimentá-la depois da prova. Recebeu um único abraço: o da bandeira sul-africana.

A polêmica já começou nas eliminatórias. A queniana Jepkosgei liderava uma bateria quando foi tocada por Caster Semenya na última curva. A queniana sofreu uma queda e foi eliminada. Conseguiu no tapetão participar da final. Para perder – sem tombo.

Ser diferente.
Não ser mignon. Não ter o nariz da fada sininho. Não ter a pele alva.
Não fazer biquinho para falar.
Não ter os cabelos lisos e sedosos e louros e brilhantes.
Não comer pouco.
Falar palavrão.
E, além de tudo, ser a melhor do mundo.
Aí ferrou.
Ser diferente, negra e boa para caramba?
Só sendo homem.

No meu caso. Não consegui ser a melhor do mundo. Em nada. Risos.

Voltamos a minha última obsessão
(gosto da tradução do Houaiss – ■ substantivo feminino
1 Diacronismo: antigo. suposta apresentação repetida do demônio ao espírito)

Madonna.

Onde Sean, Carlos e Guy erraram? Onde Jesus acertou?

E voltamos às diferenças. Se uma diferença pesa muito, ela separa? Ou o momento atenua?
E, de fato, existem semelhanças?
Eu não tenho a menor vergonha de dizer: tenho pavor de encontrar meu clone.
Imagine alguém como eu. Seria um horror, um inferno.
Mas meu oposto também é um pesadelo.

Em 2002, voltei ao Brasil com uma sensação muito nova no peito.
Queria fugir. Para algum lugar. Para fora do planeta.
É sério.
Depois de uma longa temporada na ilha de Fidel, vendo gente pobre e instruída sofrer de falta de liberdade, os Estados Unidos se preparavam para invadir o Iraque. E invadiram no dia do meu aniversário: 19/03/2003.
As Torres ainda ardiam nos olhos de Bush. E o petróleo corria em suas veias.
Hoje, abro o jornal: 95 mortos no Iraque. Medo de votar no Afeganistão – moradores temem ataques dos Talebans. No Rio, duas inglesas condenadas por dar o golpe da mala roubada (para receber o seguro). Na política, ex-presidente escapa de acusações pesadíssimas. No barato, o cara usou (muito) dinheiro público em benefício próprio. No esporte, campeã da corrida é suspeita de ser homem.

Quando é que os caras começam a vender passagem para Marte? Eles aceitam vale-transporte? O carro como entrada?

A união dos polvos

doctor-octopusMomento de burocracia

 

11h20 – Consulado do México

Entrevista para visto marcada pela internet

O táxi para na porta. O segurança (brasileiro) ameaça mandar multar o carro porque é proibido parar no local.

Mesmo sem haver fila, o segurança – num total abuso da falta de autoridade – me faz ficar parada na porta.

Depois de um tempo, outro segurança me bota para dentro.

Um deles me informa que não posso usar celular dentro do Consulado.

Pedem para eu abrir a bolsa. Será que o fofs sabe que uma bolsa-saco não abre? Eu nem me dou ao trabalho. Deixo para ele a bolsa. Ele não mexe e me devolve.

Numa conversa rápida com o rapaz que confere os documentos, ele me conta que a reclamação é geral. Que os caras são trogloditas mesmo. É patada para todo lado.

mexico-visa2Uma hora de espera e duas perguntas depois, visto autorizado.

Na saída, adivinha quem está atendendo o celular dentro do Consulado? O troglodita.

Gente, o cara veste um terno preto num calor de 29 Celsius e começa a tratar a brazucada a patadas.

Isso porque trabalha num consulado xicano que pede visto porque os americanos mandaram.

Que vergonha!

14H30 – Banco Real do Centro Empresarial das Nações Unidas.

Pego minha senha de atendimento e me junto a 4 caras que estavam esperando há 15 minutos pelo atendimento.

Os caras, todos contínuos de grandes empresas não se falam.

Mas eu começo a perguntar: vocês estão esperando desde quando? quem é o primeiro da fila? você vai demorar? veio fazer o quê?

Caramba!

Todos eles se conhecem, embora nunca tenham se falado. Sabem quem demora mais. Quem só faz saque polpudo. Quem paga muita conta… Quem segura a fila.

E a conversa gera uma revolução. Um deles dá uma prensa num funcionário do banco.

O funcionário dá uma prensa na única caixa – que deve medir 1,40 – e a fila começa a ser atendida.

Pago meu visto. No site, falavam em 300, 400 dólares. Paguei 90 reais.

Às 16h meu passaporte chega. O visto é igual ao dos Estados Unidos. Cópia fiel.

Só que a foto ficou horrível e vale por dez anos.

Tô livre da burocracia mexicana até 2019.

Então fui.