Garrinhas

Ah! Abriram-se as portas, a rua do comércio encheu-se de mascarados.
Hoje, depois de um mais longo e úmido verão, a vida acordou lá fora.
Logo cedo, a turma da dedetização bateu à porta para – achei tão delicado – “colocar para dormir” as formigas.
E tentar dar um jeito na mosquitada que se reproduz nas minhas helicônias.
Verdade seja dita: não fosse o oportunismo da dengue e uma riqueza fugaz, eu conviveria feliz com os insetos.
Mas nem terminaram e eu já estava pronta para desenferrujar.
Foi manutenção preventiva – polimento de garras -, rua, celular, carro, estacionamento.
Pulei o almoço, trabalhei – ao ar livre -, arrematei a sexta com reunião happy-hour para discutir a sorte nesse futuro incerto.

Heliconias
Se não for tropical nem me convida

Em alguns momentos, perdida no caminho.
O cérebro limpa tudo o que é supérfluo.
Em outros, incomodada com os barulhos da coletividade.
As duas australianas, aos berros, saíram com menos unhas numa nuvem de mau querer.
O estacionamento, lotado, nunca antes neste país.
O barzinho, zero copos para lavar

Ah. Eu sei – a vida que eu reneguei é forjada na bigorna.
Nada dessa placidez burguesa.
Eu aqui, enrolando a prosa, para dizer que tudo vai ficar bem.

Ainda não me decidi.
Essa coisa de viver a casa – e fechar a porta para a rua.
Isso é que é.
Já dizia o poeta – perto do osso é mais gostoso.
E ainda assim, doloroso.

Ressaca

Quando chove na metrópole, o mundo para.
Árvores desistem.
Faróis de carros parados criam uma atmosfera de filme noir.
Meia-luz e céu sem estrelas.

Eu? “Elucubrista”.
E o pau que a Yoani anda tomando?
Como se o governo da Ilha merecesse mesmo qualquer defesa.
Enquanto isso, a Venezuela reedita seus fantoches.
Se fossem checos, talvez tivessem graça.
No outro continente, heróis da perna de pau enjaulados.
Chinês que paga por cirurgia plástica em cachorro.
E moças que se autodenominam “rycas”.

Os dedos coçam para ler toda poesia de Leminski.
Fazendo as contas, tenho 6 anos para beber mais do que ele.
Por que poesia…
Tmbém posso começar a fazer judô.
Por que não?

No Rio, faz 40oC à noite.
Como filhos fiéis, todos de cervejas a postos e pés na areia.
Rio.
Pouquinho.

pelos caminhos que ando
um dia vai ser
só não sei quando
(p.l.)

Na terra, na água, no ar

céu
tarde

Enquanto vôo como pardal faminto (agora num Gol a caminho de Sampa), tenho acompanhado com apetite a novela Esperança 2.
Ela é mais um sucesso da TV que estréia em novo formato.
Uma história de polícia e bandido com discurso oficial transmitido pelos telejornais.
Cenário: Rio de Janeiro.

O poder de um discurso.
Como jornalista precocemente aposentada, tenho celebrado a cada dia minha decisão de flanar em outros terrenos.
Quando leio opiniões de ex-colegas de trabalho sobre a tenacidade da equipe que acompanhou as incursões na Vila Cruzeiro e no Alemão, eu penso em Tim Lopes.

Tim era um jornalista à moda antiga.
Foi um amigo quando entrei na Globo.
Me levava para o café, contava causos, ajuda.
Eu, fantasiada de boneca que aparece na telinha, comi o pão que o diabo amassou.
Caras, vocês não sabem o que é cair de pára-quedas neste mundo maravilhoso dos Bozós.
Nego torce para você cair.

Eu.
Excesso de opinião e incompatibilidade com o coiffeur e um talento danado para não me encaixar numa baia.
Talhada para escolher o caminho mais difícil

Bom, esse discurso todo é para dizer que, para mim, Tim foi longe demais em sua dura tarefa de garantir a comida no prato.
E sua empregadora não surpreendeu ao deixá-lo à mercê da sorte.
Hoje, vendo a tchurma iludida com esse papo de “momento histórico”, confirmo que meu mundo é outro.

o*o*o*o

Do outro mundo.
Estou viciada em Mad Men.
Acho que algumas vezes nos “vemos” nos filmes, nos livros, na arte.
As histórias subliminares.
Mad Men é muito da minha vida hoje.
O publicitário Junior, o sênior, a secretária, a dona de casa – eu estou todos ao mesmo tempo.
E a sensação de segurar as pontas por um fio que se esgarça é universal.

o*o*o*o

Eu queria ser porra-louca como Leminski e Vinícius.
Mas o máximo que consegui foi ser um pouco menos certinha do que os meus.
E isso já dá muito trabalho.

Mal vejo a hora de encerrar 2010.
Esse ano foi uma montanha russa.
E minha versão 3.6 promete.