Terra estranha

Carente

Domingo de pais, chove fino e pouco em São Paulo…
Trabalho cedo, como pouco e muito mal.
Saio para almoçar no bom e velho Astor.
Pela primeira vez, o atendimento é péssimo.

Ao meu lado, duas solteironas com sotaque nordestino jogam cabelos para o alto e dividem um espumante nacional.
Falam alto.
Solidão de inverno.

Mais adiante, duas irmãs com óculos enormes de grau e narizes descomunais.
Paulistanas da gema.

Franceses magérrimos e seus tênis coloridos sem o menor estilo.
Passam voando como passarinhos.

Como muito, não resisto…
Saio a caminho do shopping center.
Programa horrível e inevitável de um domingo cinza.
Vou ao semi-novo centro de compras dos ricos ou dos novos representantes da classe.

Volto ao começo do governo Lula.
Aeroportos cheios de gente que trocou a rodoviária por uma viagem mais rápida.
Muito salto alto, perfume, sacolinhas de operadoras de turismo para as massas.

Shopping hoje: gente produzida, maquiada, com sacolinhas de grifes falidas e investigadas pela Receita Federal.
Custe o que custar, uma bolsa jeca de matelassê com corrente dourada e o símbolo da falta de estilo.
“C” de cafona.
Para coroar, mantinhas marrons deixadas sobre assentos das praças “de convívio”.

Tenho ouvido várias histórias de culpas católicas…
Gente esclarecida, amigos e até desconhecidos que saem pelas noites geladas a oferecer cobertores para desabrigados.
Estão todos cuidadosamente dobrados e espalhados por cadeiras de vime plástico – tendência para piscinas e churrasqueiras em edifícios de arquitetura neoclássica.
Serão doadas depois que você se refestelar.
Pensei que carentes fossem os beneficiários das tais instituições.

Carentes são esses novos tempos.
Atirar coisas usadas aos pobres.
Porque as pérolas – essas estão nos pescoços.

Pode ir ao Procon e registre sua queixa.
Há uma lista com minhas iniciais.

7 respostas para “Terra estranha”

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