Passado

(AP PHOTO/CHARLIE RIEDEL)

Talvez seja sina viver cercada por papagaios do apocalipse.
Ou de ter que ouvir uma elipse de reclamações.
Quanto mais nos aprofundamos no mundo do virus, mais eu penso na minha Lua.
Nasci e vivi uma era em que drogas ‘eram’ usadas com alegria e sem restrição.
Sexo feito no manual sem látex.
Álcool e cigarros para menores.
Com em excesso.
Glitter no cabelo.
Lata de ferro.
Nenhuma tartaruga com canudo nas narinas.

A Aids chegou e mudou as regras da brincadeira.
Ficamos mais seletivos.
Perdemos o amor “livre”.
Mas o processo foi lento.
A poesia resistiu apesar da dor.

Como acreditar que um ator de Hollywood, presidente, seria um sinal dos tempos?
Arauto da política de rótulos?

Hoje, assistindo a um filme da minha idade, tive um clique, um susto.
Muita gente na rua.
Ninguém usando máscaras.
Aí acordei.
Protegida, embalada a vácuo.
Passando por pontos de ônibus com gente usando uniforme escolar dos anos 50.
Máscaras.
Escudos de rosto.
Marcas no chão para manter distância.
Fiscais do atomismos pagos com verba pública circulando uniformizados.

Sou guerreira do plenismo.
Herdeira do cirenaísmo.
Devota do benthamismo.

Saravá.

ETA: agora, neste momento

Não é mais rico quem tem mais, mas quem precisa menos.”

provérbio budista

 

O tempo é agora.
Quem deixa para amanhã, acaba se surpreendendo.
Eu nasci com um dedo na tomada.
E não durmo se não termino o projeto, o casamento, a história, o tudo.
Eu sou daquelas que não desliga se todas as gavetas não estiverem arrumadas, pratos lavados e guardados. Cinzas de charuto devidamente empacotadas e no lixo.
Eu durmo?

E eu amo os novos tempos.
A internet, a conexão virtual, o romance por fibra ótica.
Tudo o que é virtual pega fogo.
Para quê o real?
A vida pode ser muito mais do que o aqui. Pode ser na Síria.
No Iraque.
No Japão.
E ainda assim real.

Deu errado hoje?
Tenta de novo amanhã.
Tem coisa boa para tentar mais e mais e mais.
E a liberdade?
Fazer tudo o que não pode.
A regra.
O certo.

Fazer tudo errado de verdade.
Ai, mais de 30, mais de 40 é muito mais gostoso.
Vai por mim.

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Indomável

A wild being from birth
My spirit spurns control
Wondering the wide earth searching for my soul

(Lou Reed)

Comecei este post em 2013.
E ele ficou aqui adormecido.
Hora de terminar porque não gosto de nada pela metade.

Ser ou ter, eis a grande e verdadeira questão.
Ter é maravilhoso – cada vez que recebo a conta meu condomínio penso em consultar um cardiologista…
Mas o ser tem sido a minha grande descoberta dos últimos tempos.
Ser tudo e com intensidade.
Sem vergonha.
Faladeira.
Começando o caminho da espiritualidade – justo a mais cética. Ou uma das mais.

Não jogar.
Não brincar com o outro.
A não ser que o jogo seja aberto, com regras sobre a mesa.

Deixar-se ir com o rio.
Com a água salgada do mar.
Simplesmente pegar o carro e dirigir duas horas para passar mais duas horas com os pés na areia molhada.
E voltar atrasada.

O ser que te faz objeto.
O que te devora.
O que te venera.
O que te pede calma.
O que chega sem licença.

Este lado de quem beijou o túmulo de Oscar Wilde segurando em uma das mãos uma taça de puro Absyntho.
Este lado que te quer inteiro.
Sem performance.
Sem sucesso.
Sem capa protetora de super-herói.

A Ana artista, cantora, malabarista.
A Ana, antes raivosa, agora cheia de mantras e mandingas.
A Ana que ainda estende a mão para quem morde.

Ser mordida.
Com força.
Ficar roxa por dias e dias.

Voltar a erguer o corpo inteiro em um só braço.
Pernas para o lado.
Respiração e força no períneo.

Este ser indomável.
Que se afunda nos bares da Praça Roosevelt.
Que te dá tudo até tesão.
Que carrega o anel de 75 anos de um pedido.
Que se despe sem vergonha e sem preconceito.

Que resolve passar uma quinta-feira inteira na cama.
Que te dissolve.
Que te resolve.

E que, no fim, volta sozinha de táxi.
Sim, sou eu.
Eu não tenho medo – nunca tive.
Mas já caí no abismo – não foi culpa minha, foi um acidente de carro.
E, talvez, por isto mesmo, eu não tenha medo.
Minha hora não era aquela.
E quando for, será.

Eu quero apenas o abraço sincero.
O eu te amo de quem verdadeiramente abre a alma.
Não quero seu dinheiro.
Seu sucesso.
Seu desprezo.
Sua inveja.

Quero o sapo.
Aquele que, depois do beijo, continua sapo.
E eu te beijo sem parar.

Mas continuo indomável.
E te assusto.

 

Dupla

Em você nada mais me interessa.
O pelo, a pele, o medo.
A única coisa que ainda me aguça.
O que molha.
É tudo o que você esconde.

Seu lado B.
Seu objetivo frouxo.
Seu texto cafajeste.
Com sua pose de bom moço.

De noite eu fantasio
A hora em que você
Vai conhecer o meu lado A

E aí, meu bem, vai ser tarde demais.

AAAAAbbbbbbbb

Travesti

para-raios

Porque hoje, não do nada, saquei quando a gente saiu da estrada.
Diferente do mundo, eu vivo a vida às claras.
Eu não tenho medo nem amarras.
O que eu faço, mato no peito. Sem programa que deleta o que eu escrevo.
Meu aplicativo replica, publica. Grita.
Eu sou 80 em estado puro.
Eu não minto. Nem tenho mais pinto.
E eu decidi que, a partir de agora, quero ser de mais de um. De dois. Ou três.
Vou colocar o dedo na tomada. Eu sempre fui 220.
Vou dar o que me der. Vou dar.
Vou, finalmente, criar, vou deixar quem eu sou ganhar. Eu vou me entregar.
Eu comecei a ir embora.
Eu sou de trás para frente.
Comigo tudo sempre começa do alto, do grande.
Agora eu quero o diminuto.
É hora de voltar ao meu espaço, à minha mesa de sinuca, à minha solidão destemida que vai puxando gente como ímã.
Eu estou chegando em casa.
Eu não tenho mistério.
Senha.

E é por isto que você me quer.

Dando adeus aos mais de 30

O blog perdeu a pegada, a graça besta de dizer o que quer.
Agora ele vem e vai quando dá.
Bom, ruim, que nada.
Neste canto público, eu não canto quando e como quero.
É quando dá e mal dado.

As coisas se aproximam perigosamente dos 40.
Eu, que fui feliz aos 30, agora tenho certeza de que as certezas se vão com 2×20.
Agora, sim, é que vou acelerar a lambreta.
Filho, botox, criolipólise – vale tudo para não deixar o tempo passar por cima.
Faca nenhuma me furará.
Sexo, night, bebida – acho que a coisa precisará de tarja preta a partir de agora.
Foram-se as vergonhas.
Os sonhos.
As loucas idéias.
Ficou a carne.
E uma certeza cinza de que nada restará.
Pois agora, sim, é que a coisa vai esculhambar geral.
Tudo preto no branco.
Mais preto – é fato.
Tudo escancarado.
Tudo cada vez mais errado.
Barranco abaixo.
Nos derradeiros minutos, nem padre, nem video da Jane Fonda me salvarão.
Remédio?
Só negão manipulado.
Porque de orgânico e vegetariano, só mesmo o professor de yoga que tomou na testa e casou com a professora de pilates.
Desbundei para a geral.

Agora malho de segunda a sexta

Surfistinha e outros quetais

Sim, fiz um programa típico de paulistano-classe média que atenta contra minha natureza selvagem.
Fui a um desses “plex” da vida e, loucura das loucuras, disputei um assento para ver um blockbuster trash.
Fui ver os peitos bonitinhos e siliconados da Deborah Secco (ou seria seca?).
A moça faz o que sabe: caras, bocas, peitos e bundas.
A platéia, “classe-média-no-shopping-que-tem-como-hobbie-ver-vitrine-de-loja-de-carro-importado” suspirava, ria fora do tempo e não teve vergonha de dizer em alta voz que queria ser figurante no filme. Afinal, todos os figurantes do sexo masculino tiveram uma missão: tirar a roupa e se enroscar com a atriz principal devidamente pelada.
E eu esperava outra coisa?
Não!
Mas a realidade supera a expectativa.

Misandria

Saindo do óbvio, o filme é um libelo feminista.
O tempo todo, a moça é puta e quer ser puta.
Nem o coroa bacana, encarnado por um gordito Cassio Gabus Mendes, a convence, depois de uma overdose, a deixar o metier.
Bruna/ Raquel/ Deborah, escolheu a profissão e tem orgulho disso.
Os homens, nenhum no shape de Deborah, mostram-se crus e pequenos ao estarem nus: são gordos, bigodudos, peludos, flácidos, magros, carecas, sem graça, são os manés que pagam para serem usados e descartados.
Que o diga o colunista de O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos, que escreveu uma coluna tipo diário de adolescente exaltando a “coragem” de Deborah Secco.

Bobos, babões, com taras pueris, eles topam pagar por que, ao que tudo indica, faltam-lhe culhões para a vida de fato.
Fora da tela, realizados depois de hora e meia de Secco pelada, eles comentam sobre a gostosura da atriz e sobre o sonho de viverem alguns minutos a fantasia de serem figurantes do filme.

Eu saio rindo e prestando atenção.
Os que não conseguem fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Os que sonham e os que gastam os cobres com uma noitada de sexo pago.
Os que queriam ser figurantes ao lado da Deborah Secco.

Sexo frágil em pleno século XXI.
A vida não deve ser fácil