Veneno eu bebo quente

McGrath
Pat para Dior (foto: Roxanne Lowit)
A voz sussurrada e a melodia precisa do trompete de Chet Baker – o que seriam delas não fosse o divino ser desdentado?
Heroína por heroína, Miles, Coltrane e metade turma da cadeira-cativa do Flamengo do jazz se lambuzou de ópio.
E tocou melhor que ele.
Mas sem dente e bonito de doer, só Chet.

Num mundo em que abundam termos como gordofobia, lugar da fala, feminazismos…
Ah, é preciso tanto músculo para continuar remando contra essa maré.
O que não dá é usar neologismo para esconder o que desperta o desejo: a beleza.
Buço, cueca por cima da calça, andar fantasiado por alguma ruela européia, postar seu último bolo no instagram – pode até ser cult, bonito não é.
Estética vem do grego e significa compreensão pelos sentidos.
Vai além do seu protesto cafona.

Patti, a Smith, tem uma biografia sensacional.
Eu, particularmente, devorei as páginas sobre o Sam Shepard.
E fiquei chapada com a descrição de como um corte de cabelo inspirado no Keith Richards a catapultou para a ‘fama’.

As belas rodam eras, mutantes, hora encaracoladas, hora tábuas.
Nem menina nem menino.
Seguem sempre presentes e geniais.
Para além da figura, elas têm um élan.

Não vale o borogodó que veio de graça, e pulou na platéia aos 20 anos, mas o que se fez dele.
Porque ser fugaz é para quase todos.
Ser bonito é para mitos.
Para sabedores de si que cuidaram do rico patrimônio.

No final, em era bichada, tudo sempre se harmoniza numa paleta meiga ou numa vanguarda da Pat McGrath. Uma Divine Rose original.
Aliás, Pat que é preta e gorda, é a maior entendedora de beleza feminina desse século torto e desembestado.
Quem nasceu para Michelangelo, querido, não se preocupa muito com o destino de David.

Tudo isso só para dizer que não existe conceito torto de beleza.
Não existe padrão.
Existe bonito.
Quem não gosta do bonito anda às turras com o espelho.

A dona da padaria não ficou para a historia
Patti Smith e Sam Shepard – circa 1971. (by Judy Linn)

Capítulo 7

Terça-feira.

Minha pequena

Quase não cabia em seu velho vestido.
Mais uma vez, o casaco de couro resolveria as coisas.

Não avisou.
Pegou as chaves e saiu.

Ainda era cedo.
Rodou pelas ruas, olhou portas de bar.
Estacionou.

Foi direto para o balcão.
Ficou ali, observando pessoas, ouvindo conversas.
Não era daquelas que, de tempos em tempos, olhava para o celular, fingia que mandava mensagens.
Bebida devagar para passar o tempo.

Quase ninguém percebia sua figura pálida, distante.
Pequena e frágil – quem diria.
Tinha olhos tão negros que não era possível ver as pupilas.
Um ou outro, com sorte, desviava o olhar.

Ali, todos falavam alto.

Ela gostava assim.
Mais fácil.

Enquanto buscava, bebia.
Pediu mais um. E mais um.

De repente, um frio na espinha.
Finalmente.
Dentes muito brancos.
Roupas discretas.
Bebia cerveja.

– Esse não sabe que não volta mais para casa.

Terra estranha

Carente

Domingo de pais, chove fino e pouco em São Paulo…
Trabalho cedo, como pouco e muito mal.
Saio para almoçar no bom e velho Astor.
Pela primeira vez, o atendimento é péssimo.

Ao meu lado, duas solteironas com sotaque nordestino jogam cabelos para o alto e dividem um espumante nacional.
Falam alto.
Solidão de inverno.

Mais adiante, duas irmãs com óculos enormes de grau e narizes descomunais.
Paulistanas da gema.

Franceses magérrimos e seus tênis coloridos sem o menor estilo.
Passam voando como passarinhos.

Como muito, não resisto…
Saio a caminho do shopping center.
Programa horrível e inevitável de um domingo cinza.
Vou ao semi-novo centro de compras dos ricos ou dos novos representantes da classe.

Volto ao começo do governo Lula.
Aeroportos cheios de gente que trocou a rodoviária por uma viagem mais rápida.
Muito salto alto, perfume, sacolinhas de operadoras de turismo para as massas.

Shopping hoje: gente produzida, maquiada, com sacolinhas de grifes falidas e investigadas pela Receita Federal.
Custe o que custar, uma bolsa jeca de matelassê com corrente dourada e o símbolo da falta de estilo.
“C” de cafona.
Para coroar, mantinhas marrons deixadas sobre assentos das praças “de convívio”.

Tenho ouvido várias histórias de culpas católicas…
Gente esclarecida, amigos e até desconhecidos que saem pelas noites geladas a oferecer cobertores para desabrigados.
Estão todos cuidadosamente dobrados e espalhados por cadeiras de vime plástico – tendência para piscinas e churrasqueiras em edifícios de arquitetura neoclássica.
Serão doadas depois que você se refestelar.
Pensei que carentes fossem os beneficiários das tais instituições.

Carentes são esses novos tempos.
Atirar coisas usadas aos pobres.
Porque as pérolas – essas estão nos pescoços.

Pode ir ao Procon e registre sua queixa.
Há uma lista com minhas iniciais.