Sapatadas, a mídia e outras bagunças

Antes e Depois

Segundo o WSJ, citado hoje pelo Nelson de Sá, ao contrário da depressão, quando a turma que não tinha o que fazer ia ao cinema (que o digam também os cubanos que eu vi, em 2001, invadirem e até darem sapatadas no lanterninha durante o festival de Havana*), na era de blog e twitter, tá todo mundo na internet. O meu twitter já vale 50 dólares.
Não é nada, não é nada, paga meu almoço durante uma semana.
E a internet?
Como jornalista, passei por alguns dragões e elefantes da mídia: revista Veja, TV Globo, Vogue… Acho que só faltou a Folha para completar minha ficha corrida na polícia.
E, apesar da reclamação, de problemas sérios de RH, remuneração e bonificação, os meios têm uma organização de reloginho. Um fechamento é uma coisa de louco.
Juro que já saí da Veja às seis da manhã de sábado num longínquo 1997 e, ao chegar em casa, na altura do Masp, a revista que eu tinha acabado de co-escrever já estava em minha casa!
Impressionante: se eu saí da redação, como o material desceu para a gráfica (naquela época, a redação da Veja era na Marginal Tietê), foi impresso, entregue ao distribuidor que, antes de mim, já tinha passado pela minha casa… Tudo em 40 minutos?!
E quem já entrou num switcher e viu a coordenação de um telejornal tem um infarto!
As matérias chegando, a transmissão ao vivo que vê “cair o sinal” na hora da entrada do repórter. Isso quando o cara não está na China, ao vivo, nas Olimpíadas… São dezenas de jornalistas, engenheiros, modelos e atrizes, contínuos e muito mais gente que fazem o telejornal ir lindinho e quase sempre completinho para o ar. Gente correndo, gritando, matéria sendo revisada e o telespecatador curtindo tudo sem saber do estress que há por trás.
E uma preocupação danada com a correção, com a lei, com o certo e o errado. É uma coisa: os editores-chefes com quem trabalhei tinham defeitos, mas havia um preocupação explícita com o correto, com dar os vários ângulos da história. Sim, mesmo na Veja! Uma coisa é fazer uma matéria maliciosa, tendenciosa, outra coisa é dar um ângulo só da notícia.
Mas vamos fugir dessa polêmica, porque não é o objetivo desse post hoje.
Agora, do outro lado, na internet, e não mais na área de conteúdo, tenho visto que improviso e criação são lei.
Mas quando se soma conteúdo jornalístico, isso pode ser ferro na boneca!
Na Itália, o Google está sendo processado por difamação e violação da intimidade. Tudo por conta de um vídeo adicionado há dois anos que mostra adolescentes italianos tripudiando de um menino com síndrome de Down.
Fotos, imagens, textos – hoje todo mundo é repórter.
E nunca fui a favor do curso de jornalismo.
Jornalista tem que estudar ciência política, sociologia, outra coisa. E estudar ética, direito, cadeiras importantes na formação desse profissional.
Mas se todo mundo é repórter sem o mínimo de formação, vale tudo, certo?
Vale divulgar suicídio na capa do site, vale imagem de mulher pelada, de garotada batendo no índio, vale tudo mesmo.
Não sei – ando apaixonada pelo Twitter, pelo blog, por outras idéias.
Afinal, assino o que digo, e não é um conteúdo que tem “o compromisso com a verdade”.
É muito mais network, graça, passar tempo, conectar-se.
Mas ando solidária e preocupada com os profissionais de conteúdo na internet que, em geral, têm sido tratados ainda na paralela…Afinal, “eles fazem o que qualquer um pode fazer”…
Talvez por isso, inconscientemente, eu tenha saído dessa.
Ou por já ter dado minha parte do bolo.

* Voltando a Cuba, a cena – real – se passou no cine Yara. Quebraram o vidro da entrada. E adivinhem que filme estava passando? Um filme americano – proibido oficialmente até hoje na ilha.
Quem disse que a onda do sapato começou no Iraque?

Sapatada no lanterninha já era moda em Havana…

Meu dia de ontem...