Um ano de blog

Abaixo a censura!
Escolha a arma!

Descobri Nelson Rodrigues com 17 anos. E que idade perfeita para ler um rebelde ousado, irônico, polêmico – um adulto com picardia adolescente.

Esse blog nasceu rodrigueano em vários pontos. Menos sexista que Nelson, porém borderliner e boca frouxa (intencional) como ele. Logo nos primeiros dias, ele teve uma visitação louca. Como era estréia, demorei a perceber: é que a firma estava lendo meu “diário”. A briga por uma cadeira, as fofocas de corredor. Foi tamanho o Ibope que o blog virou tema de discussão interna séria e parou quando o CEO mandou deixar para lá. Uma sorte de principiante que valeu mais que champagne quebrada em inauguração de transatlântico.

Ao longo do tempo, o blog foi adquirindo vida própria, parceiros de países estrangeiros (veja só!), publicou as palavras de quem está do outro lado do oceano, de quem vive no Rio, em Niterói, de quem traduz do alemão direto para o português. Ele ganhou uma espécie de redação informal – mais um pouco e vai ter que registrar, recolher INSS e FGTS.

Apesar das aventuras, ele se manteve pequeno na medida. Não virou estrela, não ganhou a plebe e, desta maneira, garantiu uma certa liberdade. E foi que foi: perdeu a melhor amiga. Expôs algumas bebedeiras. Arriscou contar os bastidores da Vênus Platinada. Levou o Bluebus para dentro de casa. É um blog muito autêntico e meia-boca como deve ser.

Quando o vejo ameaçado de censura, as personagens de Nelson saem das catacumbas e vêm correndo  acudir. Em tempos de Flamengo campeão nacional, a história: junto com o irmão, o jornalista Mário Filho (para quem não sabe, o verdadeiro nome do estádio Maracanã), Nelson foi fundamental para o sucesso e a fama de clássico do FlaFlu. Para isso, criou personagens fictícias como Gravatinha e Sobrenatural de Almeida. Sem contar a grã-fina das narinas de cadáver sempre a perguntar: “quem é a bola?”. Em outros casos, fora do futebol, evocava Palhares – o canalha -, ou  a freira de minissaia.

A cabra tem talento para arquitetura
A cabra tem talento para arquitetura

Hoje, quem me apareceu foi a cabra vadia. Segundo Nelson, as entrevistas com personalidades costumam ser todas vazias.  Somente numa entrevista imaginária, num terreno baldio, em presença de uma cabra vadia, a celebridade falaria o que realmente sente. Pois não é que a cabra veio, e, aqui, ao meu lado, come um pedaço do carpete novo? O terreno baldio fica na esquina. Em dia de chuva, a cabra não quer descer os mais de trinta andares de escada. Elevador nem pensar.  Ela come o carpete e quase ninguém nota.

Inspirada pela presença da cabra, tomei as decisões de fim de ano. E, por causa dela, digo e repito: aqui nesse blog, tudo o que se escreve tem um fundo de verdade. Cabe ao leitor – que, se garantir um QI de ameba, não precisa de auxílio técnico – separar o joio do trigo. E seja o que ele decifrar, desde que se dirija diretamente ao guichê do blog, assino embaixo. Explicitar o óbvio ululante é método.  É a lei da gravidade.

Para comemorar um ano de blog (completado em novembro), frases escolhidas de Nelson (ousam os brasileiros a compará-lo com Eça):

Acho a liberdade mais importante que o pão.

O cretino fundamental é aquele que tenta deturpar o óbvio ululante.

O Ser Humano, tal como imaginamos, não existe.

Não há mulher bonita feliz.

Só os imbecis têm medo do ridículo.

Não há normalidade que resista a um olhar do avesso.

Amar é ser fiel a quem te trai.

Há em qualquer brasileiro, uma alma de cachorro de batalhão. Passa o batalhão e o cachorro vai atrás. Do mesmo modo, o brasileiro adere a qualquer passeata. Aí está um traço do caráter nacional. (vale para outros povos latinos que o momento me impede de explicitar)

O brasileiro é um feriado.

Dinheiro compra tudo, até amor verdadeiro.

Toda unanimidade é burra.

Não há nada que fazer pelo ser humano:o homem já fracassou.

Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza.

Um povo que ri da própria desgraça pode ser miserável. Mas jamais derrotado.

…e, então, aquele sujeito que, há 500 mil anos, limitava-se a babar na gravata, passou a existir socialmente, economicamente, politicamente, culturalmente etc. houve, em toda parte, a explosão triunfal dos idiotas.

Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.

Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea.

O mundo é a casa errada do homem. Um simples resfriado que a gente tem, um golpe de ar, provam que o mundo é um péssimo anfitrião. O mundo não quer nada com o homem, daí as chuvas, o calor, as enchentes e toda sorte de problemas que o homem encontra para a sua acomodação, que aliás, nunca se verificou. O homem deveria ter nascido no Paraíso.

É preciso ir ao fundo do ser humano. Ele tem uma face linda e outra hedionda. O ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez.

O povo é um débil mental. Digo isso sem nenhuma crueldade. Foi sempre assim e assim será, eternamente.

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