Eleições

Salve a democracia.
Onde homens de bem se apresentam para representar homens de bem.
Altruísmo puro, comunidade acima de todos. Deus descansando.

Em 10 dias, banners foram organizados como que num jardim japonês.
Um com o raio da Zoomp, outro com um solzinho, um martelo, uma nave espacial, coraçãozinho, bambolês da Audi, mãos se cumprimentando.
Logo se vê que aqui não é lugar para designer gráfico.

Vez ou outra o caminhão cheio de cartazes passa com o som ligado e a carroceria vazia.
“-Pamonha, pamonha, cocaaaaaaada” – em 4 línguas.

Em toda a Ilha o PAP(i) já venceu.
Mesmo que pesquisa de intenção de voto seja proibida por lei.
É que o ser humano é acomodado.
É preciso cortá-lo a golpes de machado para que ele saia da frente do celular.
Nem precisa de missão da OEA corrompida para colocar em xeque a urna.
Deixemos de lado as latinidades.

Falando nela, boca de urna?
Esqueça.
Em boca calada não entra mosca.

Para a oposição fazer ventinho, tem que derrubar coronéis sentados em 3 mandatos.
Não que o novo coronelato queira fazer a revolução.
Todos têm casa.
Comida.
Emprego e cheque-auxílio em caso de pandemia.
Carro, não.

Quando o líder fala, a multidão aplaude animada.
Críticas só à meia luz, na encruzilhada.
Dizem que posts de Facebook ventilam denúncias.
Sobre uma idosa que morreu em casa e só os ossos foram descobertos – o tempo, ah, e o calor de 32oC.
Sobre o filho do figurão que usa drogas (pena capital, o cara é faca na bota) e adora menores de idade.
Sobre a antiga disputa em torno da casa do fundador.

Eu, forasteira, sou alvo primário em caso de desastre.
Ajoelho em prece todos os dias pedindo para não me mandarem de volta.
Enquanto morrerem velhinhas e uma casa em ruínas seja alvo de confusão, vou ficando por aqui mesmo.

Para a tal democracia não retornarei jamais.

Eu achei a nave espacial sugestiva

Desaprendendo a jogar

Quando passares pelo portal, tudo o que já viveu será mera ficção.

Demora um tempo para você andar sem ter olhos nas costas.
Para não desconfiar de coisas mínimas.

O velho hábito de sair só com um cartão de crédito e o celular – um documento em cópia xerox.
O pagamento de tudo, até do pão, em prestações.

O contar moedas.
O ajudar empregada – e muitas vezes ser considerada A culpada.

Num ato kamikaze você decreta o basta.
Foge.

Passa a deixar a porta da sala aberta, algumas vezes, a da garagem, a da sala, e as bicicletas ali, sem cadeado.
Vai mergulhar e nem olha para canga, celular, livro.
Mala aberta em quarto de hotel.

Resolve comprar algo e não levou a carteira.
Aplicativo, QR code…
Envelope com dinheiro para emergência.

Havaiana.
Barriga.
Toda aquela tensão, aquele viver, evapora.

Você lê menos.
Perde a vontade de saber das últimas…
Não discute.

Aprende a pedir a pizza no mesmo lugar.
Não reclama que cada disquinho custe quase 70 reais.
No seu dinheiro, agora, é 20.
20 parece justo.

Não existe inflação.
Mas promoção para quem comprar mais unidades.
Indução de fidelidade.

Existe o flanar.

E a pandemia.

Você continua de portas abertas.
Faz pão.
Bebe para matar a ressaca.
Costura máscaras.
Doa.
Volta a escrever – desta vez, joga tudo no vácuo.
Ouve jazz.

E eis que o Brasil aparece com o pacote completo.
Fraude, subterfúgio, tergiversação.
Ameaça vaga.
Cano.
Mandrake.
Prejuízo.
Cumpadrio.
Toma lá, dá cá.

Mais uma contrato de aluguel.

Sobre a(s) derrota (s)

Pow

Aqui nos trópicos a moçada enche a cara de bolinha, é punida, volta para casa e não sabe o porquê.
Atleta campeã de tudo não passa da primeira fase e coloca a culpa no vento.
Nadador de ponta perde e diz que a gritaria da torcida teve a ver com a história…

Ganhar, ganhar, ganhar.
Somos tão pequenos assim?
O resolvemos virar adeptos da filosofia do Tio Sam?

Sou mesmo fã das disputas, das batalhas, da pegada de quimono.

Gosto do gosto de sangue na boca.
Da unha quebrada.
Do salto todo marcado de calçada portuguesa.
(perdoem-me os puritanos)
Mas a transa inesperada… é melhor.

Gosto de me endividar e sofrer com o prazer enorme de algumas horas em detrimento da tormenta de anos com um boleto que vence no dia 10 do mês.
Gosto de ficar feliz por ter que viajar a trabalho.
De subir na balança e ver o ponteiro subindo. Fazer o quê?
De ficar bêbada com qualquer coisa que cheire a álcool.
De gastar uma fortuna na manicure (que cobra 40 reais).

Ah…
Os lindos de olhos azuis e a medalha de ouro que me perdoem.
Mas eu gosto mesmo é de pé rapado que me leva para copo sujo.
Vira-lata.
Rasteira.
Que fala palavrão.

Eu perco muito. Repetidas vezes.
Fazer o quê?

…”solidão cuja forma final é um confronto com a própria mortalidade”.

amiga do peito

Aqui no único minuto de silêncio, espero pelo próximo da noite seguinte.

Essa invasão de corpo, de casa, de tudo o que me guardava em mim mexeu muito mais do que hormônios e do que toda essa história de “continuidade “.

Aqui nesse canto fugaz e soturno, meu rabicho de segurança se esvai.
E fico sentada com pernas cruzadas pensando em como me esconder debaixo da mesa.

Enquanto as alegrias falsas correm como rio que deságua em Tietês e Capibaribes, penso nas verdades que nunca ninguém quer ouvir.
Ou dizer.
Que tudo é apenas isso e que não há mágica ou momento eternizado.

A vida pequena nas coisas grandes, médias, minúsculas.
E os riachinhos que não terminam em lugar nenhum.
Água pura e cristalina sem sentido ou direção.

Nunca tive medo de escuro.
É o claro que me assombra.

A tal da lei da relatividade

Tenho lido na web “recados” interessantes de amigos e conhecidos.
Uns não acreditam em amor “moderno”, outros anunciam casamento, a foto do filho, mortes e festas.
Fotos sensuais, opinião sobre a presidente do Brasil, viagens a Ibiza, Saint Tropez e muito mais.

Mas, McLuhan, se o meio é a mensagem, a mensagem em si é uma redundância?
Estamos aí para colocar a vida em pratos limpos?
Ou para tecer uma novela particular?
Para falar que o trabalho anda chato, que aquele colega é um imbecil, para mostrar para o ex que, sim, vamos bem, bebendo todas e ainda viajando pacas?
Para mostrar o que comemos, quanto malhamos, a pré-estréia que assistimos?

Eu acho mesmo que estamos muito carentes.
Que queríamos mais festa, mais beijo, mais gente.
Ou estamos doentes?
Essa muleta aqui é cachaça pura.

Aqui, as melhores fotos, as festas mais badaladas, os murmúrios que dão margens a comentários.
Aqui, o lindo, o bacana, o inusitado.
Da tela para fora, uma vidinha mais ou menos, uma pancinha, uma dor de cotovelo.
Uma deprê basiquinha.
Um aperto para pagar a conta.
Uma cafonice, querida, nem te conto.
Uma espinha na ponta do nariz.

Então, façamos um pacto.
Eu continuo escrevendo a dor e a delícia de ser uma anônima na multidão e você toma um chopp comigo qualquer dia desses?

Think outside of the box