O Império

será sempre da hipocrisia.

Quando Machado pariu Capitu, feministas já raspavam cabeça – tenho certeza. E a Esquerda Caviar nadava em Nutella. Direitistas trocavam as armas assim como o fazem com iPhones. Instagram bombava de senhorinhas exibindo as canelas.

Rappers pretos pobres se casavam com herdeiras brancas.

A turba, revoltada, transferia os investimentos do Itaú para a XP.

Advogados lobistas em Brasilia desfilavam o ante-braço tatuado com símbolos indígenas.

Modernas em apartamento alugado exibindo live da decoração e da vida que não acontece lá fora clamavam por justiça.

Sapatos prateados.

Muita cartela de cor e preto básico.

Consultoria.

Esse Brasil lindo e fagueiro, de um eterno show off cujas realidades são sempre escusas.

Lugar da fala.

“Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios.”

Em priscas eras de followers, quero apenas o vácuo.

O sim e o não

Hoje estou de má vontade.
Pego a HP12C e patino em juros compostos, em prazos diferentes, taxas.
(…)
Nada dá certo, nada acontece.
Rodo, rodo, rodo e perco tempo.
Birra pura de ter que fazer algo que simplesmente não gosto.

E não é que é complicado entrar na fôrma (sic)?
Quando pequenos, dói ter que dormir.
Ter que fechar os olhos quando o mundo acordado é de colo, de carinho, de beijo e de leite.
O tempo passa rápido e, com uma conversinha mole, somos arrancados do seio quente e levados para a escola.

Aprender a ler, começar a escrever, brincar com números.
Para mim, que aprendi a tabuada na base do chicote (literalmente, embora as chicotadas fossem no chão), os números sempre foram em preto e branco.
Eu preferira decorar sílabas, acertar os acentos das oxítonas. E a concordância?
Vira e mexe, eu imaginava como seria a escrita se houvesse uma “discordância”.
A gente gostamos? Vocês sois coloridos sóis?
Inventei até as “propo”-paroxítonas, as proparoxítonas superpoderosas.
Nas “propos” a antepenúltima sílaba é tônica com mais força: êxodo, esdrúxula, maiúscula!

Aí vieram os números:
– você é o número 4 na chamada;
– pegue uma senha e aguarde na fila. A minha? Número 3.458!
– em que lugar você ficou no vestibular? 57
– quantos quilos ela perdeu? 12
– qual é meu saldo no banco? R$13,39
– e o valor da mensalidade? R$1.000,00

Comigo não adiantou ler o livro preferido do menino Covas, candidato a prefeito de SP.
“O homem que calculava” perdeu feio para “Um cão de lata ao rabo”, “Ayres e Vergueiro”, “Letra Vencida”, “Metafísica das rosas” e tantos outros contos do Machado.

O fato, amigos, é que hoje, infelizmente, Machado não me salva.

Contos de antanho

Filho de um carioca, português de nascença, amigo de Antero de Quental. A mãe só se casou com o pai depois que a avó morreu e quando o menino completou 4 anos. Problemas de quem tem muito versus quem tem o suficiente.
Em 1869, foi ao Egito participar da inauguração do Canal de Suez.
Morou em Havana, Inglaterra e Paris.

E deixou duas incríveis:

O jornal exerce todas as funções do defunto Satanás, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o pai da mentira, mas o pai da discórdia.

A curiosidade leva por um lado a escutar às portas e por outro a descobrir a América.

Eça de Queiroz

o0o0o0o

Em terra brasilis não é difícil encontrar quem afirme que as histórias dos seus dariam um livro.
E dariam mesmo.
O problema é que faltam escritores que traduzam as riquezas dessas anetodas quotidianas.

Eu não me candidato, mas deixo a sinopse para quem se interessar.

1) Pobre em Navio sonha mais

Brigou com o pai que havia pulado a cerca.
Personalidade danada, desviou o que pode do Caixa2 para a mãe.
Resiliente, foi em parceria viver o sonho de conquistar América.
Não ganhou o almejado milhão de dólares antes de completar 30 anos.
Não foi desta vez que levou um green card.
Mudou-se para além-mar.
Voltou procurando emprego e mudou a meta do milhão para antes dos 50. Acredita que lá chegará.

2) O flautista da Hamelin paraguaia

São quatro velhinhos muito unidos.
Duas mocinhas, dois mocinhos.
Juntos, quanta união.
Nem dinheiro e imóveis os separam.
São quatro velhinhos bem danados.
Vivem enquanto podem e deixam a hipoteca para virar história de novela mexicana a ser perdida entre dezenas de herdeiros.

3) Conto de Fadas com desvio de gênero

Todo mundo muito preocupado com a Gata Borralheira.
E as filhas da madrasta?
O que foi feito delas?
Casaram, não procriaram e viraram príncipes.
Hoje reinam felizes – cada um em seu castelo.

o0o0o0o

Para não terminar cambeta, um de quem sabia fazer.

Um Apólogo (Machado de Assis)

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando…

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto…

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima…

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!