Cronica da pandemia

My business

Check up, exame de sangue. Hospital.
Na porta, fila, formulário, viajou? (com aeroporto lacrado desde março, colega?), febre?, esteve com alguém contaminado…
Tirei uma foto da aglomeração e já estou no terceiro email recebido do Hospital para entender por que fila, por que caneta e papel e prometendo melhorar.
Ultimamente tenho repensado a velha discussão sobre o uso da máscara x democracia.
Em meu ponto de vista absolutamente particular, sacrificar seu direito de ir e vir e o de falar o que vier à telha não dói nem te deixa mais pobre.
Deixa deprê um par de vezes. Afinal, você sabe que fim levou Robin.
Mas ser “livre” para andar de carro blindado, para ter segurança debaixo da guarda-sol na porta do condomínio, livre para ser assaltado 24×7 e para tomar vermífugo e cloroquina… Livre.

Ando querendo é sombra e uma água que passarinho não bebe.
Se tiver que dizer amém, não serei a última…

Mudando de assunto, agora rola uma revoada.
O país é caro e não é para todo mundo.
A economia está devagar e, seja por decisão própria ou um empurrãozinho da empresa, tem gente vendendo tudo e se mandando…

Depois de 45 anos de praia, não chegou minha vez.
Chegou a volta do trabalho, a ralação com desejo de vinho à noite.

E o saber que até 2021 estaremos nesta gaiola de ouro, curtindo um bico bem calado.

Eleições

Salve a democracia.
Onde homens de bem se apresentam para representar homens de bem.
Altruísmo puro, comunidade acima de todos. Deus descansando.

Em 10 dias, banners foram organizados como que num jardim japonês.
Um com o raio da Zoomp, outro com um solzinho, um martelo, uma nave espacial, coraçãozinho, bambolês da Audi, mãos se cumprimentando.
Logo se vê que aqui não é lugar para designer gráfico.

Vez ou outra o caminhão cheio de cartazes passa com o som ligado e a carroceria vazia.
“-Pamonha, pamonha, cocaaaaaaada” – em 4 línguas.

Em toda a Ilha o PAP(i) já venceu.
Mesmo que pesquisa de intenção de voto seja proibida por lei.
É que o ser humano é acomodado.
É preciso cortá-lo a golpes de machado para que ele saia da frente do celular.
Nem precisa de missão da OEA corrompida para colocar em xeque a urna.
Deixemos de lado as latinidades.

Falando nela, boca de urna?
Esqueça.
Em boca calada não entra mosca.

Para a oposição fazer ventinho, tem que derrubar coronéis sentados em 3 mandatos.
Não que o novo coronelato queira fazer a revolução.
Todos têm casa.
Comida.
Emprego e cheque-auxílio em caso de pandemia.
Carro, não.

Quando o líder fala, a multidão aplaude animada.
Críticas só à meia luz, na encruzilhada.
Dizem que posts de Facebook ventilam denúncias.
Sobre uma idosa que morreu em casa e só os ossos foram descobertos – o tempo, ah, e o calor de 32oC.
Sobre o filho do figurão que usa drogas (pena capital, o cara é faca na bota) e adora menores de idade.
Sobre a antiga disputa em torno da casa do fundador.

Eu, forasteira, sou alvo primário em caso de desastre.
Ajoelho em prece todos os dias pedindo para não me mandarem de volta.
Enquanto morrerem velhinhas e uma casa em ruínas seja alvo de confusão, vou ficando por aqui mesmo.

Para a tal democracia não retornarei jamais.

Eu achei a nave espacial sugestiva

Numa relax

Mago Tim, que eu tive o privilégio de ver ao vivo, com suas pérolas de sabedoria torta.
Dinheiro é a causa, mas que não me falte até que ele seja tirado de circulação – bien sur.

Abriram-se as portas da esperança, e ando dando umas saracoteadas, um café, um restaurante – máscara, álcool-gel e outros acessórios incluídos.
Não sei se é vontade de ver gente (nope) ou necessidade de me distanciar socialmente da minha cozinha (please).
Em terra de rico e com democracia de mentirinha, um bando de estrangeiro está picando a mula.
O que tem de coisa boa sendo vendida a preço de banana… Ryca que sou, vejo tudo, acho uma beleza e não compro nada – tenho quase tudo o que preciso nesta vida.
O que tem de gente cansada de ser teleguiada por um governo que nos têm em rédeas curtas…
Aqui, o sistema é de delação gratuita: você fotografa, denuncia e o meliante (tomando um chopinho na rua, fazendo ginástica em grupo com mais de cinco pessoas) vai para o tribunal.

Importante notar que o vírus está controlado. 26 mortos.

Eu, depois de me mandar do Brasil, tenho me questionado muito se democracia é uma forma realista de governo.
Porque pobre não quer ou pode pensar em liberdade, mas no básico: comida, moradia, saúde.
Rico é que fica com digressões filosóficas sobre ir e vir.
Eu, sinceramente, era livre e massacrada.
Trabalhando por pouco, pagando sempre muito, equilibrando os pratos.
Hoje estou sequestrada com crise de Estocolmo (quem sair, não volta) e engolindo minhas observações políticas em troca de uma vida mais tranquila no quesito ir e vir dentro do cercadinho.
Podendo, a gente pula umas cercas só para exercitar os músculos.
(Ano de eleição por aqui e espalharam uns banners bem mequetrefes de candidatos – eu adoraria desenhar dente preto, bigode e chifrinho nas fotos).
Detalhe: candidatos anunciados dia 01/07 e eleição dia 10.
Se fosse no Brasil, a gente ia chamar esse processo de palhaçada.

Cada palhaço no seu circo e qual é a música, Maestro Zezinho!?

Che e outras elucubrações

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Ontem fomos ver o filme estrelado por Benício del Toro.
Foi bom ouvir o sotaque cubano mais uma vez. Nem todos os atores conseguiram fazer.
Rodrigo Santoro, que vive Raul Castro, bem que tentou.
Mas deu umas derrapadas no espanhol que são passáveis.
Benício Del Toro está grande.
E me parece que o filme foi rodado na terra dele, em Porto Rico.
Mas os cenários são Cuba, Cuba, Cuba.
E nada mudou.
Isso é assombroso.
Os cubanos vivem num universo congelado.
Os meninos que pedem para fazer parte do grupo dos guerrilheiros se vestem como parte da juventude cubana se veste hoje.
E eu, que desci de paraquedas na ilha, fiquei o tempo todo pensando: deu no que deu.
E, paradoxalmente, senti saudades da ilha.
Quando morei em Cuba, tinha 27 anos.
Tinha dúvidas – e ainda tenho.
Tinha uma ousadia de largar o certo pelo incerto – e isso ainda passa.
Talvez seja eu.
Numa auto-sabotagem ou numa rebeldia genuína.
Tinha quilos a menos (!)
Tinha cabelo curto e uma vontade grande de fazer cinema.
E não gostava da esquerda.
Saí da ilha com ódio a Fidel – mais do que quando entrei.
Com pena e raiva dos cubanos – afinal, são corrompidos, perderam a pureza.
E com a certeza que o neoliberalismo é a única saída.
Prefiro morrer no caos, no olho por olho.
Do que amarrada a um regime que se pretende igualitário.
Que sofrimento maior pode ter um povo.
Que receber educação e instrução.
E viver preso numa gaiola?
Sou mais a ignorância.
Porque o buraco ainda é buraco.
Abaixo, algumas fotos de Cuba entre 2001 e 2002.

Minha estréia na direção - numa piscina olímpica vazia
Minha estréia na direção - numa piscina olímpica vazia
Dirigindo os atores com uma amiga de El Salvador, Maura
Dirigindo os atores com uma amiga de El Salvador, Maura

Fábrica abandonada pela família Baccardi
Fábrica abandonada pela família Baccardi

Dirigindo o 2 filme
Dirigindo o 2 filme

Com a família que me emprestou a casa
Com a família que me emprestou a casa

Em Baracoa com roupa típica
Em Baracoa com roupa típica

Moderna fábrica de roupas
Moderna fábrica de roupas

No set, montada
No set, montada

Como atriz, usando roupas de Morango e Chocolate
Como atriz, usando roupas de Morango e Chocolate

Com o diretor, Terence Piard, e uma arma de verdade
Com o diretor, Terence Piard, e uma arma de verdade

Uma venda, típica em Cuba
Uma venda, típica em Cuba

havanavieja
Como cubanos vigiam cubanos
Como cubanos vigiam cubanos

Carona em carro de boi
Carona em carro de boi

Granjita Siboney - para onde Fidel fugiu e quase dançou
Granjita Siboney - para onde Fidel fugiu e quase dançou

Papo en Passa Caballo
Papo en Passa Caballo