Antigo

Esse blog começou tão antigamente… que eu deveria reler cada pedaço de onde eu teimava em me esconder.

Escrever é cachaça e como todo álcool, vez ou outra, é recomendado abster-se de.

Eu ando perdendo – mais do que costumava – a nossa língua.

Não é culpa de falar inglês, mas dos meios eletrônicos, dos auto-corretores…

E da parca leitura.

Andei encomendando uns Machados no original, Machados que encontrei a bom preço – milagre -, valor venal que parece ter sido influenciado pela edição esgotada das memórias póstumas de Brás Cubas traduzidas na terra onde as vidas negras importariam.

Acho uma graça nosso mulato fazer sucesso estrondoso na gringa em chamas.

E, por conta dessa fama toda, acabar sendo lembrando no nosso quintal com bananeiras apinhadas de espinhos.

Pense no que Machado escreveria se hoje vivo estivesse.

E nas músicas do Tom, se a casa da Gávea ainda tivesse seu piano.

E nos sambas, choros, nas sandálias novas…

A pandemia veio chegando meio debochada, brincando de que já logo ia, deixou em mim um rastro de balanço de fim de ano, de revisão de estoque dos anos 80 na Avenida do Contorno. Eu ia abrindo as caixas com pijamas, com camisas Master, as blusas Sulfabril vermelhas… E cantando as quantidades. 12, 9, 27.

Voltei a cantar. Que coisa!

Mergulhei numa poça funda de jazz.

Tentei ler e nada.

Filmes do canal Criterion.

Vez ou outra um achado em Netflix.

Perdi a paciência – nenhuma novidade – com quem projeta em mim respostas.

E descobri a desculpa perfeita para começar tudo de novo.

enrolando
enrolando

 

Palavras

Eu sou como eu sou porque eu vim de onde eu vim.

Ya esta en el aire

Do minério que gruda na pele e não sai.
Da crueza ferina.
Das feridas praticamente incuráveis porque a faca tem veneno.
Para esta raiz não volto mais, para este caule de flor de lótus solto na água.
Que se desfaz em fibras grossas e gosma sem cheiro.

Faz parte do desenvolvimento entender os porquês.
Faz parte se perdoar também.
E é sempre tempo de olhar para frente.

Meus olhos são verdes e castanhos.
Eles sempre enxergam mais do que deveriam.

Interrupção

Planejamento

INTERRUPÇÃO

A obra dos Deuses, nós a interrompemos – entes
somos da pressa e do momento, inexperientes.
No palácio de Elêusis e no de Ftia, eis
que iniciam Deméter e Tétis, em chamas
altas e fumo espesso envoltas, grandes obras. Mas
sempre foge Metanira aos aposentos do rei,
cabelos soltos, temerosa. Também
Peleu se atemoriza sempre e intervém.

(Kaváfis)
trad. de José Paulo Paes

Ontem reencontrei a diaba.
Passado obtuso de vestido longo na beira do rio.
Molha, molha até que encharca e te leva para o fundo.

Mitomania e agressividade.
Maldade em estado bruto e no jardim de infância.

4 anos.
Todos os meus planos, valentes, perdidos.
Murro escorrido, entornado.
Manti o prumo.
E foi o possível.

Consola é saber-se duro e corajoso.
E sem nada a dever e a ninguém.
Amiga da verdade e, por isso mesmo, sempre em guarda.

Pobre diaba, feia, desajeitada, pernóstica e verborrágica.
Pobre diaba.

 

 

Faz frio aqui

ssssssssssss...
Necessidade de fazer um casulo vestida com mil camadas de roupa.
Vontade de sair de casa mesmo assim.

Saber que hoje é o que apenas há.
E gostar.

Uma sensação de calor apesar do gelo que te pede calma.
Uma corrida longa sem pensar no caminho que vai ficando sob os pés.

Terça feira com tudo novo.
São Paulo.

Vendo casa

Passado em preto e branco

Apartamento de bom tamanho.
100 m², 2 quartos arejados, amplas janelas.
Alguns cantos empoeirados, histórias inacabadas, romances mal explicados.
Vendo banheira antiga com pés de ferro fundido, piso de ladrilho hidráulico, pastilhas em cores vivas.
Vendo tudo o que foi.
Casa de sonho.
Alvenaria. Suor.
Causos ocultos.
Gatos que não existem mais.
Tudo a preço de ocasião.
Bairro agradável que já foi mais tranquilo.
Mundo que dá volta.
Redemoinho na sala.
Vendo tudo desde que o bebedouro dos pássaros permaneça cheio e limpo na janela do escritório.

Pernas firmes

Depois de um biênio sem carnaval, fui à forra.
Nada de excesso destrutivo.
Marchinhas, sol, cerveja, confete, ladeira.
Fantasias – uma para cada dia (e pense logo no que está subentendido).
E uma fome sem fim.
Minha festa pagã para expiar anos difíceis, viradas forçadas, experiências que, uma vez findas, não trarão saudades, mas obrigatoriamente, fortalecerão esta sobrevivente.
Lugar comum (como sempre).
Carnaval de gregos, pré-romano.
Culto em agradecimento aos deuses pela fertilidade.
Fertilidade de idéias, de andanças, de trocas, por fazer com que haja escolha.
Agora é seguir com fé.
2012 é para valer.
😉

mensagem subliminar

Caçamba

Meu prédio contratou serviço de caçamba para se livrar de coisas antigas e inúteis.
Azulejos de 1975, gaiolas, portas empenadas…
Vidros, latas, madeiras, aparelhos que nem o Exército da Salvação quis levar embora.
Um sem número de coisas estocadas há anos sem a menor serventia.
Acúmulo.
Vontade de prender o tempo em gavetas.
Necessidade de agarrar coisas para segurar ventos.

Ontem saí de casa e vi um homem.
Magro, baixo, pardo.
Entrou na caçamba, separou madeiras de outros objetos.
Tirou pregos, selecionou pedaços.
Encheu a carroça.
Foi embora.

Hoje os porteiros jogaram mais coisas na caçamba.
Latões, quadros velhos, brinquedos faltando pedaço.
Vieram dois homens.
Enquanto o primeiro retirava pedaços desencontrados,
o segundo esperava por sua vez.

Uma caçamba com guardados de décadas.
R$270,00 para nos livrarmos do passado.
3 homens, uma nação e nenhum futuro.

passado