Home alone pero no mucho

Enquanto ele não acorda e vira pela enésima vez a minha vida do avesso.
Robalo, arroz basmati, ervilhas frescas, molho de coco.
E um Rosé de primeira.
Ontem, hospital.
A tal tosse que não para.
Uma hora e meia na fila com meu cartão hiper privé tarja preta e vendo todas as crianças remelentas passando na minha frente…
Cinco minutos de consulta e voilá: minha primeira sinusite.
3 caixas de remédio e 200 reais depois: a tosse continua firme no arreio e minha cintura do lado direito dói como seu eu tivesse feito mil abdominais.
Passei a manhã no museu do futebol.
Na última vez foi a a última vez que encontrei meu pai nesta vida.
O museu é incrível, mas hoje, o que me fez bater o coração (tá certo, os telões com as torcidas e a derrota de 50 sempre me tiram umas lágrimas) foram uns meninos pobres de excursão.
Turminha de Franco da Rocha.
Com suas roupas puidas, o cabelo pintado, uma corrente no peito e tênis muito gastos.
Na ala interativa, tiveram toda a paciência do mundo com meu pequeno.
Jogaram bola virtual com ele sem parar.
Ele ria, gritava gol, Mengão, Brasil.
Pulava, dava uma espécie de cambalhota – extasiado com os mais velhos.
Sem saber que são pobres, que vieram numa excursão destas de caridade, que têm um passado nada manso.
Na saída, eu, o diretor, o inglês convidado que deu uma bola nova para o meu rebento.
E os meninos pobres sendo contados como gado.
O robalo acabou, lavei o prato, os talhes, tomo mais uma taça de rosé.
Home alone.
Chamo os meninos e eles logo armam uma foto de time.
Lindos, carinhosos, com seus dentes brancos de quem tem fé.
Meu pequeno está no céu.
Eu pensando na casa nova que cada dia torna-se mais real.
No dinheiro no banco que quase se esvai.
Na lareira, no ar-condicionado split quente e frio.
No meu sofá de grife personalizado.
Nos tecidos fake da Missoni.
Quem disse que dinheiro é capim?
Os dois meninos lindos e doces com o meu pequeno.
Home alone avec mon rosé. Terceira taça.
Nem aí se o antibiótico, se o antialérgico, se o spray nasal vão dar tilt com meu álcool natural.
Pensando nos dois meninos de Franco da Rocha.
Tirei as fotos e pedi um email para mandá-las.
Constrangidos dizem que não têm email, orkut, facebook.
Pergunto se os pais têm.
Uma monitora se aproxima e explica que nem pais alguns deles têm.
Mando as fotos para o email dela.
Peço, praticamente suplico a ela que me retorne.
Quero ir atrás dos dois, dar o uniforme do Timão, levar para casa, dar o peito, a carteira, dar banho, colocar para dormir.
Penso nos sequestros aqui de casa.
Os bandidos levaram os cobres, cá estamos.
Penso nos meninos, no meu menino, no país, da presidentA de motocicleta e sem carteira.
Penso que queria estar agora, bêbada com estou, sozinha quando fujo, no Ibirapuera, sem filho, sem documento, ouvindo um jazz do Bourbon.
Penso nos dois.
Eles não me saem da cabeça.
Derramo a quarta taça.
Domingo eu não vou ao Maracanã.

Futebol, família e algo mais

Passou o vendaval.
Minha casa voltou a ser o lar doce lar de duas pessoas.
E eu estou resfriada – nariz entupido, corpo um pouco dolorido. Isso sem contar o bolso completamente furado. E o Fred segurou a onda sem uma reclamação. Taí algo que preciso aprender… A calar a boca.

Esse fim de semana fui ao Museu do Futebol.
E que museu. E que terapia intensiva. Recomendo para os depressivos, para os excessivamente críticos, para os chatos em geral.

Como um esporte mexe com sentimentos tão variados: amor à pátria, rivalidade, emoção. E como a história do Brasil é brilhantemente contada através de nossos melhores jogos de futebol.
Eu não tenho vergonha de ser mulher no país do futebol. Bato minha bolinha quando convocada – e não faço feio. Em Cuba, era “Copa das Nações”. No time em que joguei, a tática de ser a dona da bola trouxe vantagens, tais como não estar ao lado de argentinos (risos). O melhor atacante era da Costa Rica. O mais bonito – e maior -, o que nos dava certa vantagem, era chileno. Também tínhamos um equatoriano bem danado, um panamenho, uns cubanos e nenhum argentino. Esses ficavam no campo adversário e minha melhor tática era chamá-los simplesmente de “argentinos!” a cada jogada errada, a cada passe mal feito. Tá certo que eu era xingada de pelotuda. Mas mulher pelotuda é tipo mulher barbada: não existe.
Vez ou outra uma mexicana me acompanhava nas peladas. Era mais perna-de-pau, mas tinha garra.
Só deixávamos a quadra quando não havia mais luz ou quando faltavam 30 minutos para fecharem o refeitório. E pensar que um período curto em terras caribenhas deixou tanta saudade. E pensar que o futebol era nossa linguagem de nações.

Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.
Proibido de entrar no estádio São Januário (do adversário Vasco), Ary Barroso subiu no telhado para não deixar os ouvintes na mão.

Voltando ao museu, a excelente narração de um gol pelo mineiro Ary Barroso em 1941 merece destaque. Para quem não sabe, além de brilhante compositor, Ary Barroso também foi locutor esportivo. Apaixonado pelo Flamengo, torcia descaradamente a favor do rubronegro nas transmissões pelo rádio. Quando o Flamengo era atacado, ele dizia coisas do tipo:”Ih, lá vêm os inimigos. Eu não quero nem olhar”, e simplesmente não narrava o gol do adversário. Quando o embate não envolvia o rubronegro, sempre que saía um gol, primeiro ele falava coisas engraçadas tipo: snif, squif, squifffffy, GOOOOOL (e depois tocava uma gaita). Impagável. Um locutor-torcedor é o máximo. Máximo que hoje não se ousa repetir (ou assumir)

A mãe do juiz também dá seu depoimento. Duas mães contam as agruras de ser mãe de juiz de futebol. De verem os filhos sairem de campo sob escolta. Uma, mais engraçada, logo diz: a maior desgraça foi a profissão que ele escolheu. Se o filho da p*. E confessa que também xinga a mãe do juiz em jogo. Sensacional.

Forçada de barra é Pelé dando as boas-vindas em português, espanhol e inglês. Pelé, vamos combinar, não é um cara simpático. Não é um cara bacana para dar as boas vindas para brasileiros. Ver as embaixadas de Ronaldinho Gaúcho em 3D é sensacional. É um circo. E ele faz as macaquices de quem – como muitos outros – é um grande jogador de clubes, não de seleções.

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Puskas em campo

Ver nossas derrotas tratadas com ar solene é interessante. O Maracanaço. A moça elegante que chora na arquibancada. Barbosa que sofre. Ver Zico perdendo pênalti.
Ver os vitoriosos de outras nações. O imortal Ferenc Puskás Biró (Budapeste, 2 de Abril de 1927 — Budapeste, 17 de Novembro de 2006), o “Major Galopante”. Puskás – que era baixote e atarracado – e se tornou, sem dúvida, um dos melhores do século XX.
Franz Beckenbauer o líbero alemão que, com sua visão de jogo incrível, armava contra-ataques fulminantes e tinha na elegância, com porte ereto e cabeça sempre levantada, uma marca registrada.

O Flamengo ganhando do Atlético de 3 a 2 em 1980. Um título que, dizem os meus colegas de torcida, foi roubado.
Garrincha fazendo gato e sapato de todas as equipes adversárias. E sendo generoso em quase todas as jogadas: ele não fazia o gol, armava a jogada e deixava o gol para um companheiro finalizar.

O Brasil é o único país que participou de todas as Copas realizadas até hoje. E o único também a ganhá-la por cinco vezes. Detalhes dessas conquistas (e também das derrotas), bem como o pano de fundo do momento político, social, econômico e cultural, em que cada uma se deu, estão representados nesse espaço em que presidentes, misses, artistas, ditadores da moda, torcedores anônimos e gênios da bola são personagens da mesma história e dividem espaço com as glórias da seleção canarinho. (Texto retirado do site do museu)

Segundo o sociólogo Roberto da Matta, ”foi o futebol que permitiu uma visão mais positiva e generosa de nós mesmos num plano realmente popular, como nenhum livro, filme, peça teatral, lei ou religião jamais realizou”.

Enfim, lavei a alma. O futebol tem esse poder.