Planejamento que nasce torto…

Se você não ouviu, está perdendo: podcast Trabuco. Esse texto é inspirado numa elucubração desses caras.

Em épocas de pandemia,  praia fica lotada  (até na Inglaterra onde se estica a canga sobre o cascalho), e também há passeata de alemães todos brancos pelos irmãos americanos pretos que não conseguem respirar. Tudo regado à  álcool (gel) para dar ares de responsabilidade. Vacina não existe e organização internacional dorme no ponto para só acordar quando o leite derramou.

Seria o fim do planejamento e estaria inaugurada a era do bundalelê sem carnaval?

Eu  venho de Belo Horizonte, uma cidade planejada. Inicialmente, prédios públicos, repartições, negócios seriam abrigados no perímetro da Avenida do Contorno.  As ruas com os nomes dos Estados são cruzadas pelas de nomes indígenas. Tupis, Guajajaras, Amazonas, Guaicurus, Rio de Janeiro, Bahia… Gringo que desce de paraquedas na capital mineira trava a língua.

Saindo do antigo palácio do governo, dando as costas para os edifícios das secretarias – hoje museus -, chega-se à Savassi, parte do bairro (dos) Funcionários, onde um dia houve um brejo (em tempos em que não se pode mexer nos proventos de servidores públicos isso vira até poesia se misturada ao lépido Aedes).  Savassi, curiosamente não é nome local. Os irmãos Achille, Arturo e Angelo Savazzi, imigrantes de Mântua, proprietários da padaria mais famosa dos anos 30 foram os homenageados.

Nos atuais anos 20 do novo milênio, chegar a qualquer padoca é complicado: os ônibus saem lotados das cidades do entorno e despejam trabalhador de baixa renda de dia para recolher à noite. Já peguei muita van pirata – truque esperto para contornar um sistema público de transporte ineficiente. A Serra do Curral – cartão postal – é uma casquinha fina  de montanhas comidas pelas mineradoras. Alguns bairros que deveriam só receber casas para evitar que a paisagem fosse tampada pelos arranha-céus tiveram documentação mudada no apagar das luzes de mandatos de certos prefeitos e, como resultado, sofreram enorme especulação imobiliária. E, ironia, os rycos foram morar fora, em Nova Lima e adjacências. A cidade não é mais Jardim e todo mundo se encontra (eu não entendo muito) para comer pizza em supermercado que fica na beira da favela.

Fato também é que este solo, apesar de toda a dor, tem um poder transcendental.

Já citei por aqui e repito: pesquisas apontam que a força dos minérios adentra as entranhas e quem deixa Belo Horizonte sofre profundas alterações químicas e de metabolismo. Abstinência.

Quem fica, bebe sem cerimônia. E tem o estranho hábito de se alimentar da vida alheia.  Mineiro, 95% das vezes sabe tudo dos outros e torce para dar errado.  Mas a torcida para a cidade, naquela época era real, e a nova capital foi inaugurada às pressas, ainda inacabada. Os operários, em meio às obras, não foram retirados e, sem lugar para ficar, formaram favelas na periferia da cidade, juntamente com os antigos moradores do Curral del Rei – que foram realojados na lonjura da Cidade ‘Nova’.

Bem… se lá o planejamento deu em novos brejos, aqui, a história foi outra: porto, terra de ninguém, habitada por estivadores, putas, fantasmas de ópio, Chineses em busca de riqueza, javaneses, colonizadores ingleses, malaios… Por não ser de ninguém mesmo, por não vir com um ranço histórico, e por ter sido rejeitada, foi planejada sem aventura Niemeyristica, com disciplina estilo rédea (e orçamento) curta e, ao que tudo indica, deu certo.

Isso se você considerar “certo” ter muito dinheiro, morar cercado de jardins, enfrentar baixos índices de violência, contar com um porto moderníssimo, um aeroporto Disneylandia, e, também, topar achar normal dar porrada em doméstica, meter reguada em perna de estudante.

A diferença em números grita: por aqui, com cerca de 6 milhões de habitantes, 6,298 casos ativos – mais de 36 mil tratados e liberados. 188 hospitalizados, 1 em estado grave. 26 mortos. Em Belo Horizonte, com 2,5 milhões de habitantes,, segundo a SES, 4.668 casos ativos,  104 mortos.

Se Drummond vivo estivesse, certamente, teria material para uma nova Quadrilha.

PS: O Marku Ribas – tocando bateria no clip do Mick Jagger acima – ilustra bem esse ‘meu’ mundo. Ele simplesmente tocou com Bob Marley, James Brown e Clara Nunes.  Se tivesse seguido a maré, não seria explosão. Mas explosão no Brasil é só uma manchete e amanhã é outro dia.

 

 

 

Ciganices

Caminhante

O que eu já esperava – ou já tramava – aconteceu… Perdi o metrô ontem.
Mas não o choppinho ao lado do cemitério das estrelas, não perdi a exposição incrível de Takeshi Kitano na Fondation Cartier… Nem a feijoada com franceses que me fez perder o metrô ontem de noite.

Antes, uma pausa.
Hoje fiquei presa na lavanderia do meu prédio. A porta fechou e lá fiquei eu com duas máquinas de lavar e duas de secar, sem grana (eu tinha colocado as roupas na máquina e ia sair para trocar minha notinha de cinco… quando a porta bateu). Primeiro, risos.
Depois um pânico de leve. No fim, entreguei os pontos.
Sentei e esperei por algum barulho no corredor.
E o concierge apareceu e me mostrou onde fica o botão que abre a porta e salva os brasileiros tontos que não sabem usar lavanderias comunitárias que ficam trancadas e têm porta eletrônica.

Takeshi Kitano.
Fui mais para conhecer a Fondation Cartier. Essa coisa de prédio moderno com jardim verde exuberante é sensacional. Niemeyer que me perdoe, mas um Burle Marx é essencial.
Cheguei e pensei que a exposição do dia era para crianças. Dinossauros, desenhos infantis, máquinas manipuláveis.
E eis que a brincadeira era para gente graúda.
Gosse de Peitre Beat Takeshi Kitano é imperdível.
Um artista japonês que tira sarro da própria cultura e que é apresentador de programa de TV. Um cara que questiona a arte e a própria sociedade de massa.
É como se o Faustão tivesse humor e soubesse desenhar.
E fosse japonês. Imagina!

Clique no site e veja o vídeo da exposição. É sensacional!

Garatujas

Choppinho sozinha.
Ao lado de Père-Lachaise enquanto escrevia postais, pensava na continuação de um conto que cismei de escrever e brincava de internet no celular.
Num fazer tudo ao mesmo tempo e em lugar estrangeiro foi tão gostoso.

Do cemitério para o enterro dos ossos.
Feijoada de franco-brasileiros para francês ver.
E o negócio estava para lá de bom.
Uma moça que trabalha na Coca-Cola; outro com Christian Louboutin, o sapateiro que faz brasileiras ricas pagarem 2300 reais por um par, entre tantos outros ilustres deconhecidos.
Comemos (muito, bien sûr!), bebemos como não deveríamos (absolument!) a caipirinha de limão com maracujá e a cerveja. Alguns dançaram, outros, falaram pelos cotovelos e terminamos (quase) todos na casa de um amigo para uma saideira.
Eu fui 1h30 da manhã racionalmente de pileque esperar Godot na estação porque o metrô só chegaria às 5h30.
Acabei atravessando o cemitério – com almas penadas e gente estranha – a procura de um táxi.
Já estava imaginando a manchete “Brasileira dá sapatada em mendigo bêbado e acaba na cadeia” quando um haitiano me salvou.
Eu bem disse para ele: quem sobrevive a terremoto paga mico com brasileiro em Paris.
Paguei um mico e dez contos, descobri que moro muito mais perto da área em questão do que pensava, e voltei para casa tontinha às 2h da matina.

Hoje, ciganices por Paris, depois de ter aula às 8h da manhã.
Isso sim é que é disposição. Por que saúde…