Aula inaugural

Do Zoom para o Google Meets num átimo de segundo: por que fui inventar de me comprometer?
Agora, aguenta!
Link, conectar…
Cinco minutos de atraso – você fica para o final, pode ligar o vídeo e abrir o áudio quando chegar sua vez.

Pronto, sabia!
Um grupo inteirinho formado por mulheres.
Pior: mulheres da geração que queimou sutiã.
Uma fala inglês entre as frases em português, outra explica que trocou Letras por Medicina para fugir da conversa fiada.
Tem pesquisadora da Fiocruz – eu lembrando da minha visita aos macacos reshus em outros tempos, outros vírus. Promotora – essa, aposto, tomou cafezinho com o Moro.
Clarice é muito sombria, Cecília, ou isto ou aquilo.
É mandatório deixar Stanislaw de lado porque, em tempos de  ‘mexeu com uma, ninguém solta o filtro do Instagram de ninguém’, falar de lista das “Mais bem despidas do ano” pode acabar em passeata.

Eu começo a ficar com fome,  já abri e fechei a geladeira duas vezes.
Depois dessa aula, eu ainda tenho que sair para comprar discos de algodão.
Enquanto ouço as histórias, penso no pagamento já realizado – mania de ir logo passando cartão…
Se tivesse esperado, ainda poderia desistir.
Mas como vou deixar mamãe sozinha?

Respiro fundo, tento assimilar o recado: deixa o texto dormir.
Quando acordar, já é outra história.
Eu deveria deixar o dinheiro dormindo.
Ou a história.
Ou o curso de crônica, sei lá.

Tem ex-secretária de turismo, tem filha de escritor… E até gaúcha do interior.
Três mineiras de Belo Horizonte.
Uma aluna estava, ao vivo e de máscara, dentro do avião.

Bebo um golinho rápido, olho para a mãe, refletida na tela de LCD.

“- Boa noite, meu nome é Antônio.
…eu?
Fui presidente de multinacional.
Morei fora muito tempo.
Fiz meu MBA na Science PO.
Nesses tempos de pandemia, tenho aproveitado para participar de cursos online com minha mãe.
Já fizemos degustação de vinho, aula de meditação, de pão com fermentação natural, acabamos hoje o curso de auto-maquiagem.
Mamãe escolhe, eu pago e acompanho.”

 

Antônio, ou o bendito fruto