Roteiro

Interior dia.

Chuva de verão.

Cena 1 – Eu corro histérica para recolher as toalhas no varal.

O pezinho de limão fica para trás em festa.

Cena 2 – Na tela, as compras não entregues de ontem.

Os queijos, elemento essencial de um bom amanhecer.

Interior. Camisola. Passa das 10 horas. Sem café.

Navegando pelo Facebook, a amiga faz poesia de perna quebrada com pandemia. Eu devolvo com pão de miga – uma contra-rima fraca com certo afeto para uma que não deu certo.

Noto que aquela artista que nasceu decadente, punk de boutique, com um senhor retrovisor na juventude, não me segue mais.

Engraçadas as redes, nunca nos seguimos, no máximo andamos em paralelo, encostando aqui ou ali quando as retas saíam tortas.

Ela, morando de favor na casa daquela cuja mãe era esquizofrênica. (…)

Sem muitas curvas e a pele branca. 

Um saber muito bem que era preciso aproveitar enquanto (não) houvesse.

Histórias de composição da persona.

A briga com o pianista que acabou na delegacia – hoje já muito amigos de novo porque o mito, como sempre, pode render alguns cobres.

O canto lírico.

O filme.

A fama (vã).

O tempo.

A voz, perdida.

As curvas arrendondadas a modo de denunciar a raiz.

De serva de Baco, de Eros à matrona.

Modinha do Vale do Rio Doce.

Os traços, o buço, o queixo duplo.

O depender de marido.

O útero estéril.

A idade, quando nos atropela, é como vírus de cepa 2019, sai arrastando pela avenida, seja tanto para vidas que importam quanto para as que não. Ela é da maior democracia.

Chamar-se de fada com mais de 50 – a arte também tem prazo de validade.

Com os anos, migalhas de aplauso.

Enfim, termina assim, seco, como pão caseiro feito com levain, este conto do poema “pãodemia”.

Quem quiser um naco, saia da fila.

William Hogarth
Pintura del cicle Marriage à-la-mode, Escena: Shortly after the marriage (William Hogarth)

Tem fogo?

panda-matches

Até agora a yoga é um projeto. Será que farei só uma vez por ano?
Eu tenho pensado muito sobre mudanças.

Qual é a mola propulsora dessas guinadas que nos viram do avesso?
Um gesto? Uma palavra? Uma situação? Um devaneio impensado?

Depois da minha amiga Guta, e da Dedé Sendyk, eu sou a pessoa que mais viaja nesse pedaço. Quer checar? Vá no mapa do lado direito do blog e clique. Estão ali as viagens que fiz de janeiro até agora.

Então, seguindo esta lógica, uma viagem não é desculpa para acionar uma mudança na vida.
Ainda mais uma viagem que é um repeteco constante.
Porém, minha última viagem transformou-se em algo que ainda não sei explicar. Só sinto que, ao atravessar o saguão do JFK e pegar o yellow cab, algo aconteceu.

Indo fundo – Mito de Pandora

* se vc já conhece a história, pule para o próximo tópico.

Segundo a mitologia, a Terra era sombria e sem vida. Os deuses começaram a dar vida e pôr cada coisa em seu lugar. Mas faltava um animal nobre que pudesse servir de recipiente para um espírito. A tarefa coube aos titãs Epimeteu (aquele que reflete tardiamente) e Prometeu (aquele que prevê).

Epimeteu criou os animais. Prometeu pegou terra e molhou com a água de um rio, obtendo argila. Com ela moldou um ser – ainda sem vida. Esse ser ganhou todas as boas características do animais, mas ainda faltava algo. Prometeu tinha amizade com uma deusa, Atená, que deu ao homem o espírito que lhe faltava.

Após ter destruído o próprio pai, Zeus voltou as atenções para a humanidade recém-criada e dela cobrava devoção, sacrifícios em troca de proteção. Em defesa do homem, Prometeu e Epimeteu foram a Mecone (na Grécia). Eles mataram um belo e imenso touro, partiram-no ao meio e pediram para que os deuses do Olimpo escolhessem uma das partes; a outra caberia aos humanos. O maior monte tinha apenas ossos e sebo. Com soberba, Zeus escolheu o monte maior e, ao descobrir que tinha sido enganado, decidiu vingar-se negando à humanidade o último dos dons que necessitavam para se manterem vivos: o fogo.

Com o objetivo de salvar sua criação, Prometeu roubou uma centelha de fogo celeste e entregou aos homens. Zeus decidiu se vingar. Aprisionou Prometeu na parede de um penhasco e suas vísceras eram comidas pelas aves de rapina. Como era imortal, a tortura se repetia todos os dias.
Antes de ser aprisionado, Prometeu deixou uma caixa com Epimeteu. E pediu que não deixasse ninguém se aproximar dela.

Para se vingar do homem, Zeus criou a mulher que recebeu qualidades de cada um dos deuses. Seu nome: Pandora. Zeus a enviou de presente para Epimeteu.

Ela o seduziu e Epimeteu caiu em um sono profundo. Pandora abriu a caixa e libertou quase todos os males que estavam lá. Amedrontada, Pandora fechou a caixa. Dentro dela ficou o último e mais importante mal: o que destrói a esperança.

Voltando ao universo particular

Nós mulheres somos amaldiçoadas pela mitologia, pelas religiões.
Por isso mesmo somos endemoniadas por natureza.
Não se aproxime. Risos.

Abrir a caixa de pandora, como se sabe, é liberar os demônios.
A psicanálise, a filosofia, a teologia têm explicações menos toscas do que as minhas.
Mas o fato é que havia uma caixinha de fósforos da marca Pandora em NYC.
E eu queimei vários fósforos.
(Acho que meus demônios de verdade foram libertados algum tempo atrás, quando decidi que iria fazer tudo errado e me jogar na atividade que me dá prazer: remar contra a maré e ainda ser establishment)
Eu entrei no avião cansada e cheia de pepinos para resolver e voltei muito plugada e com tuuuuudo resolvido.
E me atirei numa série de ondas agitadas sem medo.
Que sou meio shock and run, sou. Mas minha origem me segura. Sou das Geraes.

O fato é que tem muita coisa (boa) acontecendo.
Tô limpando a área. Tirando o(s) macaco(s) do ombro.
Dando um boot no HD.
Tirando os aplicativos que não uso.

E o processo – que tem leves baixos e muitos altos (!) – está bacana.
E eu estou me (re)encontrando. E descobrindo que não sou mais a mesma.

Uau.
Que demônios eu libertei?

Bilhete a Baudelaire

Foto criada em 2009-10-29 às 10.47 #2

Poeta, um pouco à tua maneira
E para distrair o spleen
Que estou sentindo vir a mim
Em sua ronda costumeira

Folheando-te, reencontro a rara
Delícia de me deparar
Com tua sordidez preclara
No velha foto de Carjat

Que não revia desde o tempo
Em que te lia e te relia
A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

Como passou depressa o tempo
Como mudou a poesia
Como teu rosto não mudou!
(Vinícius de Moraes)