Desejar a morte

De tempos em tempos, nossa consciência coletiva imaculada vem gritar loucamente, avisando que não pode.
Eu, do alto de minhas redes sociais abertas, blog sem pernas cruzadas, balança escondida no quartinho, fico pasma.

O texto, baseado inteiramente na teoria/ética do consequencialismo, é curto e direto.
E até meio bobo.
O jornal, apesar de todas as mazelas e fraquezas, fez o que deveria fazer: publicar.
Mas não deve, não pega bem.
O que você deseja para o outro pode vir para você (e o artigo é aberto versando exatamente sobre essa linha torta de pensamento).
No caso, não é um desejo real do autor, mas fica sendo para quem não passou do título – obra de arte do marketing de chamada de impresso.
A MORTE,  amora da minha vida, vai chegar para você.
Você a desejando ou não.
Portanto, o anúncio quase evangélico do pecado, do eterno retorno, da culpa não cola.

(Se você conseguir passar do título).

Para mim, o próprio momento é um clássico do consequencialismo.
De Fernando a molusco, de molusco à dentifrício, de cachorro atrás do menino a milico.
É a tal da linha reta.
Fui fondo, fui fondo, gol!

Para mim, foi a partir da mulher sapiens que alguma coisa não desceu.
E eu fui sentindo uma angústia danada, um sentimento de ser forasteira em terra santa.
A língua ganhou x, o empoderamento praticamente criou um Houaiss do novo mundo, o lugar da fala (que sempre evoca uma carteira de escola e a palmatória)…
Na segunda coroação da mandioca brava, eu celebrei.

À fuga, ao balde chutado, ao mato aberto a golpes de facão, às facas e garfos na bota.
E como tende a acontecer com quem não espera muito da vida, abri minha clareira.  Sim, senhores, quando cheguei, eu era mato.

Mas não politizemos (demais) o tema.
Eu costumo querer a (dos outros) com grande frequência.
Algumas vezes gostaria de eu mesma dar cabo da empreitada.
Pode ser um desejo a um reles desconhecido na fila do caixa.
A um parente que resolve sair sem máscara.
A um ex amigo ou amante.
Se tenho essa facilidade em querer o fim de gente de carne e osso, o que não dizer sobre esse povo feito de plasma e LCD?”
Quando o avião com o candidato, com o ministro do STF, quando o helicóptero com o Ulysses Guimarães, o com a mulher do empresário…
Ah, tanta gente que poderia ter embarcado no lugar deles.
Peixes graúdos, graduados, gente com poder para atravancar a vida de tantos…

Eu não sei direito, mas faz um tempo que a hipocrisia venceu o medo.

Então brindemos ao medo.

mato
retrato

Capítulo 12 – O bode

humble is my buzz
humble is my buzz

A vaca sagrada no meio da sala.
O bode profano no quintal.

Nessa vida independente, sem garotos chatos no pé, sem viagens ao redor do mundo na classe econômica e sem trabalho insano e inútil no fim de semana, tudo é muito tentador.
Você pode fazer absolutamente o que quiser e a toda hora.
E, não raramente, você quer mesmo é ficar quieto.
Porém, é preciso ter fé.

Esta semana, as estruturas da minha Igreja foram novamente abaladas por multinacionais com propostas polpudas e a velha história de geração Y, viagens low cost e pilhas de trabalho.
Ok, é a marca mais cara, adorada, tecnológica do mundo.
Certamente “você” vai parar na Califórnia.

Tive que atualizar o Linkedin.
Falar mil vezes em inglês. Até em espanhol e francês.
Pensei, repensei.
Liguei para os universitários.
Fiquei com gás. No pique.
A torcida toda mandando seguir em frente.

Entrei numas.
Chamei o bode e vaca.
Tomamos um dry martini.
Fizemos bebê dormir.
Terminamos a noitada num pacto.

Recusei.
Minha vida agora é essa: sem gente chata, sem viagem de pobre, sem fim de semana de trabalho desperdiçado.
Release? Videozinho?
Fofoca de corredor!?
Sacou tudo, Batman.

Sorry, periferia gringa.
Money is all I get.

Oportunidade, o velho dilema

(!)

Pois é – a vida continua.

E não é que me cai do céu uma história linda para quem é leve e solto?
E eu, com espírito livrérrimo, corpo enraizado, não comprei logo de cara.

(É que mudei.)

E o lado de lá tem que estar ciente da minha mudança.
Eu topo, mas preciso de um tempinho para o meu pequeno.

(Eu sempre soube que isso iria acontecer e, agora, de prima, fiquei espantada com minha firmeza.)
O pacote mudou, mas sou eu ainda de fato.

(Creia. Aposte.)

E com mais pique, mais gana, menos dispersa.
Livre (pero no mucho), leve (de mentirinha) e soltinha na marola para fazer coisas bacanas.

Eu voltei.