A venda

Atento aos sinais

Qualquer ser humano médio, não adepto do estilo fora-da-lei, e que tenha passado pelo menos um quinto da vida no Brasil é capaz de:
– sair do nada e ir para algum lugar;
– fazer gambiarra;
– antecipar se é assalto, sequestro ou delivery do iFood.

São décadas navegando por mares completamente escalafobéticos, não é, minha filha?

E é por isso que, para mim, o ‘novo normal’ é dissipar a poeira do caos, corrupção, fé cega e malandragem por meio de pés fincados em qualquer biboca onde pelo menos UMA lei seja rigorosamente cumprida.
Vale até Lei do Silêncio.

Corra, Lola, corra

2017.
Tal qual Scarlett O’Hara, agarrei a terra (estrangeira) entre os dedos e fiz um juramento:
” – Despachante, nunca mais!”

O apartamento paulista, fruto de suor, reforma e uma dose de loucura concretista, foi fechado.
Virou momumento ao “e se”.
E se tivesse deixado o dinheiro no banco, hoje não daria para comprar uma bicicleta de rodinhas.
E se der tudo errado, ainda tem casa.
E se faltar dinheiro, vende.

Dois anos se passaram e ele foi alugado.
Esperei com candura pelos novos problemas.

O inquilino

Antes mesmo de chegar a comprovação de renda, as redes sociais já gritavam.
Lobista, representante de big tech transformado em funcionário público, executivo de aplicativo estrangeiro que incentiva a restauração do movimento escravagista, persona tornada pública em vídeo da Lava-Jato no YouTube.
De brinde, namorada blogueira, influencer, estandarte de roupa-preta, com franja da Solange de Vale-Tudo.

Na chegada, a pressa era infinita.
Em uma semana, negociação de contrato, vistoria, seguro-fiança, 6 meses de aluguel adiantados.
No dia da entrega das chaves… Solange revelou-se Maria de Fátima e maltratou minha diarista.

A revelação

Em janeiro, surpresa! Ou seria karma?
Como toda cobertura que se preze, bastou a turma do condomínio iniciar uma obra na laje para nos brindar com um vazamento.
Junto com os pedreiros e encanadores, veio uma nervosa lista de demandas.
Não quer cortina de voil.
Quer rolô.
Quer janelas novas no décimo andar.
Quer um tanto disto e muito mais daquilo.

Paladina de terras distantes em que palavra se honra, segui o script.
Arrumou-se o que era para ser arrumado, falou-se ‘não’ para o que não havia sido acordado previamente.

Contágio

A quarentena começou com a pompa e glória de quem tem um buraco na parede e chove lá fora…
Mal passou o choque da vida real e o aluguel atrasou.
Eu processei a informação e segui o jogo: sentei-me em posição de lótus, fiz pão, quebra-cabeças, comecei a beber na segunda-feira, todas as opções que um Circuit Breaker te oferece no século XXI…

Seis meses de ‘relacionamento’, e recebo o já esperado email – certamente escrito num momento de devaneio no claustro – sugerindo rompimento do acordo com dispensa da multa.
A argumentação não era a super aceitável “pô, acabou a grana”…
Na verdade, a culpa era minha de não estar cumprindo o combinado (?).
Contrato de aluguel, basicamente, é eu entro com a apartamento, eles entram com o pagamento… Não tem variável.
Simpáticos, eles avisam que “relutaram muito” em depositar o devido do mês.
Poxa, escreveu, não leu, nem precisa de pau na frase.

Como, por aqui, Covid-19 assombrou mais cedo e com muito mais potência, minha lente já estava filtrando outras paisagens.
Levanta a âncora, irmã!

Cuidado com o que desejas

Coloquei o apartamento à venda.

O inquilino complicado, que até ontem estaria de malas prontas, sapateou.
Disse que iria consultar advogados no plural.
Ameaçou não permitir visitas.

E está chovendo comprador.

Si vis pacem, para bellum

Disclaimer: Todas as personagens e situações deste texto real são absolutamente fictícias. Qualquer semelhança com a vida como ela é é pura prosa, ou mera coincidência. De perto, o “novo normal” é muito mais embaixo. Já dizia Camus do Crato, melhor literatura do que documentário.

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