Engraçadinha e seus amores

Por aqui, tempo louco de verão.
Chuva, sol, sol e chuva e, assim, sucessivamente.
Eu, sem tempo e sem nada fazer, vou olhando a vida pela janela do carro.
Quando dá, desço e me esbaldo.

Hoje, fugi.
Fugi para o parque, para a coruja buraqueira que, com sol a pino, dormia.
Fugi de tudo o que é sério e certo e caí na gandaia matinal.

No meio do caminho não tinha pedra.
Tinha telefone, Carlos.
E vinha gente inocente me chamar para o sul.
E gente sem jeito me dizer que tomei um pé.
Eu, agradecida, desliguei.
E tomei sol.
Com pé, sem norte.

Sol de janeiro.
Feliz e acelerado.
Dizendo que, em fevereiro, é carnaval.

Nylon

Começo o ano sem doméstica.
A fofa passou mês e meio na flauta – eu estava em Recife – e, na volta, depois de uma semana, resolveu partir.

bandida

Levou com ela alguns pertences (meus) – certamente porque terá muitas, muitas saudades de mim.
Um jogo de pratos, um apito, uma corrente de prata, uma máscara de Veneza, um soutien de renda, uma xícara feia de Paris.

Eu, um pouco exaltada, corri para a estante da sala.
Balzac, Rimbaud, Machado, Rosa, Drummond – todos intocados.
E bastante empoeirados sem a minha ferina presença de patroa.

Aliviada, desejei que, em pleno reveillon da Paulista, o soutien arrebentasse, que a corrente se partisse e, no ápice da chuva, ela tivesse que se ajoelhar no chão para procurá-la.
Ali, com os peitos escorrendo e a prata perdida para sempre na enxurrada, ela talvez se desse conta de que deixou ouro para trás.

Mal fechei o conto da ladra, cometi um ato freudiano.
Mandei instalar redes de proteção nas janelas.
E estou aqui, como bicho de zoológico, vendo a vida vazando por quadradinhos de nylon.
Certamente o mundo, agora, anda mais protegido dessa que vos escreve.

Da série: achados microscópicos

Ver a chuva da janela.
Conta-gotas.
Soprar asas de tanajura.

Ouvir música.
Tudo o que se mistura e vira água.
Saber bicadas e subentender piados.

Falar com a bisavó.
Lembrar do gosto de pão com manteiga e café com leite.
Esquecer dos pesos e medidas.

Dia de Carlos Drummond.
Se você é mineiro, pode.
Se não, ouça – só.

Fugir como passarinho novo.
Sem saber direito como agir, asinhas.
E voltar com o peito ofegante.

Jogamos com muita raça e amor
travessuras na garoa.

Derretidos

Para Leon Cakoff.

Luz e fúria

cereja

Virada do mês.
Os orientais dizem que a primavera é estação de tensões, agressividade e falta de paciência.

“Madeira – a fase inicial – a Primavera: o Yang dentro do Yin.”

A Primavera é o início de um ciclo, o momento do aparecimento do Yang dentro do Yin – ou seja, o Yin do Inverno começa a diminuir e o Yang a aumentar.
O frio começa a diminuir e os dias ficam maiores.
Agora, pura transição antes da estacão literalmente florescer, é momento de calor, frio, chuva, sol – confusão de estações.
Segundo dizem, este é o período mais dinâmico do ano em que tudo se renova e se exterioriza. Corresponde ao “este” (ao nascer do sol) e está associado ao vigor, à juventude, ao crescimento e ao desenvolvimento.
Esta é a fase expansiva, explosiva, criadora, despertando na natureza o desejo sexual de procriar.
E é também o momento de violência, de pavio curto, de confusão.
A cor verde predomina, o céu está mais azul, e, como o vento, tudo se agita.

Fique de olho no fígado, dome seu stress, segure seu ego.
Take care.
O momento pede.

Meu casaco de general

Acordei mais tarde, não ri das graças da macacada, mandei a tropa ao trabalho e fui fazer as minhas tarefas.
Dia produtivo, sem muita conversa ou poesia.
Segunda-feira.

Penso que as liberdades que damos e que de nós são tomadas configuram-se grande mistério.
… limites.
… respeito.
Na prática, a vida é luta.

Todo tempo e toda hora, com sol escaldade lá fora e chuva aqui dentro.
O dia, apesar da minha rebeldia que insiste em acreditar na doçura do caos, foi bom.
E cá estou sozinha às 17h31 fugindo para blogar e sonhando com goiabada cascão.

E que se cumpram as novas ordens.

assim, assim

Pé no freio

Frio

O frio graciosamente baixou sobre a terra da garoa e a vontade é de hibernar.
Você também tem esses arroubos?
Ir para uma caverna e desligar todos os equipamentos da tomada?

Converso com amigas que contam o que aconteceu em minha ausência – não que eu fizesse alguma falta.
Penso que todos sobreviveram às dificuldades.
Você também, tenha fé.

Penso nas obrigações da semana.
Nessa coisa chata que é treinamento de gente nova.
E nessa vontade de sair correndo, descabelada, sentindo o vento e chuva baterem no rosto.

Aí procuro o próprio umbigo e não acho.
E a dor no sacro apita.
Preguiça, inércia, inépcia.

Ai, frio macio.
Uma casa para chegar.
Um ver com graça de tudo o que não se encaixa.

Gaddafi caiu – e o mundo encontrará novos ditadores.

Café com bolo?

Um pedacinho?

Saído diretamente do maravilhoso mundo do bolo de caixinha, um dia e tanto.

Acordei tarde – dormi mais tarde ainda.
O calor escaldante fazia com que o banho gelado fosse obrigatório e repetido três vezes ao dia.
Um momento salão incluído no cardápio.
Flores e uma batida chatinha na minha roda – que bom é não ser homem e só falar: “ooops“.
No estacionamento, 20 minutos de explicação para a turma.
– Não, não estou mais na Berrini, trabalho em casa.
Desconforto básico ao ver que os dois ouviam uma explicação diferente:
– Virei madame, agora só faço bolo de coco e bato a roda liga leve do meu carrão no meio fio da Dr.Arnaldo.
Seu Creisson, não traduz, please!

No almoço, comida de sexta-feira. Macarrão com macarrão.
Nada de saladinha, frutinha, saudezinha e vitamininha.
Flores do campo.
Girassóis.
Minha Mafaldinha chega na latinha.
Roupa de cama florida para dar um ar caipira a São Paulo.
Banho na Alice.

Mais uma rodada de mil conversas com fornecedores.
– Pois é, cara, o cliente ainda não deu retorno e, se você não puder segurar o orçamento, paciência.

Bolo de caixinha.
Coco gelado.
Vai ficar perfeito com meu sorvete que veio por engano.
Crocante da La Basque.
Facebook.
Mais um momento de superexposição narcisística.
Flores, gatos, bolo e outros quitutes.

Calor.
Calor.
Calor.

Banho gelado.

Sexta-feira abre alas e me traz uma chuvinha de verão. Vontade de sair para a rua.

Chá com pão árabe, coalhada seca e azeitona preta.
Penso no bolo e digo: “até amanhã”.
Vejo a série francesa no GNT e falo francês, com biquinho, sozinha em casa.
O roteiro é sempre o mesmo:
– Je ne parle pas très bien le français, mais je comprends ce que vous dites. Si vous ne parlez pas trop vite …
Ah … J’ai étudié deux ans et j’ai passé près de trois mois à Paris. J’écris mal et ma grammaire est mauvaise.

Calor.
Mais um banho.
Bolo na geladeira.
Bolo de coco.
Sexta-feira balzaca.
Sem álcool e sem censura.

A mesma praça, o mesmo banco

O ano começa numa grande expectativa e mostra que nem tudo é renovação.
2010 (lembra?) abriu os serviços com Angra dos Reis desabando sobre cabeça e membros de muita gente. Depois foi a vez do Rio e de Niterói.

Em dezembro passado, um amigo gringo superdesavisado anunciava, feliz, que iria passar o reveillon em alguma cidade do litoral fluminense.
Eu logo joguei um balde de água fria: todo cuidado é pouco!

Nem preciso contar que a virada dele foi debaixo d’água e ninguém imaginava que mais de seiscentas pessoas iriam partir desta para debaixo de lama, sem socorro e sem despedida.

Nossa língua – difícil e muitas vezes maltratada por esta que vos escreve – algumas vezes nos coloca em xeque.
Nascida há cerca de dois mil anos, filha dos povos pré-romanos que habitavam a região ocidental da Península Ibérica, a língua portuguesa virou hit nos séculos XV e XVI quando os reis das piadas de padaria estabeleceram um império que ia do Brasil, na América do Sul, até Goa, na Índia.

Vasta distância, muita gente colonizada, e a língua foi virando uma criolice doida que logo confundiu “x” com “ch”, “s” com “z”.
E é por isso que, hoje, os jornais insistem em culpar o Aquecimento Global pela tragédia.

AQUECIMENTO não, cara pálida, ESQUECIMENTO.

Esquecimento proposital e político porque tirar pobre de beira de rio e de encosta de morro dá um trabalho danado, gera manchetes e imagens de famílias desdentadas chorando e arrastando seus poucos pertences pela telinha superpovoada. Imagens que serão amplamente usadas pelos adversários de urna e que, certamente, inflacionarão o mercado de compra e venda de votos.
ESQUECIMENTO porque desapropriar mansões em área de risco é algo que não se viu na Colônia. Taí a história do ex-governador de Roraima para exemplificar uma questão tão nacional.

Lendo meu jornal paulistano fiquei sabendo que, em Brisbane, na Austrália, onde a enxurrada também mudou a geografia, 25 pessoas morreram e dezenas estão desaparecidas. Alguns tubarões apareceram asfixiados no asfalto. Koalas, cangurus e cobras sobreviventes agora correm risco por não encontrarem água e alimento.
Lá, tenho certeza, o aquecimento global será preso, julgado e condenado.
Aqui, quando não é culpa do povo, que constrói em área de risco, a culpa é de São Pedro.
Claro, ele deve ter alguma coisa com a história, afinal Pedro vem do grego Petrus que significa pedra, rocha. Os católicos aprendem cedo que Jesus, antes de se mandar, deu novo nome ao apóstolo Simão e disse:
-“Pedro, tu és pedra e, sobre esta pedra edificarei minha igreja”.
Pois a culpa não é da região pedregosa, onde a água da chuva não se infiltra e arranca a terra onde estão casas, pessoas, cachorros, cavalos e galinhas – todos irregulares e inconsequentes?
A culpa de São Pedro então está comprovada.

Eu, no meu domingo de sol, acordei revoltada com a irresponsabilidade política, impressionanda com gente que não teve a sorte de ser estilista nem sócio de banco e que perdeu pai, filho, mãe e continua com o pé na lama tirando corpos e salvando gente que há dois dias espera por socorro.
Gente que perdeu tudo e que está em estado de transe, tentando arrancar pedaços de gente da lama.
Gente que, de certa forma, teve alguma sorte de não ser classe alta e que, portanto, não foi amplamente fotografado, falado e comentado enquanto enterrava 2 filhos, a irmã, o cunhado, 4 sobrinhos, mãe e pai.

Este sentimento de impotência, esta vontade de sair gritando, louca, pela rua contra a bazófia, esta vontade de chutar pessoas e de beijar os cachorros, este grito que mora no peito.
Esta dita coragem que me faz seguir em frente mesmo assim.
Este confessionário em berros.
E eu penso: qual é a palavra para “blog” em português?

Segundos, minutos, horas

Como dez dias passam rápido.
Muitas vezes, demoram.
Eu fico pensando em Som e Fúria e o relógio sem ponteiros.
Quem é o carrasco?
O tempo ou o relógio?

Hoje acordei muito cedo.
Não entrei no mar.
As caravelas vieram até a areia e preferi um banho de chuveiro.
(virei uva-passa na piscina)
Dormi, acordei de sopetão.
Subi na cadeira.
Olhei para o céu.
Corri.
Cheguei um minuto antes da chuva cair.
Deu tempo de salvar as roupas que estavam secando ao sol.

Sou assim.
Previdente, organizada.
Vento…
Voou como meu tempo aqui.

Agora é barco, estrada, avião.
E uma vontade doida de colocar rédeas na vida.
Ano bom.

Foi dada a largada

Jantarzinho e integração quase total entre cachorros e 14 bangalôs.
Quando o ano começou, ninguém fez contagem regressiva.
Vimos uns fogos do outro lado do mundo e soubemos que 2010 tinha partido.
Nossa garrafa de litro e meio de champagne foi distribuída entre funcionários e novos melhores amigos.
(Não que faltassem garrafas, mas gosto dessa coisa de compartilhar)
Uma cesta de rosas brancas e amarelas, uma vela…
E Alice entrou no mar, recolheu tudo e destruiu as oferendas na areia.
Uma cena engraçada.
Ela incorporou Yemanjá e não deixou nenhuma das 14 cestas escapar.
Foi uma rosa-vela-ficina.
E a bichinha virou um cachorro empanado pegando onda à noite.
Depois de chuva-para-chove-para-chove, o primeiro dia do ano foi puro sol.
Eu passei todas as minhas horas na praia.
Só curtindo o calor e o sal.

Benvindo 2011.
Venha macio e devagar.

Happy