Tudors da era digital

Fotografia digital

Para mim, a melhor aula de história sempre foi sobre a Inglaterra.
As personagens preferidas? A família Tudor.
Erros, traições, conspirações, infidelidades, indiscrições, complôs…
E um rei que sobreviveu a guerras, pestes, a Igreja Católica, a 6 esposas.
Ao longo de 55 anos de vida, cravou seu nome definitivamente na história mundial.

Além do poder, de ter recebido educação de primeira e especialíssima, Henrique VIII tinha sagacidade e talento.
Foi um regente controlador, duro, inteligente e cruel em vários momentos.
Ao longo de seu reinado, algumas cartas e manuscritos serviram de prova para que cabeças literalmente rolassem.
Duas delas de rainhas. Ana Bolena e Catarina.

Imagine se fosse na era do MacBook Pro.
O que seria dessas cartas e das histórias de bastidor?

Um rei nunca está sozinho.
Henrique VIII tinha um séquito de nobres que conviviam com ele em sua mais nua intimidade.
Gente que tinha como função abrir a porta de seus aposentos, de lavar seus pés, de escolher roupas, de trazer papel, de levar e trazer cartas. De trocar ataduras dos ferimentos do rei.
O rei era o Senhor, o Deus, o Poder.
Ele era mais e todos deveriam estar às suas ordens.
Esta posição fazia com que muitos aprendessem a segurar a língua e que temessem por desfrutar de tanta proximidade.

Quem já visitou um palácio – o de Versailles é um bom exemplo – muitas vezes fica admirado ao descobrir que o gabinete de entrevistas – onde o rei trabalhava e atendia pessoas – geralmente era a ante-sala do quarto real.
Num palácio tão grande, tudo ali, na mesma ala.
Cama e mesa.
Reis e rainhas não dividiam os mesmos aposentos e, em geral, o rei escolhia quando visitar a rainha e passar a noite com ela.
Tudo escancarado para um grupo de bem nascidos.

Mas reis eram/são criaturas especiais, não são como “nosotros”.
Ou, agora, são?

Hoje, temos nosso grupo de nobres amigos e conhecidos que privam de nossa intimidade nas redes sociais.
Circulam em nosso universo particular e a eles são dados todos os privilégios.
Muitos desse pequeno grupo são parentes, amigos de infância, colegas de trabalho.
Alguns são agregados – gente nova que por uma série de razões foi aceita na rede privada.
Como na corte, alguns guardam sua porta.
Uns trazem cartas, notícias de negócios, fotos de alguém que vive distante.
E outros, como não poderia deixar de ser, lavam as mãos. As próprias.

Assim como na corte, nos revelamos em nossa intimidade.
Fotos, vídeos, opiniões.
Respostas e conversas públicas.
Se você permitir, gente que não te conhece também consegue entrar em seu quarto.
São os amigos dos amigos, que acabam tendo acesso indiscreto e curioso a alguns de seus aposentos.
E, ainda, empresas, recrutadores, profissionais que estão ali para obter informação e fazer um julgamento.

Por que esse texto?
Porque, como o rei, um predestinado, a sociedade passou a ser obrigada a ter esta chamada vida semi-pública.
Não foi uma escolha. Quem nasce hoje, logo ganha nome, email e login no Facebook.
E, diferente do rei, não fomos educados e nem preparados para isso.
Fomos jogados com a choldra e aprendemos fazendo. Errando.
E pagamos cada centavo por isso.

E este blog?
Um blog geralmente é aberto, escancarado, uma cara a tapa.
Este é absolutamente autoral e nem sempre conta a verdade.
São palavras ao vento e você pode, sim, fazer com elas o que bem entender.

Mary Stuart, rainha da Escócia, preparou-se com pompa para o dia de sua decapitação, ordenada pela prima Elizabeth, rainha da Inglaterra, última da dinastia Tudor.
Consolou as damas de companhia, perdoou o carrasco.
E, antes de apoiar a cabeça, tirou sua capa negra.
Debaixo dela, um reluzente vestido vermelho cor-de-sangue, símbolo dos mártires.
O carrasco teve que dar três machadadas para finalizar o serviço.
Ao levantar a cabeça da rainha – fazia parte do protocolo -, gritos e desespero.
Ela se desprendeu da exuberante peruca ruiva e rolou entre os pés dos circunstantes.