Passado

(AP PHOTO/CHARLIE RIEDEL)

Talvez seja sina viver cercada por papagaios do apocalipse.
Ou de ter que ouvir uma elipse de reclamações.
Quanto mais nos aprofundamos no mundo do virus, mais eu penso na minha Lua.
Nasci e vivi uma era em que drogas ‘eram’ usadas com alegria e sem restrição.
Sexo feito no manual sem látex.
Álcool e cigarros para menores.
Com em excesso.
Glitter no cabelo.
Lata de ferro.
Nenhuma tartaruga com canudo nas narinas.

A Aids chegou e mudou as regras da brincadeira.
Ficamos mais seletivos.
Perdemos o amor “livre”.
Mas o processo foi lento.
A poesia resistiu apesar da dor.

Como acreditar que um ator de Hollywood, presidente, seria um sinal dos tempos?
Arauto da política de rótulos?

Hoje, assistindo a um filme da minha idade, tive um clique, um susto.
Muita gente na rua.
Ninguém usando máscaras.
Aí acordei.
Protegida, embalada a vácuo.
Passando por pontos de ônibus com gente usando uniforme escolar dos anos 50.
Máscaras.
Escudos de rosto.
Marcas no chão para manter distância.
Fiscais do atomismos pagos com verba pública circulando uniformizados.

Sou guerreira do plenismo.
Herdeira do cirenaísmo.
Devota do benthamismo.

Saravá.