do gên. Micrurus, da fam. dos elapídeos


Pavonice parece nome de caipira.
“Pavonice Santos e Silva”.

A pavonice sempre esteve em alta.
Desde os tempos de Platão (olha a minha exibição de fasianídeo).
As moças ainda hoje são criadas para exercê-la até encontrar a cara-metade.
Depois que têm casa, chuto um número: cerca de 40% deixam a vaidade de lado.
Pode ser um tipo de libertação.

No Brasil, temos um presidente-pavão.
O fato de não saber absolutamente do que está falando (e pior, fazendo) não o atrapalha em nada.
Aliás, os homens têm a pavonice em outro nível.
São pavo cristatus, aqueles que “erguem e abrem em leque a longa cauda com plumas de um verde iridescente e caprichosos ocelos”.
Ocelos (físicos e materiais), de conquistas várias e, quando dão azar, de narciso.

Os feios e feias sempre me encantaram.
Há que se ter talento desde que Vinícius condenou aquelas que não têm graça.
Ser feio – isso sim é uma verdadeira libertação.
Andar sem muletas.

Na sociedade do hiperconsumo, alimentos para fazer nutrir a pavonice se vendem em frascos.
Mas os laboratórios ainda não acertaram a fórmula.
Os efeitos colaterais são uma loucura.
Os peitos crescem até ficarem anti-naturais. O queixo, medo, ganha um furo.
Os dentes brancos de colgate bilham enquanto o nariz arrebita.
E todo mundo, claro, nasceu para aparecer na TV.

Quem me acompanha por aqui, sabe que tenho uma certa experiência. Risos.
Já prevendo o nariz (pontudinho) torcido, dou minha opinião.
Dois terços dos pavões da caixinha mágica são menos ilustrados do que o presidente brasileiro.
E que sucesso!
Ganham dinheiro com isso.
Há que se ter outros talentos… E uma cara de pau daquelas!

Hoje estou chovendo no molhado, eu sei.
Mas deu vontade.
Tudo porque completo uma semana de dolce far niente.
E, nessas condições, perco o prumo.

Esse post veio para dizer que a vida de pavão-do-mato nos condenou.
Estamos todos em busca de aprovação.
Pavão nenhum abre o leque em vão.

O blog é um meio do caminho.
Tem algo de privado e algo de público.
Quem disse que um blog diz verdades?
Ou será um experimento?
Ele tem alguma obrigação?
Este aqui, não.
Ele é um laboratório. E eu sempre quis ser cientista…

O fato é que não me sinto confortável num palco.
Mas gosto de provocar.
Então o blog tem um quê de autotortura e, ao mesmo tempo, de petulância.
Pavão às avessas.
Pavão sem plumas.
Com cara de peru de Ação de Graças.

entrelesmurs

Ontem li e gostei desse post no Twitter:

Brilliant essay on this by M. Gladwell http://bit.ly/dLd7 RT @claudiamm37 you begin to lose yourself the moment you begin to concentrate.
2:44 AM Mar 14th from web

Numa tradução livre, você começa a perder o seu eu no momento em que você começa a se concentrar.

A concentração começa assim: você vai para a escola.
Lá, aprende o que precisa para se integrar e, se tudo der certo, virar um vencedor na sociedade.
Falar palavrão é feio.
Seja agradável e sociável.
Principalmente, você a prende a obedecer.

A família te ensina a se encaixar – a entrar na caixa do que é aceitável. E, quase sempre, torce pelo seu sucesso (leia-se ter uma profissão, casar, comprar muitos bens – a casa, o carro -, reproduzir, morrer).
A escola te forma. Bota na forma.
Pronto para ter o mínimo necessário para enfrentar a selva de pedra.

E você tem esse foco: vencer.

Mas o foco, às vezes, fica embaçado.
Você se formou em medicina.
Mas gosta mesmo é de música.
Quando sai de um show, pensa em como teria sido a vida se…
Tivesse trocado os livros pelo violão.
Mas você nunca vai concretizar isso.
Então vai a shows e conforta essa vontade musical que ficou esquecida em alguma sinapse cerebral.

Ontem vi o filme do poster acima.
A história não vou contar. Vá ao cinema porque vale a pena ver.
Na Oprah (sim, eu vejo Oprah), Sean Penn – meio bêbado, meio sonado – falou na manhã seguinte ao Oscar que Entre les murs esse é um filme como ele não via há tempos. Um filme completo, que tem tudo. Documentário, política, ficção, incômodo.

Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes
Penn, o diretor e o elenco do filme em Cannes
O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O júri era dirigido por Penn.
Concorreu ao Oscar e não levou. É claro. É óbvio.

O professor se questiona: o que estou fazendo?
Ensinando? Podando? Conformando?
Os alunos, numa turma multicultural, também fazem perguntas.
E confrontam o mundo como deveria ser do mundo que é.
O modelo ideal versus a realidade.

Estudante de direito eu li A República, de Platão.
Mas não entendi nada.
Não tive a maturidade.

Ora, estabelecemos, e repetimos muitas vezes, se bem te recordas, que cada um deve ocupar-se na cidade de uma única tarefa, aquela para qual é melhor dotado por natureza
Platão, A República, livro IV

“A República” (Politéia), foi escrita entre 380 e 370 a.C., quando Platão tinha mais de 50 anos.

No livro, o cenário onde o reunião acontece é a casa de um homem rico, o velho Céfalo, que põe o salão à disposição dos intelectuais, políticos e artistas para discutirem filosofia e assuntos gerais. Participam Sócrates, os filhos do dono da casa, Polemarco, Lísias e Eutiderno, Timeu, Crítias e Trasímaco.
O debate busca determinar como constituir uma sociedade justa.
Como tal não existe na realidade, os participantes se dispõe a imaginá-la, bem como determinar sua organização, governo e a qualidade dos governantes.
Para Platão, a educação (paidéia) seria o ponto de partida e principal instrumento de seleção e avaliação das aptidões de cada um.

Alma = apetite + coragem + razão

Sendo a alma humana (psikê) um composto de três partes: o apetite, a coragem e a razão.
Todos nascem com essa combinação, só que uma delas predomina sobre as demais.
Se alguém deixa envolver-se apenas pelas impressões geradas pelas sensações motivadas pelo apetite, termina pertencendo às classes inferiores.
Por outro lado, se manifesta um espírito corajoso e resoluto, seguramente irá fazer parte da classe dos guardiões, dos soldados, responsáveis pela segurança da coletividade e pelas guerras. Se o indivíduo se deixa guiar pela sabedoria e pela razão é obvio que apresenta as melhores condições para participar dos setores dirigentes dessa almejada sociedade.

Justiça

Desta forma, com cada indivíduo ocupando o espaço que lhe é devido, a justiça está feita.
A Justiça (dikê), para ele, seria a necessidade de que cada um reconheça o seu lugar na sociedade segundo a natureza das coisas e não tente ocupar o espaço que pertence a outro.

Crítica

Aristóteles, discípulo de Platão, questionou: a cidade é a “unidade da multiplicidade”, composta de pequenos grupos e pessoas que são distintas umas das outras e que fazem questão de manifestar abertamente a sua distinção.
Na cidade ninguém quer parecer-se com o outro.
Seria, então, antinatural exigir uma uniformização ou padronização total, como sugerem os moldes platônicos.
Para Aristóteles, a tese de entregar o poder apenas a um segmento da sociedade era contradizer a vocação essencial da cidade, que é ser regida por leis comuns a todos e não apenas por um setor dela, por mais qualificado que o governante pudesse ser.

A(s) pergunta(s) que ficou(aram) para mim – e que anda indo e vindo há anos – é (são):

– Faço o que quero?

Faço o que gosto, uso minhas aptidões?
Até onde vão os estragos produzidos pela família e pela escola e até onde influenciaram minhas decisões?
Há como fugir disso?
Um dia me realizarei?

Platão escreveu A República já maduro.
Eu tenho um longo caminho para soltar as amarras de 34 anos seguindo a cartilha.
Mas dei o primeiro passo. Tomei consciência.
E preciso reler A República.